Deus não tem religião. Artigo de Faustino Teixeira

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04 Abril 2016

Não há possibilidade de diálogo inter-religioso, se não se acolhe com ternura e com alegria o pluralismo religioso. Um pluralismo de princípio, ou de direito, não um simples pluralismo de fato. Isto é, não a simples constatação da pluralidade das religiões como uma realidade que é preciso aceitar, mas que não é desejada por Deus, mas sim o reconhecimento de que a diversidade é acolhida com alegria por Deus, que a diversidade é um valor, insubstituível, irrevogável.

A opinião é de Faustino Teixeira, professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora – PPCIR-UFJF, pesquisador do CNPq e consultor do ISER-Assessoria. É pós-doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana. Entre suas publicações, encontram-se Teologia e pluralismo religioso (Nhanduti, 2012) e Ecumenismo e diálogo inter-religioso (Santuário, 2008).

Faustino Teixeira participou, a convite da Comunidade de Base San Paolo, em Roma, num debate sobre o pluralismo religioso, juntamente com Claudia Fanti, de Adista, e Adnane Mokrani, teólogo muçulmano, autor do livro Leggere il corano a Roma. Adista Documenti, no. 12, 26-03-2016, publicou a íntegra do artigo que publicamos a seguir. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Comece citando um teólogo francês, o dominicano Claude Geffré: "A história religiosa da humanidade testemunha não só a busca às apalpadelas do mistério da Realidade última, mas também a pluralidade dos dons de Deus em busca do ser humano". O místico muçulmano Rumi já escrevia que não é o sedento que busca a água, mas é a água que vai ao encontro do sedento.

Sempre me deixou perplexo a ideia segundo a qual as religiões aspiram a Deus, mas é só no cristianismo que é possível encontrá-Lo. Que as religiões falam de Deus, mas só no cristianismo que Deus fala. É a chamada teologia do cumprimento: as religiões expressam um pedido de Deus que só no cristianismo encontra resposta. João Paulo II declarou em Aparecida que os povos indígenas estavam sedentos de Deus e que essa sede foi satisfeita com a chegada dos missionários que lhes fizeram conhecer Jesus.

Talvez um dos desafios mais significativos para o século XXI seja o do diálogo entre as religiões. Não é possível evitar se defrontar com aquilo que se apresenta como um verdadeiro imperativo do nosso tempo. Estamos todos imersos em um mundo cada vez mais habitado pelos outros, por identidades religiosas diferentes que se encontram ou se chocam. As diferenças estão diante de nós, ainda mais diretamente visíveis e ao alcance da mão, e podem ser objeto tanto de preocupação, de suspeita e de aversão, quanto de tolerância, de reconciliação e de diálogo.

A grande aposta que escolhemos fazer vai nessa segunda direção. Como afirma o escritor Marco Lucchesi, membro da Academia Brasileira de Letras, em um artigo intitulado Guerras de religião?, "o estrangeiro bate à nossa porta. Não há outro caminho senão o diálogo: na energia crescente, no vínculo de relação que o constitui. O diálogo é um tesouro precioso, uma zona de aventura, espanto e inquietação". Panikkar também falava do diálogo como uma aventura e um risco.

A abertura dialogal é precedida por uma acolhida calorosa ao pluralismo religioso. Não há possibilidade de diálogo inter-religioso, se não se acolhe com ternura e com alegria o pluralismo religioso. Um pluralismo de princípio, ou de direito, não um simples pluralismo de fato. Isto é, não a simples constatação da pluralidade das religiões como uma realidade que é preciso aceitar, mas que não é desejada por Deus, mas sim o reconhecimento de que a diversidade é acolhida com alegria por Deus, que a diversidade é um valor, insubstituível, irrevogável, que, como afirmava Louis Massignon, há uma dignidade sagrada nas religiões. Um reconhecimento que nos faz ver os outros não como "não cristãos", mas como nossos amigos, como se expressa o Papa Francisco quando fala das outras religiões.

O diálogo requer um olhar receptivo em relação à diversidade das fés. O pluralismo não é mais visto como um fato conjuntural e provisório, mas começa a ser reconhecido na sua positividade, como pluralismo de princípio ou de direito. O Papa Francisco, na Evangelii gaudium, afirma que "a diversidade é bela", que há um valor na diversidade. E isso contradiz a imagem de uma homogeneidade cristã. Reconhecer o valor dessa diversidade é o desafio mais importante para a teologia. É isso que ressaltaram Jacques Dupuis, Claude Geffré, Roger Haight, o jesuíta estadunidense autor do livro Jesus, símbolo de Deus, ou Christian Duquoc, autor do livro Único Cristo: a sinfonia diferida, em que ele fala do valor da diversidade e do pluralismo.

Trata-se de um espírito novo, que requer abertura e coragem, e que convida a teologia a romper com os esquemas tradicionais e a se aventurar em novos sendeiros. De fato, encontramo-nos vivendo uma situação inédita, uma situação que suscita uma nova sensibilidade, levando-nos a reconhecer a presença de Deus e da Sua graça nas diversas tradições religiosas. É esse o horizonte destinado a marcar os próximos passos da teologia: estamos diante de um pluralismo irredutível. Como sublinhou Geffré, os teólogos deverão, cada vez mais, suportar intelectualmente o enigma de uma pluralidade das tradições religiosas na sua irredutível diferença.

Nos amores, assim como nas religiões, sempre há um espaço de silêncio, de irredutibilidade, de irrevogabilidade. Disso falavam Louis Massignon e Christian de Chergé: da dimensão de enigma, de mistério presente nas tradições religiosas. A diversidade não é uma novidade: a história é marcada por essa riqueza, pela existência de respostas diversas às grandes questões existenciais. O que ocorre hoje é uma consciência nova da presença, da vitalidade e da riqueza das outras tradições religiosas. É algo que interroga a consciência cristã e também teologia cristã.

Humanos e terranos

Vivemos uma situação planetária particular, caracterizada pela interdependência e pela interconexão. É interessante que esse temo "interconexão" apareça tão frequentemente na encíclica do Papa Francisco Laudato si': trata-se da palavra-chave da antropologia contemporânea, a percepção, com toda a urgência que a acompanha, de que estão interconectados com todas as criaturas. É a questão decisiva, em relação à qual o diálogo inter-religioso representa apenas um aspecto limitado. Somos os povos de Gaia, como dizemos no Brasil. É preciso fazer uma distinção entre o termo "humanos", próprio de uma visão antropocêntrica, e o termo "terranos", que se refere, em vez disso, a quem capta essa dimensão de interconexão global. Os terranos são os povos de Gaia, contrapostos aos humanos, com a sua visão antropocêntrica. O Papa Francisco também dirigiu uma severa crítica ao antropocentrismo.

O diálogo inter-religioso deve ser vivido, portanto, de forma mais ampla, de modo a envolver não só as religiões, mas também todas as espiritualidades no cuidado da nossa Casa Comum, em favor de uma interconexão com todas as criaturas viventes e não viventes. Nessa perspectiva, no Brasil, eu me remete com força ao pensamento dos povos originários e, em particular, a dois líderes indígenas: Ailton Krenak, que recebeu o doutorado honoris causa da Universidade de Juiz de Fora, e David Kopenawa, autor do livro A queda do céu, uma reflexão sobre a antropologia indígena e sobre a questão da relação com os missionários no Brasil.

Purificar a linguagem

No âmbito da reflexão antropológica, Lévy-Strauss já havia alertado sobre as resistências às diversidades das culturas: o ser humano tem grande dificuldade de se relacionar com a diversidade, principalmente por causa de um etnocentrismo profundamente enraizado. Pelo que sabemos, "a diversidade das culturas raramente foi interpretada pelos seres humanos como ela verdadeiramente é, um fenômeno natural resultante de relações diretas ou indiretas entre as sociedades. Ao contrário, sempre foi vista como uma espécie de monstruosidade". Assim, reagindo ao etnocentrismo, o intelectual francês propunha corajosamente a defesa da diversidade das culturas em um mundo ameaçado pela monotonia. E ressaltava que tal diversidade deve ser salva e considerada sem surpresa, sem repugnância, sem condenação.

A teologia também é chamada hoje a captar essa diversidade, levando a sério o pluralismo religioso no seu significado mais positivo e estimulante. Como nos adverte Claude Geffré, devemos assumir o desafio de uma teologia inter-religiosa capaz de reinterpretar a especificidade cristã em função da riqueza de que podem ser testemunhas as outras religiões, com a sua capacidade de favorecer uma nova inteligência do mistério de Deus. Acolher o pluralismo de princípio significa rever com seriedade todo um patrimônio teológico cristão fundado sobre o exclusivismo – fora da Igreja não há salvação – ou sobre a perspectiva do cumprimento, isto é, sobre a ideia de que as outras tradições religiosas constituem uma preparação para o Evangelho, encontrando o seu completamento no cristianismo. É uma visão que ainda caracteriza a reflexão teológica cristã, e as resistências a uma mudança ainda são muito fortes hoje. A Dominus Iesus, com a sua distinção entre fé e crenças religiosas, é considerada quase um dogma.

No seu livro O cristianismo e as religiões, Jacques Dupuis enfatiza a importância de um salto de qualidade na reflexão teológica a fim de favorecer uma dinâmica de abertura e de colaboração mútua com as outras religiões. Ele evidencia três aspectos essenciais: 1) a purificação da memória, 2) a purificação da linguagem teológica, 3) a purificação da compreensão teológica. Aspectos entendidos como desafios teológicos fundamentais para o nosso tempo.

É preciso trabalhar no sentido de uma mudança da mentalidade e dos espíritos, uma metanoia, para uma melhoria das relações entre as religiões. É preciso operar uma mudança na compreensão das outras tradições, rumo a um novo modo de pensar os outros e o seu patrimônio cultural e religioso.

Nós, cristãos, vemos em Jesus o caminho e a possibilidade de salvação que Deus nos indicou. Mas não podemos universalizar essa experiência particular como se fosse válida para todas as outras religiões. Jesus é o caminho de salvação vivido pelos cristãos. Então, deve-se utilizar uma linguagem mais respeitosa, em vez de afirmar, como faz a Dominus Iesus, que as outras religiões são "gravemente deficitárias" quando comparadas com a religião cristã. Ou sustentar, como fez João Paulo II, que os muçulmanos creem em um Deus distante ou que os budistas são ateus. E o mesmo pode ser dito em relação ao conceito de povo eleito e até de Reino de Deus.

Se eu quero dialogar com as outras religiões sem abandonar a minha identidade, eu digo que estou domiciliado no cristianismo, que estou feliz com isso, mas que devo respeitar as outras tradições religiosas também na minha linguagem teológica. Sem pensar em ser o portador da luz. Como se o cristianismo fosse a religião de Deus. Não, Deus não tem religião. Deus não é católico, como ressaltou o Papa Francisco.

A partir das testemunhas

No entanto, muitos teólogos comprometidos nesse âmbitos sofreram uma repressão por parte do Vaticano. No Brasil, quando saiu o livro de Roger HaightJesus, símbolo de Deus, nenhum teólogo queria fazer a sua resenha. Por medo, porque o tema, com tudo o que implica, é realmente um ninho de vespas, para usar as palavras de José María Vigil em referência à cristologia.

É difícil conciliar o diálogo com as outras religiões com a insistência sobre a absoluta unicidade salvífica de Jesus. E Roger Haight teve a coragem de dizer isso. Dupuis escreveu que Jesus não é absoluto, absoluto é Deus. Haight foi além, falando da normatividade de Jesus para os cristãos, mas pondo em discussão a unicidade da mediação salvífica de Jesus em função da perspectiva dialogal. É uma questão espinhosa, e continua sendo sob o pontificado de Francisco, porque a convicção de que "fora da Igreja não há salvação" ou de que só se tem a salvação completamente na Igreja entrou tão a fundo no imaginário cristão que é muito difícil fazer uma mudança nesse sentido. Acompanhei Dupuis nos últimos anos e fui testemunha do seu sofrimento. Imaginemos os estudantes que entram no átrio da Universidade Gregoriana e leem que o Prof. Jacques Dupuis não vai dar aula por estar sob investigação por parte do Santo Ofício. É essa situação que o fez morrer.

Eu destaquei em um artigo meu que nem mesmo a teologia da libertação consegue fugir do inclusivismo, aquela perspectiva que concede a possibilidade de salvação também para aqueles que não são cristãos, por meio da sua inclusão na ação salvífica de Jesus Cristo. A maioria dos teólogos ligados à teologia da libertação pode ser inserido em tal perspectiva. Leonardo Boff se desvinculou dela através da visão ecológica, graças à qual é possível dar um fôlego mais amplo à reflexão teológica. Mas, em geral, os teólogos evitam entrar em questões relativas à eclesiologia e à cristologia, que são as mais espinhosas.

A partir desse ponto de vista, é muito mais fácil para os teólogos leigos que trabalham fora da instituição eclesiástica. Eu leciono em uma universidade pública, onde nenhum bispo pode me dizer o que devo fazer no meu trabalho teológico. Mas, quando eu trabalhava na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a situação era muito mais complicada. Para quem trabalha em uma universidade católica, a tentação da autocensura é muito forte.

No entanto, há um trabalho teológico periférico que abre caminho, muitas vezes em uma perspectiva mística, mostrando uma possibilidade diversa de pensar as religiões. Panikkar afirmou que, quando entramos no espaço das outras religiões, devemos tirar as sandálias, porque é um espaço sagrado.

Com a ajuda da mística, eu acho que toda a realidade é sacra. Teilhard de Chardin escreveu que não há nada de profano para quem sabe ver. E Ibn Arabi disse que todos nós estamos envolvidos no sopro do Misericordioso. Todo o mundo é permeado pela graça. Então, é necessária uma educação do olhar. Ser capaz de perceber a presença de Deus em cada lugar. Como afirmou Roger Haight, se não conseguirmos captar a positividade das religiões, a sua beleza, isso significa que não somos capazes de captar o significado do Deus Criador, que estamos desfigurando o rosto de Deus.

Dois anos atrás, eu fui convidado para escrever um artigo crítico sobre os pentecostais no Brasil, mas recusei: não compartilho certas posições dos pentecostais, mas também acho que eles deram uma contribuição importante em relação à dignidade dos pobres. E que, portanto, a reflexão teológica sobre os pentecostais deve ser conduzida com cuidado e delicadeza.

Para superar as resistências, em todo caso, acho que o melhor caminho é o de não falar de diálogo e de pluralismo de forma abstrata, mas sempre a partir das testemunhas, como Christian de Chergé ou como Louis Massignon. Quando se fala de diálogo através dos "buscadores", aqueles místicos e profetas que vivem no limiar, dentro da experiência do limite e da fronteira, as desconfianças são menores. Diante das testemunhas, há pouco a se discutir. Como é possível criticar uma figura como Christian de Chergé, com a sua transparência, a sua honestidade com o real, como diria Jon Sobrino?

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