O problema do cardeal de Francisco: uma estratégia de saída para George Pell

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08 Março 2016

"O cardeal pode querer se retirar tendo em vista uma aposentadora pacífica; e dado a sua baixa popularidade na Austrália, ele poderia ir trabalhar numa paróquia inglesa em Oxford, ambiente onde estudou quando eram um jovem sacerdote e onde será bem-recebido", escreve Christopher Lamb, correspondente de Roma da revista londrina The Tablet, em artigo publicado por The Age, 06-03-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Por anos ele tem sido uma das grandes feras da Igreja Católica.

Quando em Sydney, o Cardeal George Pell faria regularmente o cansativo trajeto de 22 horas até Roma, de forma que conseguia manter os seus contatos no Vaticano bem como um ouvido atento ao que acontecia na base.

Pell impressionou papas e companheiros cardeais com a sua defesa franca do ensino católico e, o que é compreensível, mandaria regularmente a outros prelados recortes de jornais onde ele estava sendo criticado na imprensa australiana por permanecer firme na defesa da fé.

Mas depois de quatro dias de interrogatório diante da  Comissão Real Australiana, onde repetidamente declarou desconhecer casos de abusos sexuais, o estoque do cardeal parece não estar mais tão em alta.

Importantes figuras no Vaticano estiveram acompanhando de perto o depoimento via videoconferência no hotel Albergo Quirinale e, sem dúvida, terão notado o comentário feito pela advogada que estava auxiliando a Comissão, Gail Furness, de que estas respostas apresentadas por Pell “não eram plausíveis”.

Aqui em Roma, o cardeal tem um papel fundamental que é de organizar as finanças da Santa Sé – em troca, isso lhe rendeu inimigos em uma cultura onde a responsabilização e a transparência são escassas. Mesmo os seus defensores mais ferrenhos hoje aceitam que Pell é uma figura em apuros, aparentemente sob ataque vindo de todos os lados.

Tudo isso apresenta um problema para o Papa Francisco, quem – após ser eleito para um mandato visando dar um fim aos escândalos na Igreja – nomeou o australiano para administrar uma nova secretaria para a economia. Pell ainda tem muito trabalho a fazer, mas será que Francisco vai encarregar uma pessoa para arrumar a sua casa, mas cujos próprios aposentos não parecem estar em ordem?

Uma solução para este dilema pode se apresentar no dia 8 de junho, dia em que o cardeal completa 75 anos – idade em que os prelados se aposentam. É pouco provável que Francisco peça a Pell para se retirar imediatamente, mas, de qualquer forma, é uma oportunidade, uma estratégia de saída. Uma oportunidade para ele sair pode ser depois que as primeiras contabilidades plenamente auditadas da Santa Sé forem publicadas e nas quais a empresa internacional PricewaterhouseCoopers está trabalhando.

O cardeal pode querer se retirar tendo em vista uma aposentadora pacífica; e dado a sua baixa popularidade na Austrália, ele poderia ir trabalhar numa paróquia inglesa em Oxford, ambiente onde estudou quando eram um jovem sacerdote e onde será bem-recebido.

Mas apressar a partida de Pell pode não ser a única decorrência dos trabalhos da Comissão Real. Ao ter uma figura de alto escalão diante de si, depondo direto de Roma, o acobertamento dos abusos sexuais cometidos pelo clero se tornou tema fortemente presente no ambiente vaticano. No passado, a Comissão teria sido vista como um problema australiano ocorrendo a confortáveis 16 mil quilômetros de distância.

A verdade é que existem alguns em Roma cuja abordagem aos abusos não traria bons resultados sob o interrogatório conduzido pela senhorita Furness. Poucas semanas antes de o cardeal depor, soube-se que bispos recém-ordenados ouviram, em um curso formativo no Vaticano, que eles não estavam obrigados a relatar acusações de pedofilia às autoridades civis. De forma semelhante, na Itália as próprias diretrizes da hierarquia dizem que os prelados não estão obrigados a informar a polícia.

Uma outra abordagem defensiva ao tema foi assumida na semana passada pelo Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que disse que a maioria dos sacerdotes foi “amargamente injustiçada” com as generalizações feitas sobre abusos sexuais. Em entrevista a um jornal alemão, o prelado falou que o termo “abafar” estava sendo empregado muito livremente em relação aos bispos.

Muitas altas autoridades ocupando cargos no Vaticano ainda “não sacaram” quando o assunto é lidar com casos de abusos sexuais, frequentemente vendo o tema através de um prisma jurídico estrito ou acreditando que a crise tem sido aumentada pela imprensa. As necessidades das vítimas, enquanto isso, aparecem muito abaixo na lista de prioridades.

Deve-se salientar que nem todo mundo em Roma está jogando contra. O papa criou uma comissão para a proteção dos menores de idade, e aí muito trabalho vem sendo feito no intuito de garantir que os bispos ao redor do mundo tenham orientações claras sobre a salvaguarda das crianças.

No entanto, estes são passos curtos àquilo que, com razão, foi tomado como a maior crise da Igreja desde a Reforma. A presença do Cardeal Pell diante da Comissão Real deveria aumentar a pressão no Vaticano para que ele faça muito mais.

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