Papa Francisco, a esperança dos indígenas latino-americanos

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08 Março 2016

Servi na Igreja durante 45 anos como sacerdote e 27 como bispo, e Deus me concedeu o privilégio de viver em contato muito próximo com os irmãos e irmãs indígenas. Desta maneira, fui testemunha de seus valores e convicções, assim como de suas fragilidades como seres humanos que são, mas principalmente, toquei com minhas mãos e com meu coração os seus sofrimentos e discriminações, seus sonhos e esperanças. Por isso, foi reconfortante e de esperança para mim a mensagem do Papa Francisco em sua recente visita a los pueblos indígenas de Chiapas. É uma mensagem que, através de florestas remotas e montanhas, ressoou com força do México até a Patagônia.

O depoimento é de Álvaro Leonel Ramazzini Imeri, bispo da Igreja Católica na Guatemala, que serve na Diocese de Huehuetenango, em artigo publicado por El País, 07-03-2016. A tradução é de Beatriz Affonso Neves.

"Vocês têm muito a ensinar a Humanidade", disse o Papa Francisco aos indígenas, homens, mulheres e crianças, muitos dos quais esperaram durante horas para ouvi-lo falar nas instalações do Sedem em San Cristóbal de las Casas. "Seus povos, como reconheceram os bispos da América Latina”, acrescentou o Papa, “sabem relacionar-se em harmonia com a natureza, que respeitam como 'fonte de alimento, casa comum e altar do compartilhamento humano”.

O Papa, na sua mensagem, exortou a reconhecer a dor que sofrem os indígenas ainda agora nos nossos países, abençoados com tantas riquezas naturais — terras, rios, fauna, flora — tudo agora em risco devido à voracidade mundial pela soja, pelo óleo de palma, pelo petróleo, pelo ouro e muitas outras fontes de riqueza que só beneficiam alguns poucos.

"Seus povos foram incompreendidos e excluídos da sociedade. Alguns consideraram inferiores seus valores, suas culturas e suas tradições. Outros, atordoados pelo poder, pelo dinheiro e pelas leis do mercado, apropriaram-se de suas terras ou realizaram ações que as poluíram", continuou o Papa Francisco, falando diante da multidão que, sob o sol, o escutava com atenção. Era uma multidão de homens e mulheres que vivem numa das regiões mais marginalizadas e abandonadas do México. 

Na sua mensagem, lembrou que a humanidade falhou no cuidado da terra, "nossa casa comum". No entanto, a sua mensagem está cheia de esperança porque após pintar um retrato contundente do impacto destrutivo do homem moderno nesta terra, o sucessor de Pedro sustenta que a sabedoria milenar dos povos indígenas é fonte de inspiração para encontrar soluções. Devemos buscar a resposta junto àqueles que, apesar de tudo, mantêm o respeito pela mãe terra.“.

Em dezembro do ano passado, o Papa Francisco escreveu na carta encíclica Laudato si que as florestas e as plantações dos indígenas não são uma mercadoria, mas "um espaço sagrado com o qual precisam interagir para conseguir manter sua identidade e seus valores". E chamou estes povos antigos dos melhores cuidadores destas terras, "nosso lar comum".

Sua visita inspirou vários dos líderes eleitos dos habitantes das florestas da América Latina a viajar até Chiapas neste fim de semana para uma reunião com funcionários da igreja. Vieram dar o testemunho do terrível impacto do crescente apetite mundial pelo ouro, pelo petróleo, pelas madeiras preciosas, óleo de palma e soja. Por isto, as florestas estão sendo dizimadas e suas comunidades divididas e confrontadas.

Chegaram com a mensagem de que palavras não bastam. Exigem que os governos e as empresas que investem em nossos países colaborem com os povos que respeitam a mãe terra, para deter a poluição do meio-ambiente como preço de um desenvolvimento que não beneficia os povos originais, nem a maioria dos cidadãos da América Latina. Dessa forma, expressaram mais uma vez sua capacidade e vontade de salvar as florestas e de proteger as riquezas naturais. 

Um desejo profundo que nasce do coração é que o Papa Francisco, com suas mensagens e sua postura, propicie uma mudança nos corações e mentes daqueles que causam danos às terras dos povos originais, que já estavam aqui quando chegaram os europeus com seu espírito de dominação.

É um desejo impossível de alcançar? De maneira alguma para aqueles que têm fé num Deus providente que cuida de seus filhos e filhas.

De qualquer forma, se o resultado deixado pela visita do Papa Francisco for uma nova maneira de como os povos indígenas vêm a si próprios, algo grande terá sido alcançado. Se aqueles que foram tão gravemente pisoteados na história forem capazes de ver a si próprios como os cuidadores amorosos do planeta, possuidores de um caminho sábio de solução, certamente serão fortes o bastante para elevarem sua voz e lutar por sua causa própria. Assim, talvez possamos ver no horizonte o início de uma nova era onde os povos indígenas das Américas — e, de fato, o mundo inteiro — oferecem-se para ajudar, não somente a si próprios, mas todas aquelas pessoas que compartilham de sua visão da vida e de nosso lar comum como algo sagrado.

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