“Homens e Deuses”: uma lição de amor e fidelidade

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Por: Jonas | 10 Maio 2016

O filme “Homens e Deuses” (2010) nos leva a meditar sobre a importância de uma decisão, não de uma mera decisão, mas de uma decisão intimamente relacionada ao núcleo absoluto de nossa vida, de nossa identidade. Não por acaso, o sangue dos monges trapistas, assassinados em 1996, em Tibhirine, na Argélia, não cessa de produzir frutos, uma vez que se deu por uma resposta de amor e fidelidade, no interior de uma decisão tomada a partir de um profundo desejo de se centrar em Deus e servir ao próximo. Foi a partir deste panorama que o trapista Bernardo Bonowitz (foto), abade do Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente, Paraná, fez sua exposição no terceiro encontro do ciclo Cinema e Espiritualidade, promovido pelo CJCIAS/CEPAT, em parceria com a Faculdade Claretiana de Teologia, e apoio do IHU.

 
Fonte: CJCIAS/CEPAT  

O relato é de Jonas Jorge da Silva, membro da equipe do CJCIAS/CEPAT.

Para dom Bernardo, o filme é muito fiel à realidade vivida pelo grupo de monges trapistas que, neste país africano, cultivou uma boa convivência com os muçulmanos, respeitando as diferenças e marcando uma presença de amor e diálogo com a comunidade nas redondezas do mosteiro. Diante da real ameaça de radicais e fanáticos islâmicos, esses monges se negam a aceitar proteção do Exército, assim como também decidem permanecer no mosteiro, independente das reais possibilidades de um ataque daqueles que estavam em guerra civil.

Tal decisão exige de todos os monges um profundo processo de discernimento, já que conforme aumentava a tensão vivida naquela região, cada vez se tornava mais evidente a possibilidade de que fossem mortos. Sendo assim, aqueles homens passam a se deparar com as suas verdades mais íntimas, passando a enxergar sua própria condição de fraqueza, mas também de filhos muito amados por Deus, que precisavam buscar com ânimo e determinação a resposta mais coerente aos apelos do Espírito de Deus.

Na avaliação de dom Bernardo, o processo de discernimento destes monges, retratado pelo filme com momentos de medo, angústia e aflição, por um lado, mas também de coragem, determinação e liberdade, por outro, envolve questionamentos profundos a respeito do que compreendemos como a verdadeira vida. Os monges são colocados à prova e nos demonstram que a Salvação também passa pela experiência da fraqueza.

Do início ao fim do filme, percebe-se a maneira como esses monges, homens comuns, são desafiados a tomar a decisão de permanecer no mosteiro, ao lado da comunidade muçulmana a qual serviam, formando neles próprios uma comunhão fraterna que se intensifica e os fortalece profundamente, a ponto de chegarem ao momento de encontro com a morte cientes de que optaram pela fidelidade e o amor a Deus, núcleo central da existência humana.

 
Fonte: CJCIAS/CEPAT  

Como bem enfatizou dom Bernardo, na vida monástica, os monges não buscam ser deuses, tornando-se onipotentes, mas, ao contrário, almejam chegar a ser um só espírito com Deus, buscando a conformação com a vida de Jesus de Nazaré. Com a atenção fixa em Deus, o monge valoriza o silêncio, a solidão, a simplicidade e o trabalho manual. De sua pequenez, descobre o quanto é importante valorizar e aprender com a experiência do fracasso, diante da grandeza de Deus.

Passados 20 anos da morte dos monges trapistas na Argélia, ainda ficamos extasiados com os frutos evangélicos daquele martírio. Assistir “Homens e Deuses”, deixar sua mensagem cristã irrigar os nossos corações e conversar sobre a rica fonte de espiritualidade que essa entrega nos deixou como legado, faz aumentar em todos a responsabilidade sobre as pequenas coisas, pois qualquer pessoa, a qualquer momento, está sujeita a ter que tomar decisões fundamentais, que dizem respeito ao mais íntimo apelo divino à nossa existência.

Neste século XXI, marcado pelas exigências de êxito e de triunfo que a economia capitalista impõe sobre os ombros de todos, certamente, a espiritualidade cristã tem muito a nos dizer. Ela pode nos lembrar que somos pobres mendicantes, que em meio a tantas cortinas de fumaça, desejamos encontrar a Deus, optar por Ele, apesar de nossa fraqueza, de nossa pequenez. Somente uma resposta humilde, mas verdadeira, poderá nos levar ao centro de nossa verdadeira felicidade: Deus agindo em nós. Muitos homens e mulheres chegaram até aí e, em favor dessa harmonia total com Deus, deram tudo, pois descobriram que não tinham nada, a não ser o amor de Deus. Como entoavam os monges trapistas na Argélia: “Não existe nada, exceto o amor”.

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