Papa Francisco, a encíclica Laudato Si’, ética e risco existencial

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18 Agosto 2015

"Não podemos continuar sem reação aos sinais de perigo que nos rodeiam. Francisco está convidando todos os católicos, como parte destes fiéis para com a missão de Deus e da Igreja, não só para proteger o meio ambiente, mas também para trabalhar contra todos os tipos de riscos catastróficos e existenciais mundiais", escreve Brian Patrick Green, coordenador do programa de ética no Centro Markkula para Ética Aplicada e do corpo docente da Faculdade de Engenharia da Santa Clara University-EUA, em artigo publicado pelo Institute for Ethics & Emerging TechnologiesIEET, 16-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo

Em junho, o Vaticano publicou a muito esperada encíclica do Papa Francisco intitulada Laudato Si’ sobre o meio ambiente e a relação da humanidade com o mundo natural. Os interessados nos riscos catastróficos e existenciais em nível mundial irão se interessar por sua leitura, pois os problemas ambientais específicos que o pontífice põe em debate estão colocados no contexto geral de muitos destes riscos que a humanidade encara.

Aqui resumirei as informações relevantes em quatro pontos: 1) No geral, a ciência e a tecnologia muito beneficiaram a humanidade. 2) A tecnologia empoderou a humanidade num nível em que os riscos catastróficos e existenciais mundiais agora são ameaças graves. 3) A Igreja Católica deve proteger a humanidade destes riscos. E 4) a Igreja Católica deve trabalhar em conjunto com todas as pessoas de boa vontade para o bem de reduzir esses riscos.

1) No geral, a ciência e a tecnologia muito beneficiaram a humanidade

A encíclica Laudato Si’ preocupa-se amplamente com os riscos catastróficos e existenciais mundiais, o que está incorporado numa filosofia, teologia e ética da tecnologia. Embora o meio ambiente e a dependência humana dele são a principal preocupação da encíclica, ela também apresenta um debate crucial sobre o poder tecnológico humano e, em particular, o progresso histórico da tecnologia, que sem dúvida muito beneficiou a humanidade. Além disso, o texto traz um debate sobre as tecnologias emergentes contemporâneas. O Papa Francisco manifesta a sua gratidão por essas tecnologias e a todos os que ajudaram a desenvolvê-las:

102. A humanidade entrou numa nova era, em que o poder da tecnologia nos põe diante duma encruzilhada. Somos herdeiros de dois séculos de ondas enormes de mudanças: a máquina a vapor, a ferrovia, o telégrafo, a eletricidade, o automóvel, o avião, as indústrias químicas, a medicina moderna, a informática e, mais recentemente, a revolução digital, a robótica, as biotecnologias e as nanotecnologias. É justo que nos alegremos com estes progressos e nos entusiasmemos à vista das amplas possibilidades que nos abrem estas novidades incessantes […] A tecnologia deu remédio a inúmeros males, que afligiam e limitavam o ser humano. Não podemos deixar de apreciar e agradecer os progressos alcançados especialmente na medicina, engenharia e comunicações. Como não havemos de reconhecer todos os esforços de tantos cientistas e técnicos que elaboraram alternativas para um desenvolvimento sustentável?

2) A tecnologia empoderou a humanidade num nível em que os riscos catastróficos e existenciais mundiais agora são ameaças graves

No entanto, observa o pontífice, essas tecnologias tornam a humanidade – e, em particular, alguns poucos seres humanos com poderes de tomar decisões, sejam eles tecnólogos, líderes empresariais, políticos ou líderes militares – extremamente poderosa, e nós carecemos de ética e estruturas institucionais para controlar adequadamente esses poderes. Conforme CS Lewis observou em 1943, no livro A Abolição do Homem: “O que chamamos de poder do Homem sobre a Natureza acaba por ser um poder exercido por alguns homens sobre outros homens com a Natureza como seu instrumento”. O poder tecnológico pode ser perigoso para todos nós, que mais provavelmente nos encontramos entre os que sofrem as ações daqueles poderes, e não entre os que os praticam.

104. Não podemos, porém, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que adquirimos, nos dão um poder tremendo. Ou melhor: dão àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder económico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do género humano e do mundo inteiro. Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma, e nada garante que o utilizará bem, sobretudo se se considera a maneira como o está a fazer. Basta lembrar as bombas atómicas lançadas em pleno século XX, bem como a grande exibição de tecnologia ostentada pelo nazismo, o comunismo e outros regimes totalitários e que serviu para o extermínio de milhões de pessoas, sem esquecer que hoje a guerra dispõe de instrumentos cada vez mais mortíferos. […]

Esses arsenais mortais tornam as guerras mais perigosas do que nunca e, portanto, faz-se mais necessário que as evitemos. O Papa Francisco afirma:

57. […] A guerra causa sempre danos graves […] riscos avolumam-se quando se pensa na energia nuclear e nas armas biológicas […] Exige-se da política uma maior atenção para prevenir e resolver as causas que podem dar origem a novos conflitos.

Numa tendência que vem crescendo ao longo das últimas décadas, o Papa emprega uma “linguagem de risco” em toda a encíclica. Discutindo a panóplia dos riscos que humanidade enfrenta no momento, ele começa invocando a encíclica do Papa João XXIII Pacem in Terris, de 1963, que defendia o desarmamento nuclear multilateral (“um desarmamento integral, que atinja o próprio espírito”, n. 113) e, em seguida, passa a citar o Papa Paulo VI [Octogesima Adveniens] sobre os riscos ecológicos:

4. Em 1971, o Beato Papa Paulo VI referiu-se à problemática ecológica, apresentando-a como uma crise que é “consequência dramática” da atividade descontrolada do ser humano: “Por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o ser humano] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação”.

Em 1971, o fantasma da extinção pairava sobre a humanidade há 25 anos sob a forma de armas nucleares e uma preocupação estava começando a se espalhar em questões ambientais. Na verdade, o Vaticano se opôs às armas nucleares desde o dia após a sua primeira utilização (cf. o artigo “Vatican Regrets Inventors Did Not Destroy Bomb”, publicado no jornal Miami Herald, no em 07-08-1945). [1] Agora nós adicionamos diversas outras preocupações ao nosso inventário dos riscos catastróficos e existenciais, incluindo conhecimentos sintético-biológicos, computacionais (inteligência artificial, vírus) e nanotecnológicos, para citar apenas alguns. O papa observa as circunstâncias perigosas em que nos encontramos, ao dizer: “Se alguém observasse de fora a sociedade planetária, maravilhar-se-ia com tal comportamento que às vezes parece suicida” (n. 55), e que precisamos “sair da espiral de autodestruição onde estamos a afundar” (n. 163).

3) A Igreja Católica deve proteger a humanidade da autodestruição

Dado este reconhecimento das realidades dos riscos catastróficos e existenciais mundiais, o papa coloca si próprio e a Igreja Católica diretamente contra eles. Isso não é novidade (afinal, como dito acima, os papas vêm incentivando o desarmamento multilateral e o ambientalismo há décadas). Mas ele faz algumas outras declarações que são de interesse para a ética da tecnologia. No parágrafo 79 de sua encíclica, ele afirma, citando o Papa Bento XVI, que

79. […] a Igreja, com a sua ação, procura não só lembrar o dever de cuidar da natureza, mas também e “sobretudo proteger o homem da destruição de si mesmo”.

Eis uma declaração tremenda vindo do líder de uma religião com mais de um bilhão de membros. A Igreja Católica está agora oficialmente no negócio de proteger a humanidade da extinção, o que inclui suprimir os riscos catastróficos e existenciais globais.

O pontífice desafia os católicos e “todas as pessoas de boa vontade” (n. 62) a fazerem algo a respeito dos riscos que enfrentamos. Isso inclui não só soluções tecnológicas para os problemas criados pela nossa tecnologia (aliás, o papa encoraja aqueles que trabalham para livrar o nosso sistema energético dos combustíveis fósseis [nn. 23, 26, 265]), mas também, em última análise, uma mudança de coração. Francisco sustenta que precisamos aprender a controlar os nossos poderes destrutivos e que a ética deve desempenhar um papel crucial neste controle:

78. [...] Um mundo frágil [...] interpela a nossa inteligência para reconhecer como deveremos orientar, cultivar e limitar o nosso poder.

105. [...] Neste sentido, ele está nu e exposto frente ao seu próprio poder que continua a crescer, sem ter os instrumentos para o controlar. Talvez disponha de mecanismos superficiais, mas podemos afirmar que carece de uma ética sólida, uma cultura e uma espiritualidade que lhe ponham realmente um limite e o contenham dentro dum lúcido domínio de si.

136. [...] técnica separada da ética dificilmente será capaz de autolimitar o seu poder.
Como digo aos meus alunos nos cursos que ministro, a ação humana de antigamente estava limitada pela fraqueza, mas hoje estamos mais poderosos e devemos aprender a nos limitar segundo o nosso bom senso. Eis uma lição que a humanidade precisa aprender antes que seja tarde demais.

Em última análise também, o Papa Francisco espera que os esforços que aplicamos na pesquisa e no desenvolvimento de tecnologias perigosas possam ser redirecionados a tecnologias “mais saudáveis”.

112. [...] a liberdade humana é capaz de limitar a técnica, orientá-la e colocá-la ao serviço doutro tipo de progresso, mais saudável, mais humano, mais social, mais integral.

4) A Igreja Católica deve trabalhar em conjunto com todas as pessoas de boa vontade para o bem de reduzir esses riscos

Por último, Laudato Si’ dirige-se não só a todos os católicos como também a todos que se põem a escutar (“todas as pessoas de boa vontade”, n. 62). O Papa Francisco sabe que, mesmo se o um bilhão de católicos do mundo não só escutar como também agir (o que não vai acontecer), mesmo assim não seria o suficiente para proteger o mundo contra os riscos atuais. Precisamos trabalhar em conjunto. E não devemos ignorar estes riscos simplesmente:

59. [...] Como frequentemente acontece em épocas de crises profundas, que exigem decisões corajosas, somos tentados a pensar que aquilo que está a acontecer não é verdade. Se nos detivermos na superfície, para além de alguns sinais visíveis de poluição e degradação, parece que as coisas não estejam assim tão graves e que o planeta poderia subsistir ainda por muito tempo nas condições atuais. Este comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produção e consumo. É a forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os vícios autodestrutivos: tenta não os ver, luta para não os reconhecer, adia as decisões importantes, age como se nada tivesse acontecido.

Não podemos continuar sem reação aos sinais de perigo que nos rodeiam. Francisco está convidando todos os católicos, como parte destes fiéis para com a missão de Deus e da Igreja, não só para proteger o meio ambiente, mas também para trabalhar contra todos os tipos de riscos catastróficos e existenciais mundiais. Ele espera que todos os que estão dispostos a ouvir ajudem unindo-se a este trabalho; e àqueles de fora da Igreja que já estão fazendo este trabalho, ele expressa a sua sincera gratidão. Por uma causa comum, ele espera que católicos e não católicos trabalhem conjuntamente pela sobrevivência e pelo florescimento da humanidade e do ambiente natural.

Nota:
[1] Veja o artigo aqui.

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