“O Papa terá que dizer uma palavra sobre o tema da homossexualidade”

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Por: Jonas | 04 Fevereiro 2016

“A homossexualidade é obra de Deus. Não é criação humana. As pessoas homossexuais são criaturas de Deus, de seu amor e, portanto, a única forma que poderiam frustrar sua existência é que não amem a seu próximo como Deus as ama”, escreve o teólogo jesuíta Jorge Costadoat, em artigo publicado por Religión Digital, 01-02-2016. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O tema da homossexualidade na América Latina é novo. Tem uma década, no máximo duas. Porém, a realidade é antiga, talvez tanto, talvez não, como sua censura. A censura religiosa tem sido cruel em seu propósito. Por isso, a simples frase do Papa Francisco, “quem sou eu para julgar aos gays”, foi libertadora.

Por certo, em alguns países, a abordagem do tema foi incômoda para as gerações mais velhas. Também em outras partes do mundo há inquietação. Em algumas igrejas protestantes se aceitou que ministros do culto tenham um parceiro homossexual. Porém, em outras tem ocorrido reações furiosas a esse respeito, e contrárias à possibilidade de legalização de uniões e matrimônios homossexuais.

No campo católico, as mesmas tensões são experimentadas. As Igrejas dos países desenvolvidos esperavam que no Sínodo sobre a Família ocorresse algum tipo de reconhecimento aos casais homossexuais. No entanto, as igrejas da África, segundo se diz, não quiseram ouvir falar sobre o assunto. O texto final parece acolher esta posição. O Catecismo da Igreja Católica, por sua parte, trava esta possibilidade. Não considera que a homossexualidade seja uma perversão, mas a trata como uma inclinação “objetivamente desordenada” (Catecismo, 2357). As pessoas homossexuais devem viver sua condição com resignação religiosa.

Contudo, os católicos ‘aberturistas’ acreditam ver no documento do Sínodo algo como uma fissura no muro. O Sínodo pede respeito à dignidade das pessoas homossexuais. Mas, além disso, demanda “uma atenção específica ao acompanhamento das famílias nas quais vivem pessoas com tendência homossexual” (76). Quem? Filhos e filhas homossexuais? Pensamos que sim, óbvio. Não é óbvio, pelo contrário, o texto também não exclui a possibilidade de que a indicação se aplique a pais homossexuais.

Esta foi uma redação descuidada ou deliberadamente ambígua? Os moralistas avançados, além disso, fazem notar que o Sínodo não fez uma condenação explícita aos “atos homossexuais”, do modo como está no Catecismo. Enfim, o Papa terá que dizer uma palavra sobre este tema, o mais importante para a Igreja dos Estados Unidos e para muitos europeus. Durante 2016, deve vir à luz uma exortação apostólica com a qual Francisco apresentará uma palavra orientadora final sobre estas matérias de moral familiar, matrimonial e sexual.

Temos diante dos olhos uma situação pouco frequente. Eis, aqui, uma questão que estava fechada à discussão, que depois o Papa abriu, mas que o próprio Francisco terá que encerrar logo mais. A Igreja tem pela frente a obrigação de pensar, iluminada por sua fé, uma realidade humana que, havendo sido cruelmente soterrada por gerações, emergiu em nossa época com uma luta para se abrir um espaço no interior de uma cultura que foi contrária; como uma reinvindicação de amor e de justiça que merece ser conhecida a fundo, e que nos permite abrir o coração, modificar nossas atitudes e aperfeiçoar os critérios para fazer desta reivindicação um reivindicação própria.

Permito-me, aqui, uma reflexão teológica, pois precisamos desfazer um dano antigo e injusto que possui um aspecto religioso. A teologia, a respeito do tema da homossexualidade, precisa oferecer argumentos que atualizem do modo mais humanizador possível a revelação de Deus ocorrida em Cristo, o paradigma de humanidade dos cristãos (Gaudium et spes 22). O que a teologia diz a respeito das próprias pessoas homossexuais, independentemente de seus atos? Quem são? Deus as pensou assim?

Faz-se necessário, pois, relacionar as argumentações magisteriais sobre a revelação, que foram desenvolvidas durante 2.000 anos, com as argumentações científicas contemporâneas. Há razões e há convicções que, estando corretas, a Igreja deve considerar que vêm do próprio Deus. A Igreja, por acreditar no Criador da humanidade, é obrigada a tornar suas a ciência e as convicções éticas da cultura na qual ela cumpre sua missão, quando é possível comprovar que estas conquistas tornam a vida humana mais feliz. Se Deus não quer outra coisa a não ser o triunfo da humanidade sobre si mesma, seria absurdo que a Igreja se opusesse a sua vontade.

O caso é que as ciências apresentam resultados importantes. Hoje, diz que a homossexualidade não é uma perversão. Ninguém escolhe ser homossexual. Chega-se a ser por razões biológicas (carga genética) e/ou por razões biográficas (a história pessoal). A homossexualidade é uma realidade pré-moral. A pessoa é livre quanto ao modo de viver a homossexualidade, mas não quanto a ser ou não. Outro resultado científico importante é que, segundo sustenta a Organização Mundial da Saúde (1990), também não se trata de uma patologia, mas, ao contrário, de uma variante da sexualidade humana. Os esforços médicos para curá-la foram funestos.

Dito em termos duros: se os homossexuais são inocentes quanto a sua condição, esta é um “pecado” de Deus. Dito em termos brandos: Deus é o responsável da sexualidade humana em todas suas versões e, caso nos custe a entender como, devemos nos esforçar, mais uma vez, para entrar no mistério do amor de Deus. A homossexualidade é obra de Deus. Não é criação humana. As pessoas homossexuais são criaturas de Deus, de seu amor e, portanto, a única forma que poderiam frustrar sua existência é que não amem a seu próximo como Deus as ama. A pessoa homossexual é um “dom” de Deus para ela própria, mas também um “dom” para os demais, já que é inerente ao dom se doar e não se subtrair egoisticamente em relação aos outros.

Chegamos, assim, a duas perguntas: o que uma pessoa homossexual deve fazer para amar a si mesma como Deus a ama? Este é todo um programa de vida. Isto também cabe, e com igual importância, às pessoas heterossexuais. Segunda pergunta: como uma pessoa homossexual pode ser um dom para os demais? Este é o ponto teologicamente mais difícil. Um amigo homossexual me disse: “Como pode Deus dar às pessoas homossexuais a condição, mas lhes negar seu exercício?”. A pergunta é difícil porque a própria Igreja sabe e ensina que a única coisa que realmente arruína as pessoas é o egoísmo e a indiferença diante do sofrimento do próximo.

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