Dom Romero, finalmente bem-aventurado, e Rutilio Grande: rumo às periferias

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12 Março 2015

A data da beatificação de Oscar Romero foi fixada: a cerimônia será realizada em San Salvador no próximo dia 23 de maio. O anúncio foi feito nessa quarta-feira, durante a visita a El Salvador de Dom Vincenzo Paglia, postulador da causa do arcebispo mártir. Conclui-se, assim, com as honras dos altares o longo e conturbado percurso da causa de canonização do pastor assinado por ódio à fé no dia 24 de março de 1980.

A reportagem é de Stefania Falasca, publicada no jornal Avvenire, 11-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E certamente é significativo que a comunicação oficial do dia da solene celebração, que será presidida pelo prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, tenha sido escolhida justamente às vésperas de outro aniversário: o do assassinato do jesuíta salvadorenho Rutilio Grande, que ocorreu no dia 12 de março de 1977, três anos antes da morte de Romero.

O padre Grande, crivado de balas junto com dois agricultores enquanto se dirigia para rezar a missa em uma zona rural, foi a primeira vítima da série de crimes contra o clero, a primeira da violenta perseguição em um país governado por uma oligarquia que se professava católica.

Para o padre jesuíta, também está em curso agora a causa de canonização, instruída pela diocese salvadorenha no início de janeiro. E é a intenção da Igreja centro-americana levar essa causa paralelamente com a de Romero, rumo ao pleno reconhecimento da santidade.

O motivo é este: o "estreito vínculo que os une em uma perspectiva teológica e pastoral", porque, como afirma Dom Paglia, "é impossível compreender Romero sem compreender Rutilio Grande".

O padre Grande é uma figura-chave na qual se ilumina e se reflete profundamente a ação e a conversão pastoral de Romero naquele difícil e controverso momento histórico em favor da defesa dos oprimidos, dos pobres e da justiça social. Sua morte marcou profundamente os últimos três anos da sua vida.

Romero lhe havia conhecido em 1967, no seminário de San José de la Montaña, onde o padre Rutilio lecionava. "Embora hesitante nas amizades íntimas com outros eclesiásticos, Romero estreitou com ele uma relação de amizade fraterna, de confiança, que marcou os momentos importantes da sua vida", afirma na biografia Primero Dios (Ed. Mondadori) o historiador Morozzo della Rocca. O padre Rutilio foi mestre de cerimônias na sua consagração episcopal em 1970.

Ele o sentia como um irmão, considerava-o um homem de Deus. Era um jesuíta não de origens ibéricas, como muitos dos seus coirmãos em Salvador, diferente do grupo dos jesuítas acadêmicos da Universidade Centro-Americana (UCA) – a instituição salvadorenha onde a alta cultura visava a formar a classe dominante alternativa, chamada a mudar o país – chamados por Rutilio, jocosamente, de "mestres de Israel".

Ele não compartilhava o pensamento teórico do padre Ignacio Ellacuría, o intelectual por excelência dos jesuítas em El Salvador, que teorizava e buscava um projeto de mudança política reformista do país. Rutilio não queria se envolver nesses planos que afastavam da realidade.

Escreve um dos seus coirmãos: "Ele considerava que a única solução dos males de El Salvador, cuja alma era rural, era a comunicação do Evangelho entre o povo e com o povo dos agricultores. Ele tinha a convicção, nascida de uma inspiração de amor, de que o seguimento de Jesus e o Evangelho podiam levar a uma mudança mais profunda das pessoas e das estruturas do que qualquer programa político".

Em 1972, ele renunciou ao trabalho acadêmico, deixou a capital, sentiu seguir aquilo que Deus lhe indicava naquele momento: ir viver pobremente entre os agricultores de Aguilares, na cidade onde nascera. Portanto, não se tratava de uma escolha por motivos sociológicos ou políticos.

Os motivos da opção são teológicos: "Porque é Deus que ama e prefere os pobres, porque é a eles que é concedida a sua primeira misericórdia", afirma. "Trata-se – acrescenta – de não mutilar Cristo e de aceitar a centralidade dos pobres, assim como o Evangelho a apresenta e de reconhecê-los como verdadeiros construtores do Reino de Deus, aceitar que, através deles, deve-se fundar o reino de Deus", e nisso, para Rutilio, "estava em jogo a fidelidade à Igreja, a Cristo".

A pastoral que animava o padre Rutilio significava, por isso, ler a realidade à luz do Evangelho e acompanhar a ação libertadora de Deus no meio do povo. Assim, ele buscou fielmente o caminho para a libertação integral do seu povo, dos camponeses, levando e recebendo até o fim a novidade evangélica, sem cair nos reducionismos das ideologias.

"A libertação que o padre Grande pregava se inspirava na fé", afirmou Romero no funeral de Rutilio. "A libertação que termina na felicidade de Deus, a libertação que inicia no arrependimento do pecado, a libertação fundada sobre Cristo, única força que salva: essa é a libertação que Rutilio Grande pregou (…) talvez os movimentos sensíveis à questão social a conhecessem. Eles não se exporiam ao insucesso, à miopia que faz ver as coisas temporais, estruturas do tempo. Enquanto não se viver uma conversão do coração (…) tudo será frágil, revolucionário, passageiro, violento. Não cristão".

Aquilo que Romero fez exatamente daquele sacerdote missionário é a conversão pastoral, conforme o parágrafo 28 da Evangelii nuntiandi. E, certamente, o assassinato do padre Rutilio determinou nele um espírito de fortaleza, como ele mesmo a chamou. Uma consciência de ter que agir naquele momento com mais coragem e chamando ao amor evangélico na vida social.

No seu funeral, diante de uma multidão enorme, Romero ressaltou a motivação de amor que havia guiado Rutilio a viver o Evangelho entre os agricultores: "O amor verdadeiro é aquele que levou Rutilio Grande à morte, enquanto dava a mão a dois agricultores. Assim ele ama a Igreja: morre com eles e com eles se apresenta à transcendência do céu. Ama-os. É significativo que, enquanto o padre Grande está indo rumo ao seu povo para levar a Eucaristia e a mensagem da salvação, justamente então ele cai crivado. Um sacerdote com os seus camponeses, rumo ao seu povo para se identificar com eles, para viver com eles, não por inspiração revolucionária, mas por inspiração de amor e precisamente porque é o amor aquilo que nos inspira, irmãos...".

O Papa Francisco pôde se encontrar com esse seu coirmão nos anos 1970: "Eu conheci Rutilio Grande uma vez, em uma reunião de latino-americanos. No entanto, não falei com ele. Depois da sua morte, me interessei muito por ele. Ele deixou o 'centro' para ir para a periferia. Um grande".

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