Estados Unidos e França. Espiões e espionados que espionam

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Por: Jonas | 26 Junho 2015

No mesmo dia em que se tornavam conhecidas as revelações do Wikileaks sobre como três presidentes franceses haviam sido espionados pelos Estados Unidos, o Legislativo francês aprovou uma lei que permite a espionagem indiscriminada de seus cidadãos.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 25-06-2015. A tradução é do Cepat.

Nesta cínica história de espiões e espionados, de avivados e mandingas, de aliados com antenas como chifres, a agenda mais atual funciona como um ato final de strip-tease planetário: no mesmo dia em que o espião, Estados Unidos, era descoberto, a vítima, França, a espionada, acabava de adotar uma das leis mais permissivas e abusivas sobre a espionagem indiscriminada de cidadãos, turistas, empresários, em suma, gente comum. Em busca de terroristas potenciais, todo mundo terá uma antena como auréola de culpado. Isso não retira a estrondosa façanha que acaba de protagonizar o grande império, revelada por Wikileaks e publicada pelo jornal Libération e o portal de informação Mediapart. Os Estados Unidos espionaram a mais estrita intimidade telefônica de três presidentes franceses: Jacques Chirac (1995-2007), Nicolas Sarkozy (2007-2012) e o atual, François Hollande. O ator desta nova demonstração de lealdade e confiança infinitas não é outro que a NSA, a Agência Nacional de Segurança Norte-Americana, a mesma que, mediante o programa Prism, revelado por Edward Snowden, tinha sob sua vigilância todo o globo de residentes humanos. O mandatário francês telefonou a Barack Obama para apresentar um protesto formal, ao mesmo tempo em que o chanceler, Laurent Fabius, convocou a embaixadora dos Estados Unidos na França, Jane D. Hartley, a quem pediu explicações. Em um comunicado emitido pelo fundador do Wikileaks, Julian Assange, afirma-se: “O povo francês tem o direito de saber que seu governo é objeto de uma vigilância hostil por parte de um suposto aliado”.

O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, falou em tom energético durante uma intervenção na Assembleia Nacional. Valls disse que a espionagem norte-americana provocou “emoção e raiva” no país, autoqualificou a França como um “aliado leal” que não incorre nessas práticas e defendeu a ideia de uma espécie de “código de boa conduta” entre as potências aliadas. Todo mundo se pergunta como os Estados Unidos podem ter acesso a semelhante informação. Para começar, é preciso destacar que a localização da embaixada norte-americana em Paris a confere uma espécie de torre de controle ideal: está localizada na Praça da Concórdia, a 100 metros do Palácio presidencial do Eliseu, a 200 metros do Ministério do Interior, a 200 metros da Assembleia Nacional, a igual distância do Ministério das Relações Exteriores, a 600 metros do Ministério francês da Defesa e ao lado do Hotel Crillon (hoje em reforma), onde se hospeda a maioria dos chefes de Estado e de governo que visita a França. Além disso, no teto da embaixada há um falso edifício, uma espécie de prolongamento nada natural que é, na realidade, uma grande antena. À primeira vista, pode confundir, mas observando com atenção é perfeitamente visível, mesmo que estejam disfarçadas com uma pintura de falsas janelas, que permite passar os sinais eletromagnéticos. A antena é explorada conjuntamente pela CIA e a NSA e pertence ao Special Collection Service (SCS). Segundo o jornal Der Spiegel, os Estados Unidos contam com umas 80 antenas deste tipo espalhadas pelo mundo, das quais 19 estão na Europa. O portal francês Zone d’Intérêt conta com um amplo “folheto” sobre este dispositivo. Por sua vez, o portal Duncan Campbell possui uma coleção de fotos desta antena em diferentes embaixadas do mundo.

Os documentos agora revelados por Wikileaks possuem um caráter muito diferente daqueles publicados pelo jornalista Glenn Greenwald, em 2013, no jornal The Guardian. Esses conteúdos facilitados por Edward Snowden eram, na realidade, uma espécie de catálogo técnico sobre o modo operativo da NSA e de suas infinitas capacidades de espionagem. Agora, trata-se de outra coisa: são resumos de conversas tomadas diretamente das linhas telefônicas dos três presidentes franceses e de seus colaboradores. Esses resumos estão contidos em cinco relatórios da NSA, qualificados como “top secret” e colocados sob o estatuto Global Sigint Highlights. O que sobressai é que a síntese é o resultado de duas operações: primeiro a espionagem, depois a análise do conteúdo. Ao lado da lista feita pública por Wikileaks, aparece uma série de cifras e de letras, por exemplo, S2C32. Esse código se refere ao serviço que a vigilância dos países europeus possui sob a sua responsabilidade, assim como ocorreu com a espionagem do telefone de Angela Merkel. No entanto, as interrogações são numerosas. O ex-presidente conservador Nicolas Sarkozy havia tentado, durante sua presidência, chegar a um acordo de cooperação com os Estados Unidos em torno da espionagem, mas Washington não quis. O embaixador da França nos Estados Unidos, Pierre Vimont, e um conselheiro diplomático, David Levitté, disseram a Sarkozy que Washington se negava porque queria “continuar espionando a França”. Consciente da vigilância, em 2010, Sarkozy mudou o telefone e começou a utilizar o modelo “Teorem”, fabricado pela multinacional Thales. Foram distribuídos 14.000 exemplares deste telefone ultrassofisticado e criptografado, mas, pelo que parece, não resistiu à poderosa engenharia norte-americana. Em relação a François Hollande, o presidente continua utilizando seu telefone pessoal, ainda que, segundo afirma o palácio presidencial, nunca para falar sobre temas ligados aos interesses do Estado. O que foi divulgado até o momento não é assustadoramente comprometedor. Os relatórios atribuem a Sarkozy um superego, pois considerava-se o único dirigente do mundo capaz de resolver a crise financeira de 2008. A respeito de Chirac, contam suas tentativas de promover um aliado na ONU e, sobre François Hollande, o mais chamativo que saiu, até o momento, é uma série de reuniões organizadas com a oposição social-democrata alemã para evocar a possível saída da Grécia da Zona do Euro. Contudo, o alcance das ondas norte-americanas é temível. Nos documentos vazados por Wikileaks estão presentes dados preocupantes: os celulares do presidente, de seus conselheiros, do secretário geral da Presidência, celulares de ministros e, inclusive, o número de telefone de um organismo dependente da Secretaria de Defesa e Segurança, cuja missão consiste em garantir a proteção das comunicações do governo e do próprio telefone vermelho (Centro de Transmissões do Governo).

Paris decidiu enviar à Washington Didier Le Bret, o coordenador dos serviços secretos. As explicações bilaterais serão muito mais longas, uma vez que Julian Assange prometeu, na noite passada, que “as revelações irão continuar e, do ponto de vista político, serão muito mais importantes”. Em uma entrevista divulgada pelo canal TFI, Assange destacou: “Não importa quem espiona a quem. O fundo do problema está em que as autoridades norte-americanas gastam mais de 60% do orçamento mundial da espionagem. É uma ameaça à soberania da Europa e da França”. Assange foi direto. Se Washington pode colocar seus ouvidos no próprio coração de presidentes ou responsáveis políticos de países como Alemanha e França, não é difícil imaginar até onde chegam suas antenas em países menos desenvolvidos tecnologicamente. E quando os aliados ocidentais pactuarem um acordo global de não agressão, acabarão fazendo uma aliança entre si para submeter o planeta a uma supervisão maníaca e violadora de todos os acordos internacionais. O próprio Ocidente tecnológico é uma ameaça para a segurança mundial de todos. O espião impenetrável já começa a ser uma figura paterna e íntima.

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