Nova prefeita de Madri vira "padroeira" do direito à moradia

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16 Outubro 2015

A guerra acabou. Após três anos de mobilização e de incertezas, a associação madrilena Yo no me voy ("Eu não vou embora") teve ganho de causa. Daqui a alguns dias, as cerca de 200 famílias que ela representa, além de outras 1.800 que são afetadas pelo mesmo problema, assinarão um anexo do seu contrato de locação que lhes garantirá que elas não serão despejadas de sua moradia social.

A reportagem é de Sandrine Morel, publicada por UOL, 16-10-2015.

"Vou colocar a foto de Manuela Carmena com duas velas na minha sala", diz rindo o porta-voz da associação, Alberto Romeral. Faz quatro meses que a nova prefeita de Madri, a ex-juíza Manuela Carmena, assumiu o cargo junto com sua equipe da Ahora Madrid ("Agora Madri"), uma chapa "cidadã" apoiada pelo partido antiausteridade Podemos, cuja primeira promessa de campanha foi "mobilizar todos os recursos da prefeitura para paralisar os despejos imobiliários."

"Nove dias depois de tomar posse, Manuela Carmena nos ligou para marcar um encontro", lembra Romeral. "Em dois anos, a ex-prefeita Ana Botella (Partido Popular, direita), nunca aceitou nos receber..." E com razão: foi ela que decidiu, em 2012, colocar à venda quase 4.000 moradias sociais municipais para fundos de investimentos.

A resistência dos locatários em aceitar um realojamento ou em assinar um novo contrato que modificasse as condições de locação levou a Empresa Municipal da Habitação e do Solo (EMVS) a entrar com uma ação contra eles e solicitar seu despejo. Houve cerca de vinte julgamentos, alguns deles com octogenários desorientados ou em lágrimas nos bancos dos réus. Em junho, a nova equipe municipal de Madri, recém-eleita, suspendeu todos os processos judiciais. "O apartamento deles não será vendido", decidiu no dia 28 de julho Manuela Carmena. "Para nós, o direito à moradia, reconhecido pela Constituição, é fundamental."

"Sabíamos que ela nos ajudaria, mas não achamos que ela fosse ser tão rápida e tão categórica", ressalta Romeral. Nem todos partilham de seu entusiasmo. As relações da nova prefeita com a Plataforma das Vítimas dos Créditos Imobiliários (PAH), da qual um dos membros fundadores é conselheiro municipal, foram tensas no início. "Ficamos magoados de ver que ela se reunia com os banqueiros antes de falar conosco", explica a porta-voz da PAH, Cristina Escribano.

Para garantir a colaboração dos bancos com o intuito de frear os despejos, Manuela Carmena se encontrou, antes mesmo de tomar posse, com os grandes banqueiros, tão desprezados pelo movimento dos "indignados". Se alguns comemoraram a vontade de se encontrar uma solução, outros ficaram decepcionados com o tom conciliatório adotado. "Ela precisaria pressionar para que os bancos cedessem as 46 mil moradias vazias que eles possuem em Madri às famílias em dificuldades", alega Cristina Escribano.

"Nós temos nossos métodos. Não deixaremos ninguém na rua", afirma sem hesitar Marta Higueras, braço direito de Manuela Carmena. A conselheira municipal encarregada da equidade, dos direitos sociais e do emprego nos recebe em seu gabinete ainda instalado em um prédio particular alugado, antes de se mudar para um prédio municipal para economizar "19 mil euros (R$ 83 mil) de aluguel por dia", ela explica. Essa ex-diretora de Justiça do governo basco do socialista Patxi Lopez (2009-2012) foi quem criou a Agência de Intermediação Hipotecária, que oferece gratuitamente às pessoas que não conseguem mais honrar seu crédito imobiliário uma ajuda para negociar com os bancos, "para que elas não precisem deixar suas casas."

Permanecer em sua casa é a esperança de Vicente Velazco, 72, que conversa sobre isso com uma conselheira social nos escritórios da agência, perto da estação de Atocha. Com sua magra aposentadoria de 726 euros (cerca de R$ 3.200) mensais, ele não consegue mais pagar as despesas de seu apartamento de 600 euros por mês, aos quais se somam 200 euros de seguro de vida "que o banco me obrigou a contratar", ele explica. "Eu vivo daquilo que meu filho e minha filha me dão", explica. "Não sei o que fazer..."

"Gafes"

Carmen Garcia, coordenadora da agência, tem fé. "Estamos fazendo um estudo de superendividamento, examinando as possíveis cláusulas abusivas e estamos negociando uma restruturação da dívida ou a possibilidade de se devolver a unidade, mas de permanecer nela pagando um aluguel social, de 30% da renda da família", ela explica. Em três meses, a agência recebeu 379 pessoas e cuidou de 144 pedidos, dos quais 44 já foram examinados. "Todos favoravelmente", afirma a coordenadora.

Segundo uma pesquisa do Centro de Pesquisas Sociológicas publicada no dia 7 de outubro, Manuela Carmena tem quase 60% de aprovação entre os moradores de Madri, após 24 anos de gestão contínua do Partido Popular.

No entanto, seus primeiros meses foram pontuados por inúmeras polêmicas, como o fim do subsídio municipal para a escola de formação de toureiros, a criação de um website que visa corrigir os erros dos jornalistas ou ainda a contratação do marido de sua sobrinha para um cargo importante da prefeitura. Ela também teve de explicar as piadas antissemitas postadas cinco anos antes no Twitter por um conselheiro municipal, Guillermo Zapata, e o passado da jovem porta-voz da prefeitura, Rita Maestre, que entrou em uma capela da universidade com os seios de fora durante uma manifestação pela laicidade.

"Estamos moderadamente satisfeitos. Ela está ecoando nossas propostas, mas esperamos coisas mais concretas e menos gafes", resume Mar Espinar, porta-voz adjunta do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) na prefeitura. Seu apoio é indispensável para Manuela Carmena, que foi eleita em maio com 32% dos votos.

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