Sinais de esperança brotam dos Povos e Comunidades Tradicionais no Paraná

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Por: Jonas | 29 Setembro 2015

Há dez anos, pouco se ouvia falar, no Paraná, das reivindicações e da luta de alguns grupos sociais que passaram a se organizar e lutar por seus direitos, buscando o reconhecimento do Estado para as suas demandas e defendendo o seu próprio modo de vida. Tais grupos fazem parte dos chamados Povos e Comunidades Tradicionais, que foi o tema da sexta etapa do curso Lutas Populares no Paraná, organizado pelo CJCIAS/CEPAT, em parceria com o Centro de Formação Milton Santos-Lorenzo Milani, e apoio do IHU. O encontro ocorreu no último dia 26 de setembro, na Casa do Trabalhador, e contou com a assessoria de Roberto Martins de Souza (IFPR), pesquisador do Projeto Nova Cartografia Social de Povos e Comunidades Tradicionais.

 
   

O relato é de Jonas Jorge da Silva, membro da equipe do CJCIAS/CEPAT.

Distante da visão eurocêntrica, escravocrata, latifundiária e hierárquica que sempre procurou determinar a identidade dos povos, a partir do racismo institucionalizado pelas elites sociais, a emergência de diversas identidades coletivas tem colocado em xeque visões de mundo predominantes no país e, por consequência, no estado paranaense. Povos e comunidades vêm se organizando em prol da afirmação de suas identidades coletivas, territorialidades e direitos étnicos, como é o caso da Rede Puxirão de Povos e Comunidades Tradicionais, um espaço de formação e articulação política destes novos movimentos sociais.

Já não cabe mais ao Estado tentar classificar a riqueza da diversidade cultural de seus povos e comunidades, mas, ao contrário, são os próprios coletivos que definem o que eles são, a sua identidade. Sendo assim, no Paraná, aos poucos, vão saindo da invisibilidade coletivos nunca antes reconhecidos pela sociedade e o Estado, buscando a sua própria representação política. São eles: Indígenas, Faxinalenses, Benzedeiras, Benzedores, Curadores, Curandeiras, Costureiras e Cozedeiras de Rendiduras e Parteiras, Pescadores Artesanais, Comunidades de Religiões de Matriz Africana, Ilhéus, Quilombolas e Cipozeiras. Tais coletivos contam com práticas e saberes que são imprescindíveis para uma reavaliação do modo de vida hegemônico no sistema capitalista.

Os povos e comunidades tradicionais não se organizam a partir de uma ideologia coletivista. O que precede sua organização e luta é a própria maneira como vivem, constantemente ameaçada pelos interesses econômicos majoritários na sociedade.

Roberto Martins de Souza destacou a necessidade de se romper com uma falsa noção de tradição atrelada a uma visão linear, como se fosse algo do passado, a ser superado. A tradição é uma demanda do presente para esses coletivos. Ela está relacionada ao modo de criar, fazer e viver desses grupos. A dignidade de cada uma dessas pessoas está vinculada ao que elas sabem fazer, portanto, é necessário respeitar a forma como vivem e querem continuar vivendo.

Os povos e comunidades tradicionais, de um modo geral, possuem uma relação de dependência com o território, fazendo um uso coletivo dos recursos naturais. Diferente dos usos intensivos e predatórios do solo e de sua diversidade, tais povos mantêm uma relação de respeito com o meio ambiente, que não é forçada, mas, sim, está inserida na própria maneira como desenvolveram saberes e técnicas de utilização das riquezas oferecidas pela natureza.

Nesse sentido, ao construírem suas demandas, necessariamente, incorporam a forma como se relacionam com os recursos naturais, o que conduz a uma politização da natureza. Aqui, está estabelecida uma luta política contra-hegemônica, pois as demandas dessas comunidades entram em choque com o modelo econômico e agrário adotado pelos grandes proprietários e legitimado pelo Estado. A consequência desse embate político é conhecida: o permanente assédio que tais sujeitos padecem. Só no Paraná, segundo Roberto Martins de Souza, há 17 lideranças desses coletivos ameaçadas de morte.

O Paraná vive um momento ímpar nos últimos anos, com grupos organizados que começam a enfrentar os rótulos de identidades puramente nacionais que rodeiam o imaginário das pessoas. Na riqueza das diferentes culturas, crenças e saberes é possível encontrar caminhos de superação do preconceito e do etnocentrismo que tanto estigmatizaram e serviram para legitimar o massacre de povos inteiros. Infelizmente, os que conseguiram se livrar do extermínio são frontalmente atacados em sua dignidade humana, sendo impossibilitados de reproduzir as práticas e saberes que marcam suas vidas.

Sinais de esperança brotam no presente, a partir da organização popular desses coletivos, como se pode observar pela sistematização de tais experiências por pesquisadores inseridos nesse campo. O livro “Identidades Coletivas e Conflitos Territoriais no Sul do Brasil” (UEA Edições, 2014), organizado por Roberto Martins de Souza, é um exemplo dessas iniciativas. Se a sociedade começar a prestar mais atenção nesses povos e comunidades tradicionais, é possível que o amanhã ainda seja muito promissor para todos, sem distinção.

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