Isto também é um homem. Artigo de Elena Loewenthal

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31 Julho 2015

Um homem, Pasqualino Folletto, pai de três filhos, uma delas com uma rara doença genética, desesperado nas dívidas, assalta uma tabacaria italiana na cidade de Asti e, diante do desespero da proprietária, assassina-a a facadas. É preso. Em meio à dor e ao luto, o pai da lojista, Piero Fassi, e sua família decidem ajudar a filha doente do próprio assassino da sua filha.

"Um pai que transforma o tormento em uma generosidade destilada, naquela espécie de amor que vem antes de toda regra, de toda fé religiosa, de toda convenção. E o faz em silêncio, em vez de se esgoelar, e o faz como se fosse uma coisa normal, ajudar a filha de quem assassinou a sua filha, porque precisa de cuidados, e aquele pai infeliz que matou não pode mais fazer isso e nunca foi capaz disso. Porque ela não tem culpa, explica, assim como a filha morta não tinha culpa."

A opinião é da escritora italiana e estudiosa do judaísmo Elena Loewenthal, em artigo publicado no jornal La Stampa, 27-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Segundo um antigo e belíssimo mito, quando D'us criou o homem, os anjos se aborreceram, quase se irritaram. Talvez por inveja, talvez por medo. Perguntaram-Lhe: "O que é o homem, para que Tu te lembres dele?", como está escrito no Salmo 8, 5.

Isto também é o homem, apesar de todo o mal que se diz dele: um pai privado da filha do modo mais terrível, que, em vez de sentir rancor, em vez de encobrir a dor com a névoa opaca do desejo de vingança, declara-se pronto para ajudar a filha do assassino, necessitada de cuidados. Os pais: "Ajudaremos a filha doente do homem que matou a nossa filha".

Um pai que transforma o tormento em uma generosidade destilada, naquela espécie de amor que vem antes de toda regra, de toda fé religiosa, de toda convenção. E o faz em silêncio, em vez de se esgoelar, e o faz como se fosse uma coisa normal, ajudar a filha de quem assassinou a sua filha, porque precisa de cuidados, e aquele pai infeliz que matou não pode mais fazer isso e nunca foi capaz disso. Porque ela não tem culpa, explica, assim como a filha morta não tinha culpa.

Isto também é o homem, que, no céu, deve ser recordado e não se arrepender de tê-lo posto no mundo, como no fundo gostariam os anjos invejosos. Uma criatura capaz de expressar toda a baixeza deste mundo, mas também de surpreendê-lo com um bem que é gratuito no sentido mais alto do termo.

Ou, melhor, é capaz de mais: é bom que ele vá além de toda lógica, que atravesse o território sem limites do ódio e viole aquela justiça que impõe que se puna o mal. Isto também é o homem: um homem que, no auge da dor, diante da perda mais incurável, não se pergunta quando acabará de cair no abismo do luto e da dor da perda em uma viagem para baixo, que, quando você está dentro, parece que nunca vai acabar, e, em vez de se deixar mandar por tudo isso, coloca-se na pele de uma filha necessitada de cuidados e pensa que é certo ajudá-la, mesmo que o pai dela tenha feito o que fez.

E depois diz, mas sem proclamações, sem querer dar lições, com uma espontaneidade quase surpresa com o fato de que as suas palavras sejam capazes de surpreender quem as ouve, como se estivesse fazendo uma coisa normal. Quase óbvia.

Obviamente, não o é: se os anjos tivessem ouvido as palavras de Piero Fassi, teriam deixado de perguntar a Deus por que Ele tivera a ideia de criar o homem (esse é o sentido do versículo bíblico), porque entenderiam por si sós. Não: "Nós estamos aqui. Se a filha do homem que matou a nossa filha precisar, nós estaremos lá" não é uma frase óbvia. Ao contrário, são palavras que vão contra todo senso comum, que contradizem tanto o instinto quanto a história da humanidade e não pertencem a nenhuma ética, a nenhuma religião.

Poder-se-ia dizer que elas vêm do coração; mas talvez não, talvez venham daquela parte muito mais complexa e misteriosa de nós que está no cérebro e expressa a empatia absoluta, que, quando é assim, vence tudo e, acima de tudo, o ódio.

Isso também é o homem, queridos anjos.

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