Para compreender o Papa Francisco, devemos olhar para o sul global

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16 Julho 2015

"'A Igreja latino-americana tem uma grande riqueza', ele disse aos jornalistas que viajavam no avião papal. 'Uma Igreja jovem com um certo frescor. Eu quis dar ânimo a essa Igreja jovem e acredito que essa Igreja pode dar muito para nós'", escreve Inés San Martín, em artigo publicado no sítio Crux, 13-07-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

No entanto, ele não teve escrúpulos ao criticar também. No Equador, por exemplo, afirmou ser errado dizer da América Latina como um dos continentes “mais cristãos” do mundo, quando há tantas pessoas que nada têm para comer

Entre as muitas lições que podemos extrair da visita do Papa Francisco ao Equador, à Bolívia e ao Paraguai entre os dias 5 e 13 de julho – sua primeira ida à América Latina de língua espanhola –, talvez a mais importante é a de que, para compreendermos este papado, precisamos olhar para o sul global e seus desafios.

Assim como o papado de João Paulo II foi moldado pela experiência da Polônia sob o comunismo, e assim como o papado de Bento XVI foi moldado pelas preocupações da Europa Ocidental com o relativismo e o secularismo, o pontificado de Francisco define-se, em grande parte, pelos problemas que este encontrou no curso de várias décadas como pastor e bispo latino-americano.

Uma lista destes temas centrais incluirá a marginalização, o analfabetismo, a desigualdade e a pobreza, o sexismo, a corrupção, governos de inspiração socialista, aquilo que os sul-americanos costumam chamar de “elites” que dominam as suas sociedades, bem como o racismo e a devastação ecológica.

No geral, Francisco emitiu um veredicto a respeito de como as coisas estão em seu continente de origem.

“A Igreja latino-americana tem uma grande riqueza”, ele disse aos jornalistas que viajavam no avião papal. “Uma Igreja jovem com um certo frescor. Eu quis dar ânimo a essa Igreja jovem e acredito que essa Igreja pode dar muito para nós”.

No entanto, ele não teve escrúpulos ao criticar também. No Equador, por exemplo, afirmou ser errado dizer da América Latina como um dos continentes “mais cristãos” do mundo, quando há tantas pessoas que nada têm para comer.

“Partilhar o pão é um princípio cristão”, disse ele. A pobreza na região, continuou, não é o resultado da falta de recursos, mas a consequência de um sistema econômico e político “perverso”.

Além disso, esta viagem de uma semana do Papa Francisco pode ser analisada em termos das diferentes realidades que cada um dos país visitados enfrenta, realidades que, por sua vez, resumem a situação de um continente todo e de grande parte do mundo em desenvolvimento – as “periferias”, como Francisco gosta de dizer.

• No Equador, Francisco emitiu seus apelos mais apaixonados no sentido de se proteger o meio ambiente.

• Na Bolívia, o pontífice sublinhou a erradicação da pobreza e a necessidade de fazer os pobres serem parte da solução.

• No Paraguai, o país mais católico dos três, Francisco pediu pela revitalização do zelo missionário da Igreja.

Francisco fez cinco discursos no Equador, três dos quais estiveram sustentados pela sua recém-publicada encíclica sobre o meio ambiente, Laudato Si’. Ele declarou que uma maior proteção da natureza, incluindo a Floresta Amazônica, já não é mais uma “mera recomendação, mas um requisito para a sobrevivência”.

O pontífice pediu às universidades que ensinem sobre o cuidado da terra, e insistiu que a sociedade civil não destrua os recursos naturais em troca de benefícios de curto prazo.

“Esta terra, recebemo-la como herança, como um dom, como um presente. Far-nos-á bem interrogarmo-nos: Como queremos deixá-la? Qual é a orientação, o sentido que queremos dar à existência?”, disse Francisco.

Estes seus comentários foram feitos poucos meses antes de empresas internacionais começarem as atividades de perfuração em busca de petróleo no Parque Nacional Yasunín no Equador, decisão que tem gerado grande revolta social.

Manifestantes vêm pedindo a renúncia do presidente Rafael Correa, que em 2008 modificou a Constituição para exatamente reconhecer os “direitos” da Pachamama (Mãe Terra).

Ainda no Equador, Francisco também fez um apelo por uma América Latina unida, dizendo que o grito de liberdade é, hoje, tão urgente e premente como o grito de independência há 200 anos.

“Não devemos responder com indiferença, ou reclamar que não temos os recursos para fazer o que tem de ser feito, ou que os problemas são muito grandes”, disse o pontífice nascido na Argentina. “Em vez disso, nossa resposta deve repetir o clamor de Jesus e aceitar a graça e a tarefa da unidade”.

Na Bolívia, ele fez apenas quatro discursos, mas o terceiro esteve entre os mais longos de seu pontificado. Ele se pôs diante do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, que reúne organizações não governamentais que representam vendedores ambulantes, pescadores, operários, agricultores e membros dos “povos originários”.

Aqui ele fez um discurso de 55 minutos, falando claramente sobre a sua visão de uma verdadeira revolução.

“Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito”, disse ele. “Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos”.

Comecemos “reconhecendo que a mudança é necessária”, porque, disse o papa, há algo de errado num mundo onde há tantos trabalhadores rurais sem terra, famílias sem casas, trabalhadores sem direitos, pessoas cuja dignidade não é respeitada, guerras sem sentido sendo travadas e atos de violência fratricida.

“Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?”, perguntou Francisco, reiterando o seu apelo por uma economia mais inclusiva, que não dependa de programas de bem-estar social – que são apenas soluções temporárias.

“[Estas soluções] nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário”, disse Francisco, ecoando a sua exortação apostólica de 2013 Evangelii Gaudium.

Com mais de 45% da população vivendo em situação de pobreza, a Bolívia está entre os países mais pobres da América Latina. Enquanto as estatísticas mostram que a pobreza tem diminuído significativamente nos últimos anos, alguns analistas observam que grande parte desta melhora tem a ver com uma expansão de programas sociais estatais que mascaram a falta de oportunidade de trabalho.

Falando sobre o seu envolvimento com os movimentos populares durante a coletiva de imprensa a bordo de seu avião, Francisco disse que estes são movimentos globais que se organizam entre si para “seguir em frente, para terem condições de viver”, porque acreditam que os sindicatos não os representam mais.

Ele defendeu a sua acolhida desses movimentos, muitos dos quais de origem socialista, como uma aplicação da doutrina social da Igreja.

“Eu sigo a Igreja!”, disse. “Não é uma luta contra um inimigo; é o catecismo”, completou referindo-se ao conjunto dos ensinamentos católicos.

Se, no Equador e na Bolívia, o papa sentiu o calor humano de estar de volta em seu continente de origem pela segunda vez desde a sua eleição em 2013, no Paraguai ele se sentiu, de fato, em casa. Onde quer que fosse, hordas de argentinos estavam esperando por ele, muitos de descendência paraguaia.

O seu nível de conforto neste ambiente ficou claro pelo fato de que ele improvisou várias vezes durante a maior parte de suas alocuções, algo que raramente fez nos outros dois países.

Por exemplo, ao falar a um grupo de representantes da sociedade civil, que incluía o presidente Horacio Cartes, Francisco criticou a corrupção e a prática de extorsão.

“Um método que não dá às pessoas a liberdade de assumirem suas responsabilidades na sociedade é a extorsão: você precisa fazer isso a fim de conseguir aquilo”, disse. “Extorsão ainda é corrupção, e corrupção é a gangrena de um povo”.

O domingo foi dedicado quase exclusivamente à Igreja Católica e à necessidade de “difundir o Evangelho”.

Ele passou parte da manhã com os mais pobres entre os pobres, em seguida celebrou a missa para centenas de milhares de famílias, e, à noite, encontrou-se com a juventude local. Em todos os três casos, ele pediu por um zelo missionário renovado.

Durante a missa, questionou aqueles que reduzem a obra missionária a planos e programas.

“Quantas vezes idealizamos a evangelização, pondo de pé milhares de estratégias, táticas, manobras, truques, procurando que as pessoas se convertam com base nos nossos argumentos”, disse Francisco.

“Hoje o Senhor diz-nos muito claramente: na lógica do Evangelho, não se convence com os argumentos, as estratégias, as táticas, mas aprendendo a acolher as pessoas”.

No sábado, também durante o seu discurso aos representantes da sociedade civil, Francisco chamou as missões jesuíticas no Novo Mundo, iniciadas nos séculos XVI e XVII, como uma das “das experiências mais significativas de evangelização e de organização social na história”.

Dois dias depois de pedir desculpas pelos pecados cometidos durante este período, ainda quando estava na Bolívia, o pontífice considerou as “reduções” jesuíticas como um modelo de economia e sociedade que trabalha em vista do bem comum.

Este florescer missionário foi, também, uma resposta clara à dinâmica do sul global. Na América Latina e em outras regiões, movimentos pentecostais e protestantes, bem como uma crescente onda de indiferença religiosa, têm tirado grandes parcelas de fiéis da Igreja Católica.

Em outras palavras, para compreendermos aonde Francisco está querendo chegar, precisamos compreender de onde ele vem, e não há melhor exemplo do poder desse insight do que este seu regresso à América Latina.

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