Jerônimo, Simeão, Gregório: escritores cristãos complementares. Artigo de Gianfranco Ravasi

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18 Maio 2015

Jerônimo, Simeão, Gregório: três escritores e autores da antiguidade cristã, de tempos e lugares diferentes, mas que se complementam na elevação de seus leitores à alta espiritualidade.

A opinião é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado no jornal Il Sole 24 Ore, 10-05-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Além de ter um péssimo caráter, São Jerônimo certamente não brilhava pela sua humildade. Na sua obra Os homens ilustres, como selo da lista dos 135 personagens evocados, a partir do apóstolo Simão Pedro, sem hesitação, ele colocava a si mesmo: "Eu, Jerônimo, filho de Eusébio, a cidade de Stridone... até o corrente ano, 14º do imperador Teodósio [ou seja, 393; ele morreria no dia 30 de setembro de 419], eu escrevi estas obras", e seguia ampla e minuciosa lista de escritos já editados, além de "muitas outras obras sobre os livros dos profetas que eu tenho em mãos e ainda não foram terminadas".

Na edição latino-italiana das Obras de Jerônimo, aparecem agora tanto os seus textos históricos – como, justamente, o De viris illustribus ou como o "prefácio" para a tradução das Crônicas de Eusébio de Cesareia, famoso historiador da Igreja (séculos III-IV) e uma "continuação" desse mesmas escrito de 326 a 379 – quanto as obras hagiográficas.

Nestas últimas, desfilam figuras eremíticas como São Paulo da Tebas egípcia, que vestia folhas de palmeira, matava a sede em uma fonte e se alimentava de tâmaras e de um pedaço de pão servido todos os dias por um corvo.

Depois, há a Vida de Hilarion, nascido nos arredores de Gaza, em 291, fundador do monaquismo na Palestina, cuja existência tinha sido uma reluzente sequência de milagres, entrelaçados com uma solitária experiência mística que transfigurava a obra do taumaturgo.

O tríptico hagiográfico se encerra com Malco, cuja história é marcada por uma presença feminina: o relato é cheio de golpes de cena que só podemos confiar à leitura das páginas jeronimianas.

O célebre tradutor da Bíblia aproveita-se dessa história para justificar polemicamente a presença, ao seu lado, na dura solidão monástica de Belém, de Paula, uma nobre romana, e de outras matronas, também elas devotadas ao isolamento espiritual.

Esses escritos nos apresentam, assim, uma dupla face do santo da Dalmácia. Uma duplicidade que pode ser eficazmente representada por duas das várias pinturas dedicadas a ele na história da arte.

De um lado, eis o Jerônimo eremita esboçado por Leonardo da Vinci em uma tábua dos Museus Vaticanos (imagem acima), recuperada de modo rocambolesco por um tio de Napoleão, o cardeal Joseph Fesch (1763-1839): a parte inferior do quadro havia sido adaptada como cobertura de uma caixa na loja de um vendedor romano de coisas usadas, enquanto a superior havia sido descoberta pelo cardeal no seu sapateiro, que a usava como plano de um banquinho.

Aqui, o santo aparece com um corpo cavado, genuflexo e torturado pelo jejum, enquanto empunha uma pedra para se bater no peito e com um rosto do qual já transparece o crânio, marcado por olhos ardentes e implorantes.

De outro lado, eis o Jerônimo estudioso como concebido por Antonello da Messina em 1475-1476, em outra estupenda tábua da National Gallery de Londres (imagem ao lado). Jerônimo está sentado diante de um códice em um estúdio bem equipado e inserido em uma admirável composição arquitetônica. Desaparece o asceta e entra em cena quase que um eclesiástico humanista dedicado às pesquisas filológicas, precisamente como fará o santo com a sua Vulgata e com a enorme produção exegético-teológica. Curiosos são os símbolos que servem quase de assistentes mudos ao estudioso, a perdiz e o pavão que remetem à sacralidade e à imortalidade bem-aventurada, escancarada diante de quem busca o sentido profundo da palavra divina.

Dizíamos que São Jerônimo não primava pela mansidão e humildade (não é à toa que ele era acompanhado por um leão simbólico). Pois bem, nas antípodas, coloquemos agora outro escritor cristão, que viveu séculos depois, tendo nascido em uma região que se assoma ao Mar Negro, em torno de 949. Era chamado de Simeão, o Novo Teólogo, foi monge e estudioso prolífico como Jerônimo: dele, aparecem agora, em versão, os Hinos, algo como 10.700 versos, uma verdadeira autobiografia mística cantada, que traça, através de uma profunda catarse interior, um itinerário de comunhão tão íntima com Deus a ponto de gerar uma espécie de deificação da criatura.

É justamente nessa autorrepresentação íntima que Simeão se flagela impiedosamente, com acentos tão forte a ponto de beirar o masoquismo ou o risco da humildade "peluda". Bastam apenas alguns fragmentos dessa confissão incessante: "Eu, o indigno, o indivíduo que não vale nenhum tostão, pior do que qualquer homem e do que qualquer animal irracional".

A serpente diabólica "me segurava no seu punho e me arrastava com força nos depósitos do esterco e da imundície e em todos os tipos de pântanos, me jogava no meio do fedor repulsivo... enquanto eu cometia rapinas, atos de hostilidade, mortes injustas, insultos, ataques de raiva e todo tipo de maldade".

É evidente que Simeão atravessa de modo tão aceso a humildade a ponto de invadir a humilhação autodestrutiva, confiada à ênfase da retórica moralista. Uma ênfase que também se encontra em outros temas de índole mais teológica, como no caso da evocação da encarnação e da redenção de Cristo, através de uma referência, insistida e excessiva até beirar o mau gosto, à sua sexualidade (leia-se o hino XV).

Do pesado realismo moral e cristológico de Simeão, passemos, no fim, à alta espiritualidade de um terceiro autor da antiguidade cristã. Com o texto grego à frente, com uma imponente introdução e com uma acurada sequência de notas de rodapé, Claudio Moreschini nos oferece todas as Obras dogmáticas de Gregório de Nissa, um dos grandes Padres da Igreja do Oriente, nascido na Capadócia em torno de 331, irmão mais novo de outro famoso bispo e teólogo, Basílio, ambos ligados a uma irmã de forte personalidade, Macrina.

Eleito bispo de Nissa, uma pequena cidade daquela região, agora situada no centro da Turquia, Gregório nos deixou uma rica bibliografia teológica que aborda um arco muito variado de temas, da ontologia à antropologia, da reflexão trinitária à cristologia, do conhecimento místico à exegese alegórica espiritual da Bíblia.

Nesse último âmbito, deve-se assinalar A vida de Moisés, obra da velhice, quando a leitura do texto sagrado levita até florescer na contemplação interior e em parêneses morais. Assim como Moisés podia dialogar com Deus "face a face" na atitude do amigo diante do seu amigo, assim também o fiel pode ascender até o contato direto com Deus, cuja infinidade torna esse encontro uma constante aventura da alma que nunca tem uma meta terminal.

A gama dos temas abordados pelo Nisseno, no entanto, é tão variada que o percurso nos seus textos abre cortes muitas vezes inesperados, como no caso da "apocatástase".

Com esse termo bastante polissêmico, delineia-se o nosso destino último na ressurreição: então, se celebrará o retorno da humanidade à condição primigênia. O homem será plenamente recriado e restaurado, reencontrando no amor a sua harmonia com Deus e com a criação inteira.

  • Jerônimo. Opere storiche e agiografiche , organizado por Bazyli Degórski. Roma: Città Nuova, 560 páginas.
  • Simeão, o Novo Teólogo. Inni, organizado por Francesco Trisoglio. Roma: Città Nuova, 337 páginas.
  • Gregório de Nissa. Opere dogmatiche, organizado por Claudio Moreschini. Milão: Bompiani, 2.027 páginas.

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