''Tirem as mãos da Patagônia!'': o manifesto de um bispo chileno

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29 Junho 2015

"Por enquanto, paramos as grandes barragens. Agora devemos reconquistar o direito à água pública." Assim diz Dom Luis Infanti de la Mora, na vanguarda da batalha contra as multinacionais que atuam na Patagônia chilena.

A reportagem é de Geraldine Colotti, publicada no jornal Il Manifesto, 26-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Há muitos anos, Infanti acompanha as manifestações na região de Aysén (na região sul do país), onde as populações rejeitam os projetos hidrelétricos das grandes empresas. Nos dias 26 e 27 de junho, Infanti esteve em Milão para participar das jornadas de encontros e debates intituladas "Expo: alimentar o planeta ou as multinacionais?".

No espaço Oberdan, expoentes políticos, administradores, representantes dos movimentos camponeses e intelectuais (de Susan George a Chukki Nanjiundasawamamy, de Fanis Kourempes a Emilio Molinari, de Mamadou Goïta a Eleonora Forenza, de Maurizio Landini a Alex Zanotelli...) discutiram os bens comuns, os alimentos saudáveis e a soberania alimentar, e a água, "um direito ainda a se realizar".

No referendo popular de 2011, os movimentos sociais pela água pública, embora sem o apoio da grande mídia, obtiveram 95% dos "sim" contra as privatizações. A sua vontade, no entanto, foi amplamente desatendida. "Na Patagônia – diz o bispo – a água é controlada pela italiana Enel. A multinacional do setor energético está presente em 40 países e, em 2009, depois de ter absorvido a espanhola Endesa, herdou inúmeras plantas e projetos em várias regiões da América Latina, como o de HydroAysén, em que a Enel e a Endesa Chile detinham o controle do projeto em 51%. Agora, considerando que a Endesa possui 81% dos direitos da água de todo o Chile, mediante a participação em diversas empresas, pode-se dizer que a Enel condiciona toda a utilização da água chilena. E mais: como a empresa ainda está na parte pública, os italianos também são responsáveis por essa situação, eles também são os donos da água no Chile...".

Infanti lembra a campanha Stop Enel, nascida em 2012 com o objetivo de denunciar e impedir o modelo energético aplicado pela multinacional italiana, considerado "insustentável e prejudicial para o ambiente", e de opor, ao contrário, a promoção de "um modelo de energia alternativo que coloque no centro os direitos humanos, a saúde dos cidadãos e a defesa do território".

Objetivos, contudo, sempre propostos também pelos escritórios promocionais da Enel – a maior companhia elétrica italiana e a segunda em nível europeu. Em 1999, depois de uma década de liberalizações, a Enel se converteu ao setor privado depois do decreto Bersani, que liberalizou o sistema econômico italiano e pôs fim ao monopólio vigente até então.

"A publicidade das multinacionais mente", diz Infanti. "Da Colômbia ao Chile, as grandes empresas colonizam os territórios como novos dominadores, tentam comprar as populações. São os novos conquistadores. Há 100 anos, eles chegavam com as armas, agora compram ou alugam as terras. Na Patagônia, há empresas canadenses, alemãs, chinesas..."

Enquanto isso, porém, "depois de ter parado um projeto para transferir lixo tóxico à Patagônia, os ambientalistas obtiveram uma primeira vitória também com a HidroAysén: as cinco barragens previstas pelo projeto foram bloqueadas". Assim, foi finalmente respeitado o voto popular: em 2008, na consulta em que participaram 90% da população, incluindo os moradores das zonas rurais, 86% dos votantes manifestaram a sua contrariedade ao projeto. E, no início deste ano, o governo Bachelet decidiu bloqueá-lo. Uma mudança de direção política?

"Por enquanto, sim – responde o bispo –, mas a decisão sempre pode ser revogada: ao menos enquanto não se mudar a 'constituição' imposta pelo ex-ditador Pinochet, que dá liberdade para as empresas privadas. As leis sobre a pesca favorecem as multinacionais e destroem a pesca artesanal. Em 1981, o regime militar modificou o Código das Águas, que separa a água da propriedade da terra e a transforma em mercadoria. Vendem-se os direitos da água para os privados."

Os movimentos chilenos, que apoiaram a segunda eleição de Bachelet, pedem em alta voz uma assembleia constituinte e uma mudança estrutural de direção, "mas até agora – constata Infanti – obtiveram apenas pálidos corretivos".

O peso da direita no Chile ainda é muito forte. O regime militar deixou pesadas hipotecas. Dom Infanti, natural de Udine, na Itália, conheceu de perto as implicações disso. Ele vive no Chile há 42 anos. Quando estudante, foi expulso da Universidade de Santiago. Depois, pôde se preservar só porque, no convento dos Servos de Maria, na Patagônia, os ecos das torturas e dos massacres eram ouvidos mais de longe.

Ele conta: "Eu cheguei no Chile um mês antes do golpe de Estado do dia 11 de setembro de 1973. O país estava paralisado pelas greves e pela guerra econômica dirigida pela CIA. Os produtos existiam, mas eram escondidos para alimentar o descontentamento e criar a necessidade de ordem".

Uma situação que, dadas as devidas proporções e diferenças históricas, retorna também hoje em outros países progressistas da América Latina que, como a Venezuela, "decidiram dizer chega à escravidão das multinacionais e trabalhar com o povo".

Luis Infanti viveu nove anos na Bolívia, em Cochabamba, dos quais nasceram formidáveis lutas contra a privatização da água. "Morales deu dignidade a um povo que tomava consciência de não querer mais ser escravo da globalização", diz Infanti. "A Bolívia é rica em recursos naturais que sempre foram saqueados. Os espanhóis levaram embora muita daquela prata para poder construir uma ponte. A ditadura, depois, eliminou todos os intelectuais. Quando eu estava lá, sentia-se a falta de alguém para ajudar a ler e analisar a realidade. A mudança foi imposta pelos humildes, pelos indígenas e pelos estudantes."

Aos humildes e aos "empobrecidos" também se dirige a encíclica do Papa Bergoglio, para pedir uma "conversão ecológica" e uma "nova solidariedade universal". Para Infanti, trata-se "uma dura acusação contra os poderes econômicos que não respeitam os países e os povos. O papa, que se refere a São Francisco, conhece bem as culturas indígenas e o seu senso de partilha. Ele denuncia o câncer do consumismo e a prepotência do Norte, que está depredando o Sul. Não por acaso, agora, depois daquilo que aconteceu no Vaticano, está em curso na Bolívia o II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, desejado pelo pontífice".

Uma Igreja do lado dos últimos. Nesse contexto, no dia 5 de junho, a Comissão Justiça e Paz do Vicariato de Aysén lançou a campanha "Água e vida", contra a "mercantilização dos bens comuns e para incidir sobre as decisões políticas e legislativas".

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