“Mesmo que a mídia trate muito mal o Cunha, ela quer o impeachment da Dilma”. Entrevista com João Feres Júnior

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Por: André | 09 Dezembro 2015

Diante da concentração dos meios de comunicação no Brasil como fator determinante para a política desse país, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) desenvolveu algumas ferramentas de pesquisa para analisar os discursos dos poderes midiáticos. O Manchetômetro é uma plataforma virtual que apresenta uma análise dos principais jornais no que se refere a determinados temas, tais como a: gestão de Dilma, o PT e a oposição.

O coordenador do projeto, João Feres Júnior, cientista político, professor e vice-diretor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, analisa a função da mídia na arena política do Brasil.

A entrevista é de Julia Goldenberg e publicada por Página/12, 07-12-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

O que é o Manchetômetro?

É um sítio que analisa a cobertura jornalística da política brasileira realizada pelos principais jornais do Brasil, isto é, os mais importantes para a opinião pública. O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de São Paulo, além do noticiário televisivo Jornal Nacional, que é o de maior audiência no Brasil. Nós analisamos toda a cobertura que estes jornais fazem.

A cada notícia atribuímos um valor: contrário, favorável ou neutro em relação ao objeto que tratam, e assim podemos avaliar qual é a linha que assumem em relação a este ou aquele candidato, ou em relação a este ou aquele partido político, ou em relação à economia. Estes dados são classificados de acordo com o tema tratado: se o conteúdo é favorável, contrário ou neutro atribui-se um valor. Estamos realizando este trabalho desde o começo de 2014, o que nos proporcionou dados muito valiosos.

O que os leva a criar e manter este sítio?

A tradição dos estudos acadêmicos sobre os meios de comunicação no Brasil mostra que os principais meios de comunicação têm uma tendência muito forte para inclinar-se à direita. Quando analisamos em profundidade a função da mídia podemos avaliar uma cobertura midiática muito tendenciosa, contra o PT e contra toda a esquerda. No entanto, tratava-se de trabalhos muito pontuais que eram realizados com uma metodologia muito simples. Ao contrário, a ideia do Manchetômetro é poder analisar dados e fazer com que as pessoas que seguem o sítio possam realizar uma análise da cobertura diária sobre estes temas numa perspectiva crítica.

Se o projeto surgiu durante o ano eleitoral, que função cumpre atualmente?

Estamos realizando uma análise da cobertura depois das eleições. Há muito para analisar: a cobertura dos escândalos de corrupção, a cobertura da gestão da presidenta, dos principais políticos da oposição. Há um valor pós-eleitoral para este tipo de análise. A mídia brasileira é muito concentrada e não é como na Argentina, onde existem alternativas; no Brasil, todos os grandes meios de comunicação são opositores.

Além disso, fazem coberturas muito tendenciosas, violando recursos do jornalismo mais básico. A nossa ideia é produzir dados concretos para poder discutir com o poder midiático que proporciona uma informação muito enviesada. Este sítio cumpre o papel de colocar à disposição das pessoas ferramentas para que possam analisar criticamente a cobertura dos meios de comunicação, para comparar a realidade que vivem e a informação que leem diariamente.

De acordo com a análise realizada no período eleitoral de 2014, a Dilma conseguiu vencer o seu rival mesmo com toda a mídia contrária a ela. Como se explica isso?

É que no Brasil, justamente durante o período eleitoral o monopólio da comunicação da mídia e a ação da mídia se quebra. Então, é nesse momento que os partidos políticos e seus representantes podem comunicar-se com a população, embora não de forma contundente. Por meio da propaganda eleitoral abrem-se novos canais de comunicação entre os candidatos e a população.

No Brasil, durante o período de campanha, que tem uma duração de três meses, todas as televisões e rádios são obrigados a abrir um espaço para a propaganda política, onde a mensagem dos candidatos busca chegar diretamente ao eleitorado. Assim, neste período, os meios de comunicação deixam de monopolizar os discursos. Isso explica por que a Dilma nesse momento pôde comunicar-se com as pessoas, contar à população as coisas positivas da sua administração. É muito pior depois das eleições, porque acaba a comunicação direta entre os mandatários e o povo, e a política torna-se completamente dependente do monopólio da comunicação.

Você considera que é possível governar o Brasil com uma grande porcentagem de manchetes negativas?

É complexo, porque inclusive a cobertura da economia é muito negativa. Nós conseguimos demonstrar, com as análises que fizemos, que a cobertura sobre a economia brasileira é tendenciosa e pessimista muito antes do começo da crise. Então, pudemos constatar que a mídia semeia um clima negativo, de crise econômica, antes que a crise efetivamente ocorresse. É uma ferramenta chave para atacar o governo. Os empresários, os políticos e a classe média são os principais leitores destes meios de comunicação e a expectativa econômica dos empresários é grandemente influenciada pela forma como se cobre midiaticamente o panorama econômico.

O problema é que o PT sempre foi tímido com as políticas que limitariam os meios de comunicação. Não fizeram nada a respeito e estão pagando muito caro. O trabalho contínuo da mídia sobre a opinião pública produziu um desastre no Brasil e o PT não contava com isso. Agora reina um discurso liberal, de desprezo pela política e pelo Estado. A mídia conseguiu instalar este discurso ultrapassando a classe média e a classe alta. Este discurso penetrou em todas as classes sociais. Conseguiram convencer os mais vulneráveis de que o governo do PT é a razão de seus piores males, quando na realidade é o contrário.

De acordo com as análises feitas, qual é a estratégia da mídia sobre o PT?

A análise que fizemos no Manchetômetro mostra que a cobertura do PT é mais negativa que a cobertura que fazem da gestão de Dilma. O ataque ao PT é uma coisa sistemática, mesmo pior que com Lula, que é a pessoa que mais odeiam. A destruição do PT nas notícias é desmedida, como se fosse o pior partido do mundo, o mais corrupto, etc.

É notável que se uma pessoa olha os escândalos de corrupção, como, por exemplo, a Operação Lava-Jato, o PT não é o partido com mais funcionários envolvidos.

Não, claro! O PP é o partido mais envolvido. A forma como transmitem a informação é completamente tendenciosa, enfocada fundamentalmente contra o PT. Pode-se medir este impacto por meio de pesquisas: o PT era o partido mais popular do Brasil, bom, e segue sendo, embora tenha caído muito sua imagem, quase pela metade.

Depois do escândalo da Veja e das desculpas de O Globo por algumas mentiras que divulgaram sobre Lula e Dilma, vocês investigam de forma diferenciada a informação falsa que circula na mídia?

Nós não pesquisamos isso especificamente. Não podemos checar se as coisas que se dizem são verdadeiras ou não, isso requer um orçamento maior; conseguimos apenas analisar o conteúdo dos textos jornalísticos e atribuir-lhes um valor em relação ao tema que tratam. Estamos começando a analisar a mídia digital. O Manchetômetro é uma ferramenta, o começo de um mecanismo de análise dos meios de comunicação, mas é necessário estudar em profundidade tudo isto.

É verdade que O Globo publicou uma errata admitindo que mentiu sobre o filho do Lula. Este tipo de publicação deve-se ao fato de que no Brasil foi aprovada recentemente a lei que regula o direito de retificação ou de resposta quando um veículo de comunicação publica uma informação ofensiva ou falsa. Então, as pessoas que são vítimas deste tipo de publicação, agora podem entrar com um processo contra as empresas jornalísticas na Justiça. Assim, os meios de comunicação se veem na obrigação de retificar a mentira que publicaram e isto permitiu colocar um limite à informação enganosa que circula.

Antes podiam destruir uma pessoa com uma notícia sem responsabilizar-se de nenhuma maneira. A retificação de O Globo tem a ver com a lei já colocando limites. Também há os casos das revistas Veja ou Época, que também são revistas acostumadas a atacar personalidades da esquerda, e graças à lei já não podem publicar informação falsa.

Você considera que estes mecanismos legais podem contribuir para uma moderação da opinião pública ou os grandes veículos de comunicação seguem marcando a agenda?

Os grandes meios de comunicação seguem marcando a agenda. Esta lei que mencionei antes foi proposta por um parlamentar do PMDB de esquerda, um caso raro dentro deste partido. Mas, além deste caso não há muita vontade política para articular propostas de lei de regulação da mídia. O que existem são movimentos sociais, movimentos de jornalistas que se preocupam com isto, mas não conseguiram uma proposta legislativa forte que chegasse ao ponto de propor medidas legais consistentes. É muito difícil, no Brasil, o processo para criar uma lei que possa operar em profundidade.

Além disso, creio que há uma crise muito forte no modelo de financiamento dos meios de comunicação no mundo. Os meios de comunicação perderam muito orçamento, já que a propaganda mudou, porque na internet funciona diferente. A mídia brasileira está demitindo jornalistas todos os dias, uma vez que estão perdendo o orçamento que provinha da publicidade. Isto se deve ao fato de que a publicidade que figura nos meios digitais, geralmente entra através do Google ads e a maior parte não é destinada aos meios digitais. Então, o dinheiro que antes ia para o financiamento da produção de notícias, agora é destinado a outro tipo de sítios: sítios de venda de roupas, Wikipédia, por exemplo, ou seja, sítios mais variados. Então, os meios digitais não contam com um orçamento suficiente para pagar jornalistas e produzir conteúdo.

Ao passo que os meios de comunicação tradicionais, agora em profunda crise financeira, conservam o monopólio da produção de conteúdo jornalístico, aqui e em outras partes do mundo. Neste sentido, existe uma crise muito forte do sistema de geração e circulação de informações em nossas sociedades, e não está claro que a crise vá ser resolvida. No Brasil, como temos uma forte concentração dos meios de comunicação em mãos privadas, de poucas famílias de inclinação conservadora, as coisas são ainda piores. Quanto mais ameaçados se sentem, mais radicais se tornam.

Você considera que os meios de comunicação podem ser um espaço de resistência para a população frente a governos conservadores?

É verdade que os jornalistas em geral se arrogam o lugar de defensores do povo diante dos governos, mas isto é determinado pelos interesses de cada grupo midiático. Os grandes meios de comunicação brasileiros apoiaram historicamente tanto os governos da ditadura militar, como os governos neoliberais de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Antes do Golpe de 64, esses meios de comunicação, que eram propriedade das mesmas famílias que os possuem atualmente, apoiaram alguns golpes contra Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart. Por último, também deram seu apoio ao golpe que liquidou a democracia brasileira e o estado de direito durante 30 anos.

Nós fizemos uma análise da cobertura das eleições de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso estava tentando se reeleger e descobrimos que a mídia, em vez de ser crítica do governo que buscava a reeleição, dedicou-se a atacar o PT, que nunca havia governado. Então, no Brasil, não podemos afirmar que a mídia cumpra o papel de combater o poder instituído: são conservadores e neoliberais.

É interessante a análise realizada sobre a Operação Lava-Jato, já que dá conta de que os índices contra o governo aumentaram de forma brusca no dia seguinte às eleições, quando a Dilma foi reeleita. Como interpreta a estratégia midiática desde então e para onde aponta? Você considera que isso é causa da crise institucional que o Brasil vive hoje?

Uma das causas da crise institucional é, certamente, o tratamento dado pelos meios de comunicação ao que é a Operação Lava-Jato. Além disso, existe certa disposição da oposição em dar um golpe institucional aproveitando a fragilidade política da Dilma. O jogo que armaram é que a presidenta, por ter vencido por poucos votos de diferença, não tem legitimidade. Com este argumento buscam por todos os meios destituí-la, através do julgamento político e de todo tipo de operações deslegitimadoras.

Isto se soma a uma fatalidade histórica que é a eleição do ultraconservador Eduardo Cunha, do PMDB, para a presidência da Câmara dos Deputados. Cunha também está envolvido no escândalo de corrupção da Lava-Jato. O problema é que abriu a possibilidade de aceitar um pedido de impeachment contra Dilma em troca da preservação do seu cargo. Mesmo que a mídia trate muito mal o Cunha, ela quer o impeachment da presidenta, então as coisas se complicam. Não sei de que lado estará a mídia, mas intuo que vai atacar o Cunha ao mesmo tempo que tentará apoiar a validade do impeachment. A Operação Lava-Jato é sumamente complexa. A mídia cumpre um papel importante no assunto, mas isso excede amplamente o conflito midiático.

A instabilidade responde a um desenho particular das instituições brasileiras contida na Constituição de 1998, conhecida como a Constituição Cidadã. O problema central é que as instituições políticas, o Executivo e o Legislativo, têm muitos controles externos, ao passo que o Poder Judiciário e o Ministério Público são praticamente independentes e não existe nenhuma supervisão externa, ou seja, é um sistema muito pouco democrático. O Poder Judiciário e o Ministério Público não recebem nenhum tipo de controle, então os juízes fazem o que querem. O juiz federal do Paraná, Sérgio Moro, que é responsável pela Lava-Jato, quer fazer campanha e busca angariar para si uma imagem de herói da pátria.

O problema agora são os excessos e a violação de certos princípios legais. Por exemplo, existe uma onda de chantagens para que os acusados confessem e delatem outros. Para se safar é preciso acusar outros. Neste processo, os meios de comunicação têm um papel muito importante porque fazem o trabalho de investigação, somam fontes de informação e realizam acusações que derivam no sistema judiciário. Este gerou um ciclo terrível de perseguição.

Este é o caso da Itália, onde este processo levou o país ao caos institucional, colocando em crise a democracia e deixando-a nas mãos da direita. Estes escândalos de corrupção terminam sempre com a direita no poder que, paradoxalmente, é o setor mais moralista e, na realidade, é o mais corrupto. É necessário combater a corrupção na esquerda e na direita sem sacrificar a política em nome da moral.

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