Bergoglio, Berrigan e as diferentes faces do radicalismo católico

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11 Maio 2016

Dois eventos são analisados por Massimo Faggioli, professor de História do Cristianismo na University of St. Thomas, EUA, em artigo publicado por Global Pulse, 10-05-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

A morte de Daniel Berrigan, SJ e o ‘sonho’ do Papa Francisco sobre a Europa, descrito no pronunciamento feito na semana passada, são, segundo Massimo Faggioli, “um momento perfeito para os católicos que tentam entender a interface complexa entre a sua Igreja e a política no mundo moderno”.

Ele conclui, provocativamente, perguntando: “A história católica mostra que se leva tempo para juntar todas as peças que aqui estão em jogo. Por exemplo, é interessante se perguntar como o provincial jesuíta autoritário, Jorge Mario Bergoglio, teria lidado com um confrade “desobediente” como Daniel Berrigan a enfrentar a ditadura argentina na década de 1970”.

Eis o artigo.

A última sexta-feira, 6 de maio, foi um momento perfeito para os católicos que tentam entender a interface complexa entre a sua Igreja e a política no mundo moderno.

Nesse dia, com uma diferença de poucas horas, dois casos diferentes de desdobraram: o Papa Francisco aceitou o prestigiado Prêmio Carlos Magno deste ano e Daniel Berrigan, SJ, falecido dia 30 de abril aos 94 anos, estava sendo entregue a Deus.

Os eventos aconteceram em dois ambientes muito diferentes.

O primeiro é a Sala Regia no Palácio Apostólico, uma antecâmara maravilhosa que dá acesso à Capela Sistina e cujo nome deve-se ao fato de ela ser um salão cerimonial usado para recepções papais a reis, príncipes e embaixadores.

O segundo é a Igreja de St. Francis Xavier, em Manhattan, uma comunidade eclesial progressista e inclusiva no coração da cidade de Nova York.

Estas cerimônias expuseram dois encontros divergentes de pessoas.

Em frente ao Papa Francisco estava uma assembleia seleta de primeiros-ministros, chefes de Estado e membros da realeza como o Rei da Espanha. Havia também muitas autoridades eleitas e burocratas importantes da União Europeia, incluindo Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu.

Os que estiveram na assembleia litúrgica a dizer um último adeus a Daniel Berrigan – padre, poeta e profeta da não violência – eram admiradores e seguidores de um jesuíta que ficou famoso em 1968 por queimar cédulas de alistamento de jovens que estavam sendo enviados ao combate no Vietnã. Condenado com os demais membros do “Catonsville Nine”, como o movimento ficou conhecido, ele passou à clandestinidade quando chegou a vez de se apresentar para a sentença de prisão. Dessa forma, ele acabou entrando para a “lista dos mais procurados” do FBI.

As mensagens políticas que decorrem destes dois eventos são semelhantes, mas também contêm algumas diferenças significativas.

As semelhanças decorrem do papel profético que a Igreja continua a desempenhar no despertar as consciências que – de acordo com o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ – estão fascinadas pelo “paradigma tecnocrata”.

O papa proferiu um discurso severo aos líderes europeus reunidos no Vaticano:

“Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade? Que te sucedeu, Europa terra de poetas, filósofos, artistas, músicos, escritores? Que te sucedeu, Europa mãe de povos e nações, mãe de grandes homens e mulheres que souberam defender e dar a vida pela dignidade dos seus irmãos?”

O Pe. Stephen Kelly, SJ, falou algo semelhante em sua homilia na missa fúnebre de Dan Berrigan, dizendo:

“Será que iremos permanecer num estado de estupor catatônico, adormecidos, bêbados, inconscientes, numa existência que não mostra sinal algum de vida? Permaneceremos neste Estados Unidos da Amnésia? Será que iremos chegar à perdição, ao domínio da morte com as nossas liberdades jamais usadas, intactas? O que há de bom estarmos paralisado pelo medo? Libertos, mas sem amar”.
Mas diferenças interessantes também foram discerníveis nestes dois eventos que destacavam o catolicismo profético.

Na comunidade St. Francis Xavier, em Nova York, a herança espiritual, teológica e política do radicalismo católico nos Estados Unidos do século XX esteve em exibição. (Curiosamente, este evento ocorreu algumas poucas semanas depois do funeral da Madre Angélica, o contrário exato do Pe. Berrigan.)

O funeral do padre jesuíta serviu para lembrar do impacto enorme que figuras públicas como ele e seu irmão Philip Berrigan (também sacerdote), Dorothy Day e Thomas Merton tiveram não só sobre os católicos, mas também sobre a cultura americana como tal. Estes foram cristãos vinculados aos ditamos da consciência moral inspirada pelo Evangelho de Jesus Cristo, e não às ordens das autoridades legais, incluindo aquelas autoridades da própria Igreja.

Enquanto isso, o Papa Francisco estava dando testemunho a um tipo diferente de radicalismo católico na Sala Reggia. A fala que proferiu ao receber o Prêmio Carlos Magno apresentou uma mistura interessante de um contraculturalismo católico com um senso comum católico convencional.

Francisco reconheceu a contribuição de cristãos na construção da unidade do continente europeu, mas também recordou a todos que a natureza dinâmica da Europa era feita de culturas e etnias diferentes.

A sua mensagem contracultural centrou-se na necessidade de reconhecer a dignidade humana de todos os povos, inclusive aqueles que fogem e migram de países assolados pela guerra e pela pobreza. O papa disse sonhar com uma Europa em que “ser migrante não [é um] delito”. Ele assim o fez diante de muitos líderes europeus que vieram ao Vaticano na semana passada basicamente para pedir a um bispo argentino que ajude os europeus a redescobrirem o que a Europa, de fato, é.

Francisco desafiou as instituições políticas da Europa a mudar, mas sem ser desafiador. Pelo contrário, citou os Pais fundadores do projeto europeu do pós-guerra – políticos católicos conservadores tais como Konrad Adenauer e Robert Schuman.

Não é só porque o Bispo de Roma não pode ser tão radical quanto o padre de Nova York. Há claramente semelhanças entre os dois jesuítas – Jorge Mario Bergoglio (agora Papa Francisco) e Daniel Berrigan – em seus radicalismos evangélicos.

Mas existem também diferenças significativas. Isso se deve não apenas aos papéis e às personalidades distintos deles, mas também por causa do posicionamento diferente da Igreja Católica em partes distintas do mundo.

Nos Estados Unidos do começo o período pós-Vaticano II, a Guerra do Vietnã teve um impacto sobre os membros católicos radicais comparável ao que a rejeição de Humanae Vitae teve sobre os católicos conservadores. Nestes últimos 50 anos, o catolicismo nos EUA tendeu a se ver em termos contraculturais. Para católicos como Berrigan, este período foi uma luta contra a cultura do militarismo, enquanto que, para aqueles mais na linha da Madre Angélica, estas décadas foram uma resistência à cultura progressista.

Mas alguém como Bergoglio não define a sua visão do catolicismo nos mesmos termos contraculturais. Em vez disso, ele vê como um chamado profético “dentro” de uma cultura, não contra ela. Não se trata somente de uma questão metodológica; é também teológica. No caso do Papa Francisco, é a “Teologia do Povo”, que trabalha a partir de dentro e com as pessoas. O papa procede a partir de um centro que ele identifica como a fé vivida do povo.

A localização faz diferença também. Um jesuíta de Nova York encara a americanização do mundo muito mais diretamente do que um confrade em Buenos Aires. Tem também a questão de como os católicos veem o seu papel na política interna do país.

Os fiéis europeus e latino-americanos veem os seus respectivos países como tendo sido construídos originalmente (e mesmo se acidentalmente) como nações católicas, o que faz com que aceitem mais facilmente a ideia de adotar uma postura contracultural radical.

Os fiéis nos EUA não conseguem identificar tão facilmente o projeto americano com a ideia de “raízes católicas”.

Não há dúvida de que grande parte do que Francisco está dizendo é o produto do crescimento do catolicismo em face da modernidade política, o que devemos a figuras como os irmãos Berrigans e Dorothy Day nos EUA, como o Pe. Lorenzo Milani na Itália e como os teólogos da libertação na América Latina.

Isso tudo, porém, constitui um quadro complexo.

A história católica mostra que se leva tempo para juntar todas as peças que aqui estão em jogo. Por exemplo, é interessante se perguntar como o provincial jesuíta autoritário, Jorge Mario Bergoglio, teria lidado com um confrade “desobediente” como Daniel Berrigan a enfrentar a ditadura argentina na década de 1970.

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