Alocução do Patriarca Ecumênico Bartolomeu na “Cúpula das Consciências sobre o Clima”

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Por: André | 26 Julho 2015

“Nossa época está enfrentando um desafio singular. Nunca no passado, durante a longa história do nosso planeta, os homens e as mulheres se encontraram nesse ponto tão ‘desenvolvido’ a ponto de tornar possível a destruição do seu próprio ambiente e da sua própria espécie. Nunca antes, na longa histórica deste planeta, os ecossistemas da terra sofreram danos quase irreversíveis desta magnitude”, analisa o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, em seu discurso pronunciado na Cúpula das Consciências sobre o Clima.

E, por isso, “uma aliança entre a ecologia contemporânea (...) e a teologia (...) é necessária para compreender a profundidade espiritual das questões cruciais do nosso tempo. Por isso, nós convidamos todas e todos vocês, que já estão sensibilizados com essas questões, para serem os porta-vozes desse apelo das consciências sobre o clima”, convida.

 
Fonte: http://bit.ly/1CU60B9  

O discurso é publicado pelo sítio Orthodoxie, 21-07-2015. A tradução é de André Langer.

Eis o discurso.

Paris, 21 de julho de 2015.

Senhor François Hollande, Presidente da República

Senhor Michael D. Higgins, Presidente da Irlanda

Sua Alteza o Príncipe Albert II de Mônaco

Senhor Kofi Annan, Presidente do “The Elders”, Presidente da “Fundação Kofi Annan”, ex-secretário-geral das Nações Unidas

Senhor Jean-Paul Delevoye, Presidente do Conselho Econômico, Social e do Meio Ambiente

Caro Nicolas Hulot, enviado especial do Presidente da República para a Proteção do Planeta

Eminências

Excelências

Senhoras e senhores representantes dos cultos

Senhoras e senhores,

Num premente apelo feito em Manila, conjuntamente pelas autoridades francesas e filipinas, em fevereiro de 2015, nós nos sentimos todos, individual e coletivamente, convocados para agir a favor do clima. Hoje, mais do que nunca, recordamos a urgência de uma justiça global, de uma solidariedade financeira e tecnológica mundial. O apelo terminou dessa maneira: “Nós convocamos (...) todos os atores, os Estados (...) e os cidadãos para exercerem plenamente o seu papel na luta contra a mudança climática e em particular contra os seus efeitos e na redução dos riscos de catástrofes naturais ligadas ao clima, por meio de esforços individuais ou de iniciativas em cooperação”.

Como deve se recordar, Senhor Presidente, nós tivemos a honra de acompanhá-lo nesta importante viagem. Nós pudemos ver com os próprios olhos os efeitos destrutivos das mudanças climáticas que afetam as populações mais vulneráveis, especialmente na Ásia. Nós colocamos os nossos dedos nas feridas abertas, recentemente, mas duradouramente, de uma terra revoltada contra o egoísmo cego da humanidade. Os mais céticos não estavam menos convencidos do que o próprio Santo Tomé. A exclamação apostólica “meu Senhor e meu Deus” (Jo 20, 28) surge em nossas bocas, não apenas como um grito de alerta, mas também como um despertar para a esperança. A imperiosa missão das religiões em geral, e do cristianismo em particular, aprecia esta força transfiguradora da fé transformando qualquer perigo em um apelo à conversão dos corações.

As décadas de experiência do Patriarcado Ecumênico em matéria de proteção do meio ambiente mostraram que a questão da salvação não é independente do tratamento dado à criação. Nesta atenção particular relacionam-se o secular e o espiritual. Distinguindo o que diz respeito ao mundo, no sentido do santo apóstolo Paulo, e aquilo que diz respeito à criação do mundo, a tradição ortodoxa está comprometida com a implantação do mistério da graça na criação, fazendo de todas as coisas um sacramento do Reino.

Alguns poderão se perguntar sobre a necessidade de convidar os líderes religiosos para uma reflexão muitas vezes prejudicada por causa da sua tecnicidade, inclusive culpabilizante, em razão das consequências dos nossos atos. O sentido do envolvimento das religiões nessa crucial luta para salvar o nosso planeta é triplo: educar, converter e glorificar.

Para educar, devemos prolongar a dialética entre fé e razão, ou seja, articular elementos de conhecimento racional com inspirações da alma. As questões ambientais estão na encruzilhada desta atenção. Assim, os dados científicos sobre a biodiversidade, o aquecimento global, o crescimento da miséria e das injustiças ambientais, a segurança alimentar, etc., vêm completar a visão teológica, muitas vezes estática, de um mundo em constante mudança. Mas saindo desta simples constatação, é nossa missão oferecer, a partir desta base, uma hermenêutica da criação que afirme a interdependência entre a humanidade e a natureza. É a razão pela qual o Patriarca Ecumênico não instituiu apenas o dia 1º de setembro de cada ano como dia de oração pela criação, mas organiza, além disso, seminários e reuniões que reúnem teólogos e cientistas para discutir sobre este assunto. O último encontro aconteceu na ilha de Halki, na Turquia, entre os dias 08 e 10 de junho de 2015. O tema era: “Ecologia, teologia e arte”. Nós convidamos para este momento, especialmente artistas, para que possam contribuir com seu conhecimento sobre a estética para esclarecer o sentido da beleza na criação. Com efeito, não escreveu Dostoievski: “A beleza salvará o mundo”?

Para converter, é preciso entender a conversão interior como o ponto de partida para uma conversão exterior. Os cientistas destacam incansavelmente a necessidade de uma mudança radical do nosso estilo de vida para deter as atividades que poluem e causam as mudanças climáticas. Trata-se aqui de uma realidade que o cristianismo chama de “metanoia”, uma mudança de todo o ser. Esta última encoraja, na tradição patrística dos Padres do deserto – esses espirituais que forjaram através dos séculos de experiência cética um olhar verdadeiro sobre a humanidade – a necessidade de examinar constantemente as nossas necessidades, para dissociar aquilo que é cobiça daquilo que é bom. A ética e a moral não estão tão longe disso e devem permitir a emergência dos direitos da Terra em si. Este é o sentido do esforço que é esperado de todos nós: sair do egoísmo no qual a inércia dos nossos hábitos nos faz cair, e descobrir a liberdade sóbria que nos conduz a uma conversão do coração.

Enfim, para glorificar, nós voltamos ao fundamento da nossa missão espiritual. Ainda criança, na nossa ilha natal de Imbros, hoje Gökceada, nos arredores de Istambul, nós éramos fascinados por este ambiente selvagem e poderoso, que se renovava incessantemente pela força vivificante dos ventos que, combinados com a ação transformadora do mar, nos fizeram tomar consciência de uma dupla realidade: que o poder da humanidade é inversamente proporcional ao poder da natureza. Assim, para resolver esta relação antinômica não devemos nos tornar os senhores da criação, mas, antes, libertar esta criação de um agir humano dominador, em um movimento de ação de graças que se revelará nos gestos cotidianos.

Estes são os três compromissos indispensáveis para uma espiritualidade ecológica real.

Senhor Presidente,

Senhoras e senhores,

Recentemente, Sua Santidade o Papa Francisco, em sua encíclica Laudato si’ se alongou sobre o sentido de uma espiritualidade ecológica de conversão: “Em primeiro lugar, implica gratidão e gratuidade, ou seja, um reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai, que consequentemente provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos generosos, mesmo que ninguém os veja nem agradeça” (n. 220). Esta encíclica aparece exatamente um ano após o nosso encontro em Jerusalém, quando comemoramos o histórico encontro de Sua Santidade o Papa Paulo VI e de Sua Santidade do Patriarca Ecumênico Atenágoras, em 1964, neste mesmo lugar. Um ano atrás, nós descobrimos em Sua Santidade o Papa Francisco um irmão de alma em sua sensibilidade reconhecida e assumida para com a criação. Além disso, nós trabalhamos para que as relações entre as Igrejas Irmãs de Roma e de Constantinopla aprofundassem seu compromisso comum com a nossa casa comum pela oração e pela ação. Porque as questões ambientais são globais, elas se inserem perfeitamente no espaço ecumênico e constituem um desafio central a favor da unidade dos cristãos.

Então, “Why do we care?” Nossa época está enfrentando um desafio singular. Nunca no passado, durante a longa história do nosso planeta, os homens e as mulheres se encontraram nesse ponto tão “desenvolvido” a ponto de tornar possível a destruição do seu próprio ambiente e da sua própria espécie. Nunca antes, na longa histórica deste planeta, os ecossistemas da terra sofreram danos quase irreversíveis desta magnitude. Este é o motivo pelo qual temos a responsabilidade de responder a esse desafio de maneira unívoca, para cumprir o nosso dever para com as gerações futuras. Por este motivo, devemos nos comprometer.

Nesta perspectiva, uma aliança entre a ecologia contemporânea, enquanto pesquisa científica para a proteção e a sobrevivência do ambiente natural, e a teologia, como metafísica sobre os temas religiosos, é necessária para compreender a profundidade espiritual das questões cruciais do nosso tempo. Por isso, nós convidamos todas e todos vocês, que já estão sensibilizados com essas questões, para serem os porta-vozes desse apelo das consciências sobre o clima.

Antes de terminar esta modesta intervenção, nós queremos parabenizar as autoridades francesas pelas numerosas iniciativas colocadas em prática em vista da reunião da COP 21, que acontecerá em Paris no final deste ano. O Patriarcado Ecumênico está particularmente comprometido e dá o seu indefectível apoio. A nossa responsabilidade está à altura da urgência. Esta é a razão de ser do nosso compromisso.

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