Francisco "nos Méxicos": um programa arriscado na misericórdia e na paz

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15 Fevereiro 2016

 

Em uma breve mensagem, o papa Francisco compartilhava o seu anseio de estar próximo ao povo mexicano, um povo de seus muitos Méxicos, sobretudo dos que mais sofrem: “Uma complexa geometria social feita de opulência moderna, pobreza, violência do crime organizado, desaparecimentos contínuos, assassinatos, políticas inclusivas, exclusão e corrupção”. Ele fará visita apostólica entre os dias 12 e 18 de fevereiro de 2016. É possível perceber através dos locais que Francisco escolheu para visitar quais são suas prioridades: indígenas, migrantes, famílias, jovens, etc.

É na condição de missionário que chega ao México, antes passando por Cuba, mas não para impor uma verdade, e sim para comunicar através da proximidade do amor um percurso de misericórdia e de paz para a Igreja-povo mexicana. Ela está organizada em 93 dioceses, conta com mais de 92.924,489 milhões de fiéis, 5 cardeais e 170 bispos (INEGI 2010). É um programa ousado, porque misericórdia e paz não se enclausuram em uma categoria perfeita, mas coloca-se em prova na experiência concreta com a/na vida do povo mexicano.

“A misericórdia pode contribuir realmente
para a edificação de um mundo mais humano”

Papa Francisco

Um encontro inédito

Desde o encontro de Jerusalém com o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, em maio de 2014, Francisco anunciou uma celebração conjunta entre católicos e ortodoxos do Concílio de Niceia de 325, que 17 séculos atrás expressou a formulação original do credo. Em 1054, oficializa-se o rompimento cismático entre a Igreja Católica de Roma e a Igreja Ortodoxa em Constantinopla. A excomunhão mútua foi motivada por questões politicas-teológicas.

O caminho de aproximação iniciou-se com a Bula de União, no Concílio de Ferrara-Florença (1439), sem muitos resultados reais. Desde o pontificado de João XXIII cresce o desejo de proximidade, superar os percalços da historia e inaugurar um novo caminho na reconciliação. Paulo VI com o abraço no Patriarca de Constantinopla visibiliza esse desejo.

O Patriarcado de Moscou permanecia inalcançável. No ano 2000, sob o pontificado de João Paulo II, um encontro foi programado, mas não aconteceu. Bento XVI dá continuidade no empenho de um real encontro, mas sem reciprocidade da parte do Patriarcado de Moscou. Francisco insiste no empenho, esperando uma resposta recíproca: “nos veremos quando você quiser, onde quiser, como quiser”.

No dia 12 de Fevereiro, em Havana, Cuba, o papa Francisco se encontrou com o Patriarca Kirill, do Patriarcado de Moscou e de toda a Rússia. Houve uma conversa pessoal no Aeroporto Internacional José Martí, de Havana, e se encerrou com a assinatura de uma declaração comum. É um encontro histórico: “É importante, acima de tudo, porque é histórico. É a primeira vez que acontece depois de séculos de incompreensões, de lutas, de sangue”, diz Enzo Bianchi, prior da Comunidade de Bose.

O encontro é fruto do ecumenismo concreto de Francisco que se alimenta, sim, de profundidade evangélica, mas que não usa a confiança ao Espírito como álibi para não dar um passo, aqui, na terra. É uma abertura ecumênica que encontra ressonância não apenas nas relações entre católicos e ortodoxos, mas também para o diálogo interno entre ortodoxos condicionado pela sua complexa história.

Na palavra cisma, encontra-se o significado de “dividir os lados”, um dividir que distancia na condenação e excomunhão mútua. Já na atitude de Francisco e Kirill podemos recorrer à palavra téssera, que “divide os lados” num comprometimento mútuo. É o comprometimento de uma disposição dialógica. É a troca do documento de acusação pela téssera de hospitalidade, onde o partir das partes, não é para romper, mas para com-dividir responsabilidades no cuidado mútuo.

A suavidade da Virgem e o rosto dilacerado pela violência: dois Méxicos

Dando continuidade a viagem apostólica, no dia 13 de fevereiro, na cidade do México, está reservado diversos encontros dentre eles com o Presidente da República, as Autoridades, a Sociedade Civil, o Corpo Diplomático, os Bispos. Francisco conclui seu primeiro dia no México, como peregrino e preside uma celebração eucarística na Basílica de Guadalupe, cuja devoção encontra lugar privilegiado na experiência religiosa e cultural do povo mexicano. É um caminho devocional, em Francisco, esse caminho-mística torna-se motor para um encontro real com as situações concretas. Nela não reside espaço para o isolamento em uma “santidade fingida”, mas de um real comprometimento com o santo escondido nos problemas reais da vida humana.

No dia 14 de fevereiro, Francisco visitará a diocese de Ecatepec: celebrará a Eucaristia e almoçara no Seminário da Diocese. A suavidade da Virgem logo é trocada por outra geografia. É um percurso de coragem evangélica, como promotor da paz, portando-a como fruto da justiça e do direito. Eis que surge outro México: aquele que porta em seu rosto as marcas da violência. Ecatepec é um município muito violento. Com isso, fica claro que o percurso de Francisco não será suave, mas arriscado e desafiador. Ele vai ao encontro daqueles que outros não querem. No mesmo dia, volta para a cidade do México, para fazer uma visita ao Hospital Pediátrico “Frederico Gómez”.

É possível acompanhar a visita através do sitio: www.papafranciscoenmexico.org.

 Indígenas: outro México

No dia 15 de fevereiro, em San Cristóbal de las Casas, acontecerá um encontro com os povos indígenas na Celebração da Eucaristia (de modo amplo), inclusive as leituras e os cânticos serão em algumas línguas nativas; e na Comensalidade com os representantes dos povos indígenas (de modo particular). É uma das dioceses mais antigas. Foi criada em 1539, e seu primeiro bispo foi frei Bartolomeu de las Casas. Ela convive com um alto índice de pobreza e marginalização, sobretudo dos indígenas que somam 75% da população, em busca de direitos: condições melhores de vida na saúde, educação, comunicação, água, saneamento, etc. É preciso considerar os esforços governamentais e não-governamentais para garanti-los, mas sendo insuficientes na plenitude de uma solução.

Nela acontecerá a experiência do encontro no/do plural. É um sinal simbólico, sobretudo porque no México existem 62 povos originários, com 11 milhões de pessoas, que se reconhece como Pluricultural, garantindo em sua Constituição (2001) um avanço significativo na garantia dos direitos e no reconhecimento da dignidade dos povos indígenas. Mas, o gesto de proximidade aos indígenas no México, ganha uma importância singular para a América Latina, cujo continente de Esperança e de Libertação, muitos dos povos indígenas são negados e negligenciados em seus direitos (como por exemplo: a situação indígena no Brasil).

Samuel Ruiz García foi bispo na diocese entre 1960 e 2000. Ele fez sua opção pelos indígenas, lutando por seus direitos. Nele o espaço cultural dos indígenas torna-se labor e lugar teológico. É um lugar contextual onde se pode pensar Deus. Na evangelização, possuía o desafio da extensão da diocese e da insuficiência de presbíteros, entretanto, assume um plano pastoral que cumpria três funções: ensinar castelhano aos indígenas, “calçar-lhes sapatos” e melhor sua dieta. Era a garantia de condições mínimas para uma vivência humana. Era uma solução para dinamizar a evangelização e espantar dois “fantasmas” que lhe incomodavam: o avanço dos protestantes e sua influência entre os indígenas; e o comunismo marxista.

Francisco ao visitar o túmulo de Samuel Ruiz sinaliza para duas dimensões importantes na vivência transparente de uma fé culturalmente relevante: 1. O papel precursor e legitimo no desenvolvimento de uma Teologia contextual, nesse caso, a Teologia Indígena; 2. O passo simbólico e significativo rumo à aceitação hierárquica de um catolicismo engajado sociopoliticamente em favor das camadas exploradas da sociedade capitalista e, sobretudo, da valorização da diversidade étnico-cultural no seio da instituição católica.

Centro Penitenciário, Mundo do Trabalho e Migrantes: outros Méxicos

No dia 17 de janeiro, em Ciudad Juarez, Francisco em seu último dia de viagem fará uma visita ao Centro Penitenciário, um encontro com integrantes do mundo do trabalho (empresários e trabalhadores) e presidirá a Celebração Eucarística. Francisco adentra uma região de fronteiras geográfica e humana. É uma região com muitas tensões. Nela ele se encontrará com o rosto plural de um México sofrido, baqueado com uma violência histórica e crônica. Nela os sonhos de um futuro melhor atravessam como possível esperança.

O fenômeno das migrações é uma realidade que desafia a humanidade como um todo. Não é um "privilégio" da Europa e dos Estados Unidos – “potências mundiais”. No Brasil, convivemos com o rosto de um outro plural – senegaleses, haitianos, bolivianos, e muitos outros – , que busca algo diferente para sua vida. A acolhida é uma dádiva, porém lamentavelmente com facilidade encontramos desculpas para não acolher. Eles vem para tomar os empregos de nossos(as) filhos(as), esposos(as), amigos(as).

Os migrantes que se aventuram pelo México para entrar nos Estados Unidos somam 150 mil por ano. A média de idade é de 27 anos. Eis que um muro-barreira é o limite. Existem pessoas que constroem pontes, outras edificam muros. O sonho é maior que o muro intransponível. Por isso, os migrantes para realizá-lo se submetem ao destino que organizações criminosas queiram lhes dar, e frequentemente os fazem vítimas.

Convém fazer uma distinção entre os “coiotes” e os “traficantes de pessoas”. Não são os mesmos sujeitos. Os “coiotes” são aqueles que auxiliam os migrantes transporem a fronteira. Eles cobram um bom preço. No entanto, uma vez atingido o objetivo a pessoa é responsável pelo seu destino no país. Os “traficantes de pessoas” são aqueles que utilizam de múltiplas artimanhas para “seduzir” as pessoas e submetê-las a uma condição de escravidão, geralmente para a exploração laboral, sexual, etc. É a experiência de negação da liberdade e da dignidade. Aqueles que caem na “malha fina” dessas redes criminosas tornam-se ninguém: sem identificação (o passaporte é recolhido) e sem identidade (a usurpação da dignidade).

É o momento ápice da visita. O programa arriscado de misericórdia e paz agora encontra sua plena radicalidade. Em Ciudad Juarez/El Paso, Francisco assume a síntese dos dramas encontrados nos outros Méxicos, e por isso não se contenta em apenas rezar próximo ao muro, mas sua proximidade é escandalosa porque assume as últimas consequências. Ele quer olhar para o lado de lá e estender a mão para aqueles que estão lá. Talvez o “sonho maravilhoso” não se tornou realidade, porque precisam viver na clandestinidade, mas a mão de Francisco é a mão dos muitos que estão do lado de cá. É um gesto de solidariedade e de justiça.

Por Jéferson Ferreira Rodrgues

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