Laudato si': um apelo de oito séculos. Artigo de Jacques Dalarun

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29 Junho 2015

Francisco de Assis era moderno demais para o seu tempo. Oito séculos depois, saberemos entendê-lo?

A opinião é do historiador francês Jacques Dalarun, em artigo publicado no jornal L'Osservatore Romano, 25-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Na noite da sua eleição ao sólio pontifício, quando o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio assumiu o nome de Francisco, era evidente que, com a escolha do nome do Pobrezinho de Assis ("patriarca dos pobres"), ele anunciava um programa. E, há mais de dois anos, ele se atém a ele, com firmeza.

Assim como ele foi o primeiro a adotar o nome do santo mais popular do catolicismo – uma escolha que tinha um ligeiro toque de transgressão –, assim também a sua encíclica recém-publicada, mas já amplamente conhecida por um vazamento de notícias para a imprensa, também é a primeira a ser designada não pelas palavras iniciais do texto (o seu incipit) em latim, mas por um incipit em dialeto umbro: Laudato si'.

As primeiras palavras da encíclica "sobre o cuidado da casa comum" são as do Cântico das Criaturas ou do Cântico do Irmão Sol, com o qual Francisco de Assis inaugurou em 1225 a literatura italiana.

Esse poesia franciscana, além disso, é relatada quase por inteiro, e a referência ao Pobrezinho volta mais de dez vezes, até as duas orações que fecham esse texto com cerca de 200 páginas e que soam como adaptações do cântico inaugural.

"Laudato si’, mi’ Signore, per sora nostra matre Terra, la quale ne sustenta et governa, et produce diversi fructi con coloriti flori et herba."

Uma estupefaciente novidade franciscana, no limiar do século XIII; não cabe aos homens dominar a Terra, mas eles devem entender que é a Terra, como uma irmã e uma mãe, que governa todos aqueles que ela acolhe. Pedindo essa inversão completa de valores, o Papa Francisco, a 800 anos de distância, assina um texto pessoal de força singular.

"Tudo está interligado" é outro leitmotiv da encíclica: uma conexão que vale tanto para a cadeia alimentar, quanto para os danos causados por um mundo animado pela cultura do descarte e dominado pela tecnofinança ("A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, sem a firme decisão de rever e reformar o sistema inteiro, reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises depois de uma longa, custosa e aparente cura", n. 189).

Às vezes, na leitura, surge uma impressão de engasgue, de tanto que as ideias do papa se acotovelam, seja porque ele quer mostrar a engrenagem mortal em que o mundo moderno está aprisionado, seja porque ele quer propor formas de sair disso e motivos para esperar.

Como tudo está interligado, há também repetições que, no entanto, não fazem com que o texto perca algo do seu dinamismo.

Nesse grande vórtice planetário, de fato, a bússola do papa é o vínculo entre preocupação ecológica e preocupação social, para ele absolutamente indissociáveis: "Hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres" (n. 49). E também nisso o Papa Francisco é fiel à mensagem do Pobrezinho.

A denúncia dos danos ecológicos e sociais da tecnofinança chega a pôr novamente em discussão a propriedade privada: "A tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada" (n. 93).

Outra característica importante da longa carta daquele que se define como bispo de Roma são as inumeráveis citações das Conferências Episcopais nacionais ou regionais das quais o seu texto está repleto, como se – contra a centralização pontifícia encarnada pela Cúria Romana – ele se fizesse porta-voz dos padres da rua dos quais provém, que conhecem a realidade das periferias devastadas pela miséria, das florestas que desmoronam sob os golpes infligidos pela especulação, da falta d'água que pesa sobre uma parte da África e dos governos corruptos que vão contra os interesses dos seus povos.

"Os bispos da Nova Zelândia perguntavam-se que significado pode ter o mandamento 'não matarás', quando 'cerca de 20% da população mundial consomem recursos numa medida tal que roubam às nações pobres, e às gerações futuras, aquilo de que necessitam para sobreviver'" (n. 95).

Apelando muitas vezes também aos seus dois antecessores diretos, São João Paulo II e Bento XVI, o papa atual não hesita em denunciar que a má compreensão dos nossos princípios cristãos "nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o domínio despótico do ser humano sobre a criação, ou as guerras, a injustiça e a violência".

Sem renunciar a nada da doutrina moral da Igreja e concluindo com uma meditação de grande profundidade teológica sobre a Trindade e a relação entre as criaturas, com a sua linguagem simples, as suas observações cheias de bom senso sobre o car-sharing, a sua vontade de se dirigir a toda a família humana e o seu reconhecimento das contribuições das outras correntes de pensamento, ele está bem longe de uma concepção arrogante do magistério ou da infalibilidade do papa.

Há uma inspiração inegável nesse texto, quando se trata, por exemplo, de denunciar a inércia das organizações internacionais e a falta de ambição (é um eufemismo) das conferências sobre o clima. Sem dúvida, ele inclui algumas imperícias, ingenuidades, fraquezas, irenismo e maniqueísmo, e não são os seus lados menos interessantes.

Em vez de ignorá-lo, antes de rejeitá-lo, zombar dele ou se irritar com ele, vale a pena lê-lo.

Francisco de Assis, escreve o historiador André Vauchez, era moderno demais para o seu tempo. Oito séculos depois, saberemos entendê-lo?

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