Pedofilia e poder sagrado. Crise de credibilidade na Igreja

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Por: Jonas | 01 Março 2016

Ao analisar a problemática da pedofilia na Igreja, o teólogo e biblista chileno Pablo Richard considera que, apesar dos avanços para combater este crime, ainda “falta o mais importante: escutar o grito das vítimas. Toda a problemática da pedofilia deve ser analisada e julgada por eles próprios e a partir de sua própria realidade. Aqueles que foram vítimas têm o direito de ser sujeitos de sua própria vida, sujeitos da reconstrução de suas vidas e sujeitos da reconstrução dos fatos em que foram vítimas”. Seu artigo é publicado por Reflexión y Liberación, 26-02-2016. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Minha intenção com este artigo não é só aprofundar os depoimentos sobre a pedofilia na Igreja, mas também ir às causas, raiz e consequências desta perversidade. A pedofilia, e outras iniquidades similares, desencadeou uma crise na Igreja, que não é uma crise temporal que possa se ocultar e esquecer, mas uma crise profunda de credibilidade, que pode demorar muitas décadas para ser resolvida.

A Igreja entre a iniquidade e a libertação

Um fato revelador é confrontar a atitude da Igreja frente à pedofilia e a atitude radicalmente diferente da mesma Igreja frente à Teologia da Libertação. Por um lado, a Hierarquia foi permissiva, tolerante, legitimadora e acobertadora da pedofilia. Por outro, quase ao mesmo tempo, a Hierarquia da Igreja fez uma excessiva vigilância à Teologia da Libertação, o que levou a muitas condenações e medidas altamente repressivas e bem difundidas. Tivemos um modelo de Igreja no qual se abusou das crianças e as prejudicou profundamente em sua natureza humana.

Quase na mesma época, tivemos outro modelo de Igreja que optou pelos pobres e buscou sua libertação. À Teologia da Libertação se exigiu fidelidade irrestrita ao dogma católico e obediência ao Sumo Pontífice. À Igreja que sofria o problema dos clérigos pedófilos se impôs guardar silêncio, ocultar fatos, inclusive para os casos graves, guardar a informação como “segredo pontifício” (veja a carta de Hans Küng aos bispos, do dia 15 de abril de 2010).

Crise de uma Igreja cujo poder é a instituição, a lei e o dogma

Disse-nos Paulo de Tarso: “Vocês que buscam a justiça na Lei se desligaram de Cristo e se separaram da graça. Nós, de fato, aguardamos no Espírito a esperança de nos tornarmos justos mediante a fé” (Gl 5, 4-5).

Existe um modelo de Igreja que busca a justiça no cumprimento fiel da lei, da norma, do cânon, do dogma, da doutrina, da rubrica e da estrutura hierárquica da Igreja. Há outro modelo de Igreja que busca a justiça em uma atitude crítica frente à lei, ao dogma e à estrutura hierárquica da Igreja.

Esta busca se tornou efetiva com uma nova maneira de fazer teologia (Teologia da Libertação), uma nova maneira de ser Igreja (as Comunidades de Base), uma nova maneira de interpretar a Bíblia (a Leitura comunitária da Bíblia) e uma nova maneira de organizar os ministérios e celebrar a liturgia, à margem da rubrica e da lei. A Igreja que buscou a justiça na defesa absoluta da lei “se desligou de Cristo e se separou da graça”. A pedofilia é um sinal deste desligamento e desta desgraça. A Igreja da lei já não é uma Igreja que busca a justiça por meio do Espírito e da prática da fé.

“A ira de Deus se manifesta do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, que com a injustiça sufocam a verdade. Havendo conhecido a Deus se ofuscaram em seus raciocínios e seu insensato coração se obscureceu. Já que julgaram inútil conhecer a Deus, Deus os abandonou aos erros de seu próprio juízo, de tal modo que fazem absolutamente tudo o que é mau: injustiça, perversidade, cobiça, maldade, desafiam a Deus, são altivos, orgulhosos, farsantes, insensatos, desleais, sem amor e desapiedados” (carta de Paulo à Igreja de Roma: 1, 18-30).

“Nenhuma condenação existe para aqueles que estão em Cristo Jesus. A lei do Espírito, que dá a vida em Jesus Cristo, nos libertou da lei do pecado e da morte” (Rm 8, 1-2).

Leis, estruturas e dogmas que deram vida à perversão

a) A lei do celibato obrigatório

O celibatário obrigatório pode prejudicar profundamente a natureza humana. Uma exceção, à luz dos Evangelhos, seria o celibato assumido livremente por causa do Reino de Deus, sejam estes clérigos ou leigos. De fato, há médicos, enfermeiras, educadores e muitas outras pessoas que entregam toda a sua vida a serviço dos pobres, dentro e fora da Igreja.

Nos seminários e nos retiros espirituais aos sacerdotes, fala-se muito de “crucificar a sexualidade”. Outras vezes, diz-se que os desvios de tipo sexual são subjetivos e que podem ser superados com a oração, com uma boa disciplina e orientação psicológica, que não é dada normalmente por psicólogos, mas, sim, por “diretores espirituais”, prejudicados eles próprios pelo celibato obrigatório.

b) A mesma lei que justifica o celibato e condena a homossexualidade

A homossexualidade é uma opção legítima, quando conduzida por uma ética de amor e fidelidade. Um problema frequente surge quando se utiliza a condição clerical para encobrir a homossexualidade. A perversão não é a homossexualidade, mas, pelo contrário, a utilização da instituição eclesial para encobri-la.

A homossexualidade manipulada, reprimida e ocultada pode ser causa de sérias perversões sexuais. O cardeal Tarcisio Bertone, [quando] secretário de Estado do Vaticano, em sua visita ao Chile, sentenciou que não existe uma relação entre celibato e pedofilia, mas entre homossexualidade e pedofilia, e que esta constatação estaria fundamentada em sérias investigações científicas de psicólogos e psiquiatras. Em uma só declaração, o Cardeal buscou justificar o celibato e condenar a homossexualidade, negando toda a culpabilidade da Igreja nos crimes de pedofilia e culpando os homossexuais por estes crimes.

c) A lei absoluta na Igreja de incluir só homens em sua hierarquia

A Igreja católica é a mais antiga e poderosa instituição religiosa. Toda a sua estrutura hierárquica é composta exclusivamente por homens. Uma revista (Newsweek) falou do “clube masculino mais exitoso e indestrutível em toda a história”. O Papa em Roma, o Bispo em sua diocese e o Pároco em sua Paróquia são o mais antigo poder sagrado masculino na Igreja.

A exclusão da mulher da estrutura hierárquica da Igreja católica é a outra cara da masculinização absoluta do ministério clerical. Esta situação transforma a Hierarquia eclesial em um espaço onde tudo é discutido e decidido entre homens. Qual seria a posição da Hierarquia se a pedofilia fosse discutida entre homens e mulheres? Como seria a Igreja católica se o cargo atual de Secretário de Estado fosse exercido por uma mulher ordenada cardeal ou se uma mulher fosse a responsável por um dicastério no Vaticano?

d) Confrontação da Igreja Católica com a modernidade

Desde o século 19, a Igreja se viu ameaçada pela modernidade. Por isso, redigiu o “Sílabo de erros modernos”. O Concílio Vaticano I (1869-1870) enfrentou a “civilização moderna”, quando esta afirma a autonomia da razão, do indivíduo, do Estado e das ciências frente à Igreja católica.

Algumas conclusões do Concílio Vaticano I:

Que a Igreja é uma “sociedade verdadeira, perfeita, espiritual e sobrenatural”. Que a Igreja é “indefectível” e “infalível”.

Define-se o primado do Romano Pontífice, a soberania temporal da Santa Sé e a função do Papa como juiz supremo de qualquer controvérsia eclesiástica, ao passo que ele não pode ser julgado por ninguém, nem sequer pelo concílio. Finalmente, proclama-se “como dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice, quando fala ex cathedra, goza de infalibilidade”.

Enquanto tivermos um modelo de Igreja marcado por esta tradição conservadora, a hierarquia católica será incapaz de aceitar as melhores conquistas da modernidade, especialmente em matéria de sexualidade humana.

e) A lei que une perversão sexual e poder sagrado

O arcebispo de Poitiers, dom Albert Rouet, em seu livro intitulado: “J’aimerais vous dire” (Bayard, 2009), escreve: “A Igreja católica foi sacudida por vários meses por causa da revelação de escândalos de pedofilia. Isto tudo é uma surpresa? Gostaria, antes de tudo, de esclarecer uma coisa: para que exista pedofilia são necessárias duas condições: uma perversão profunda e um poder. Isto quer dizer que todo sistema fechado, idealizado e sacralizado é um perigo. Quando uma instituição, incluída a Igreja, fundamenta-se em uma posição de direito privado e se afirma em uma posição de força, os desvios financeiros e sexuais se tornam possíveis”.

As vítimas da pedofilia e a credibilidade da Igreja

É importante ver toda a realidade da pedofilia a partir de suas vítimas. Até pouco tempo, a Igreja considerou a pedofilia um pecado e não um crime. O pecado pode ficar oculto no segredo do sacramento da confissão, mas o delito é um crime que deve ser levado publicamente aos tribunais. A Igreja Hierárquica rejeitou a culpabilização da pedofilia e escondeu o pedófilo para salvar sua credibilidade e prestígio como Igreja. A mesma também ocultou a criminalização da pedofilia para evitar ser condenada e obrigada a pagar uma indenização econômica. Ocultar o crime e o criminoso para salvar o prestígio da Igreja é uma iniquidade e uma agressão contra as vítimas. Expressa também hipocrisia, farisaísmo e falta de solidariedade.

A Igreja Hierárquica acobertou os padres pedófilos com o pretexto de tornar possível um acompanhamento psicológico. Transferiu-os de uma paróquia para outra ou os enviou para uma diocese fora do país, com o pretexto de uma reabilitação dos pedófilos que não prejudique a credibilidade e o prestígio da Igreja. Argumentou-se que a pedofilia era uma “enfermidade”, que para ser “sanada” era preciso evitar qualquer escândalo público (entrevista com o cardeal Darío Castrillón Hoyos, realizada por Patricia Janiot, na CNN).

Um argumento utilizado para ocultar a pedofilia do clero era a prioridade que se devia oferecer à Instituição Eclesial, independente de suas vítimas. A reabilitação do clero pedófilo era vista, assim, como necessária em função dos interesses da própria Igreja. Esta, além disso, não deveria “perder” um sacerdote por causa de um problema “pessoal”, como era considerada a pedofilia. Também se argumentou que o número dos sacerdotes pedófilos era insignificante quando comparado com a maioria dos sacerdotes que não eram.

Também se discutiu que a porcentagem da pedofilia no clero era mínima, quando comparada com a porcentagem da pedofilia em nível social e mundial.

A Igreja também enfrentou os meios de comunicação que denunciavam a pedofilia em seu interior. Interpretou isto como uma campanha midiática perversa contra a própria Igreja católica. Agora, a Igreja se apresentava como vítima, e ocultava as verdadeiras vítimas da pedofilia.

Todos estes argumentos confirmam que a Igreja não via a pedofilia a partir de suas vítimas, mas, ao contrário, a partir de seus interesses, especialmente a partir da defesa de sua credibilidade e autoridade.

Os gritos das vítimas e os prantos da Hierarquia católica

Não basta que a Igreja peça perdão pelos crimes de pedofilia cometidos por sua hierarquia, episcopal e presbiteral. Tampouco basta a condenação dos sacerdotes pedófilos e a assim chamada “tolerância zero”. Também não basta que a Igreja tome medidas disciplinares para que a prática da pedofilia desapareça para sempre. Não é suficiente reconhecer que a Igreja se sente ferida e arrependida. Não é suficiente que os Legionários de Cristo declarem que o seu fundador, Padre Marcial Maciel, e alguns de seus discípulos não são exemplos de vida cristã e sacerdotal.

Tudo isto é justo e necessário, mas falta o mais importante: escutar o grito das vítimas. Toda a problemática da pedofilia deve ser analisada e julgada por eles próprios e a partir de sua própria realidade. Aqueles que foram vítimas têm o direito de ser sujeitos de sua própria vida, sujeitos da reconstrução de suas vidas e sujeitos da reconstrução dos fatos em que foram vítimas. Não desejam que sejam outros, inclusive seus vitimários, aqueles que falem por eles. Exigem eles próprios uma explicação sobre a razão pela qual a Igreja acobertou os clérigos e bispos pedófilos. Pedem pessoalmente uma condenação de seus agressores e uma indenização por danos infligidos.

Como sujeitos, eles querem ser solidários com outras vítimas de pedofilia, na Igreja e na sociedade, que ainda não puderam fazer sua denúncia e levá-la a julgamento. O grito das vítimas já ressoa no mundo inteiro. A solidariedade já se estende a outros milhares de meninos e meninas que sofrem outras realidades de morte, como as 16.000 que morrem de fome todos os dias.

Sentimos, hoje, a atualidade das palavras que Deus disse a Moisés: “Vi a aflição de meu povo no Egito, escutei seu clamor contra seus opressores e conheço seus sofrimentos. Desci para libertá-los e conduzi-los a uma terra que emana leite e mel” (Ex 3, 7-8).

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