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22 Abril 2015

Pietro Stefani, teólogo italiano, comenta a bula Misericordiae Vultus, de Papa Francisco, ressaltando dois pontos: o abandono da centralidade exclusiva da cidade de Roma e o tema da indulgência. O artigo é publicado na revista Il pensiero della settimana, 19-04-2015. A tradução é de Benno Dischinger

Eis o artigo.

“Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por Teu amor” (1). Assim canta Francisco, no Cântico do Irmão Sol. Aqui ressoa a força do “por” que aqui queremos entender neste sentido: o amor de Deus (genitivo simultaneamente subjetivo e objetivo) nos torna capazes de perdoar.

Filologicamente, se considera que este versículo tenha sido acrescentado para obter a reconciliação entre o bispo e o governante de Assis. Isso, em todo caso, diz respeito a um perdão que potencialmente toca a todos e a cada um; com respeito a isso, não há nenhuma mediação confiada ao sacerdócio ordenado. Aqui o bispo tem a maior titularidade do poder. Nestes casos, a responsabilidade pesa tanto sobre o ofensor como sobre o ofendido: o primeiro com respeito ao arrependimento e ao pedido de perdão, o segundo com respeito à concessão do perdão. Deus está escondido dentro deste cruzamento.

No dia 11 de abril o Papa Francisco tornou pública a bula ‘Misericordiae Vultus’, a qual proclama o jubileu extraordinário dedicado à misericórdia. Percorrendo os 25 parágrafos que a constituem, seria vão procurar o eco do verso do Cântico. Nela a misericórdia e o perdão são da alçada de Deus e da Igreja, entendida esta na sua veste de hierarquia sacerdotal. O perdão é amplo e concedido sem reserva, mas a via para obtê-lo é aquela agora indicada. O modelo requer, em ampla medida, o que ocorre nas missões populares, formas de mobilização que outrora pareciam consignadas a um não arrependimento passado: “Na Quaresma deste Ano Santo tenho a intenção de enviar os Missionários da Misericórdia. (...) Serão sacerdotes aos quais darei a autoridade de perdoar também os pecados que são reservados à Sé Apostólica, para que seja evidente a amplitude de seu mandato” (n. 18).

A iniciativa que Francisco instituiu é um Ano Santo centrado na mediação do sacerdócio ordenado. Isso continua sendo verdadeiro, não obstante as novidades por tal medida comportadas. Os pontos-chave são dois: o abandono da centralidade exclusiva da cidade de Roma e o tema da indulgência.

Com a bula de indição Francisco conseguiu subtrair-se à potencial contradição entre o fato de ser o Papa das periferias e a realização de um jubileu por sua natureza romanocêntrico. (As portas da misericórdia serão abertas em todas as catedrais (ou co-catedrais) do mundo e também em determinados santuários individuados pelo ordinário do lugar [cf. n.3]). Na ‘Misericordiae Vultus’ não se abandonou de todo a ideia da peregrinação (cf. n. 14), esta, todavia, poderá ser de “dimensão pequena”. Por razões de costume não faltará o afluxo de peregrinos a Roma, todavia, à cidade será assinalado um papel menos qualificante (e talvez também quantitativamente menos relevante).

O segundo ponto-chave é o da indulgência (não por acaso conjugada no singular). O parágrafo que a considera mais de perto é antes confuso (como de resto várias passagens da bula, em particular os números reservados à justiça – cf. nn. 20-21). O referente à indulgência/s é um argumento capital com respeito ao Ano Santo. Trata-se de uma doutrina centrada na remissão das penas do além. A discussão sobre este tema se encontra na origem da Reforma (cf. as Noventa e cinco teses de Martinho Lutero). Trata-se de rochosos lugares no belo ambiente da história cristã. A bula finge, todavia, não dar-se conta disso. Ela cala sobre todo componente histórico-teológico, não faz nenhum aceno às almas do Purgatório ou a qualquer dimensão conexa com o Além. A ‘Misericordiae Vultus’ individua na indulgência uma espécie de terapia reservada aos póstumos deixados pela completa extinção das culpas realizada pelo sacramento da reconciliação.

No sacramento da Reconciliação Deus perdoa os pecados, os quais são realmente apagados; no entanto, a marca negativa que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e nos nossos pensamentos permanece. Mas, a misericórdia de Deus é mais forte também do que isto. Ela se torna indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo alcança o pecador perdoado e o libera de todo resíduo remanescente do pecado, habilitando o pecador a agir com caridade e a crescer no amor antes do que recair no pecado.

A Igreja vive a Comunhão dos Santos. Na Eucaristia esta comunhão, que é dom de Deus, atua como união espiritual que a nós fieis conecta com os santos e bem-aventurados, cujo número e incalculável (cf Ap 7,4). Sua santidade vem em ajuda de nossa fragilidade, e assim a Mãe Igreja é capaz, com sua prece e sua vida, de vir ao encontro à debilidade de uns com a santidade de outros. Viver, portanto, a indulgência no Ano Santo significa achegar-se à misericórdia do Pai com a certeza de que seu perdão se estende sobre toda a vida do fiel.

Indulgência é experimentar a santidade da Igreja que participa a todos os fiéis os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se estenda até as extremas consequências às quais chega o amor de Deus (n. 22). Em definitivo, a indulgência tem, no plano espiritual, a mesma função desenvolvida pela fisioterapia após uma operação bem sucedida realizada sobre algum membro.

Trata-se, então, de uma revolução doutrinal? O tom homilético da ‘Misericordiae Vultus’ não deixa entender se o é ou não. Poucos, no entanto, se atormentam com isso. As perplexidades suscitadas pelo Ano Santo extraordinário, dedicado à misericórdia, têm sido redefinidas, mas não retiradas da bula de proclamação. Caberia ao “povo de Deus” reafirmar o papel decisivo reservado à reconciliação inter-humana e ao seu significado, em sentido realmente social, com o qual a bula, coerente com o modelo clássico dos Anos Santos, não se envolve. Todavia, é fácil prever que isso dificilmente ocorrerá.

Nota:

1.- "Laudato si’, mi’ Signore, per quelli ke perdonano per lo Tuo amore" no original.

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