O pontificado de Francisco: alfajores, selfies, abraços

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11 Março 2015

Talvez muitos não saibam, mas, desde que Francisco se tornou papa, no Vaticano, existe um "trenzinho dos argentinos". Não há vagões nem trilhos. Ele não parte nem chega a nenhuma estação. Mas tem um simbólico "maquinista" e entre 250 e 300 "passageiros". Ao todo, ele percorre cerca de 300 metros, a uma velocidade de dois quilômetros por hora. Os "passageiros" se reúnem às 8h30, do lado de fora do portão de Sant'Anna, à direita da praça. E, aos poucos, depois do controle dos gendarmes vaticanos, entram segurando entre as mãos um minúsculo bilhetinho: o seu passaporte para o paraíso de um encontro com "Jorge".

A reportagem é de Massimo Franco, publicada no jornal Corriere della Sera, 10-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eles atravessam os blocos dos Guardas Suíços, viram à esquerda e se reúnem debaixo do torrião que abriga o IOR. Lá, em cima dos quatro degraus do quartel dos gendarmes, o "maquinista", argentino como eles, lhes espera. E começa a ler os nomes, um por um, em uma lista preparada, corrigida e recorrigida, favorecendo hierarquias misteriosos nos dias anteriores. É preciso observar os rostos, esticados para ouvir o próprio nome ser pronunciado, em silêncio religioso. Significa ser admitido a essa brevíssima "viagem" rumo ao privilégio de um beija-mão, de uma palavra, de uma foto, talvez até do contato com as bochechas do "padre Jorge".

"Vejo que há argentinos e amigos italianos que acompanham os argentinos... Como ocorre muitas vezes", comenta, com um imperceptível brilho de ironia, o Mons. Guillermo Karcher, o "maquinista" que trabalha no Escritório de Protocolo do Vaticano.

Argentinos que trazem consigo italianos: já é uma pequena revolução. Também se inverteu a geopolítica das recomendações. E o Mons. Karcher organiza e lidera o seu pequeno comboio humano com um cortês distanciamento. Faz a chamada: "Padre Eduardo Di Paola, de Bariloche... Lidia Barbini... José Álvarez... padre Pablo Alviles, de Cordoba...". "Adelante, para o primeiro vagão, digamos", organizando-os simbolicamente.

Na realidade, o primeiro vagão é apenas a frente da fila. Dóceis, emocionados, os "passageiros" se preparam, deixando sobre os degraus uma caixa de alfajores, os biscoitos argentinos feitos com nozes e amêndoas; ou potes de dulce de leche, santinhos, cartas para o pontífice. Caberá ao "maquinista" entregá-los: mesmo que as coisas para comer acabem na Casa das Irmãs de Madre Teresa de Calcutá.

O "trenzinho" parte do quartel dos Guardas Suíços, costeia o torrião do IOR rumo à Praça de São Pedro. Penetra um portãozinho que desemboca na Escada Real. Depois, dobra à esquerda e chega à frente da basílica, atrás do altar ao ar livre.

O padre Guillermo sabe que é um rosto conhecido entre os argentinos: no mínimo, porque era o sacerdote que, na sacada, segurava o microfone que difundiu as primeiras palavras do papa para a multidão da Praça de São Pedro, na noite do dia 13 de março de 2013.

Quando chegam à praça, justamente debaixo daquela sacada, os "passageiros" com o bilhete da "lista A" são acomodados na primeira fila. Os da B, nas três filas atrás. Os argentinos chegam por último na praça e vão embora por último.

O papa se aproxima deles só depois de ter cumprimentado a todos. E se entretém por um longo tempo, reconhecendo rostos familiares e deixando-se contar histórias de parentesco, amizades, vínculos, investido por uma onda de calor, de simpatia e de alegre confusão, que enfatiza mais o orgulho nacional do que a fé religiosa...

Mas esse contato pontuado por palavras em um espanhol lavado no Rio da Prata é apenas o ponto final de um longo processo. Cada "trenzinho" já é construído com quase seis meses de antecedência. Em dezembro, já se fala da audiência do fim de junho de 2015.

Karcher tem há meses uma "grade" digital em que os argentinos devem escrever para a Secretaria de Estado o seu nome e sobrenome, a motivação da visita, a cidade de origem, eventuais acompanhantes, o número de telefone e o e-mail.

Percorrendo-a, há os "pedidos de beija-mão" por parte da embaixada argentina. Depois, reservas de audiências privadas. Indicações da nunciatura. Francisco as examina com antecedência e, quando vê algum nome conhecido, pede que seja posto "fora das grades", para abraçá-lo e cumprimentá-lo pessoalmente sob o teto do altar.

Normalmente, são os governadores das províncias argentinas, os ministros nacionais, os grupos organizados. E depois há os supersortudos admitidos à Casa Santa Marta. Quem assiste a essas audiências conta um caos muito latino-americano, alimentado e não represado pelo ex-arcebispo de Buenos Aires. Incluindo "selfies" e trocas de piadas em um dialeto portenho puro: uma língua totalmente bergogliana, que o pontífice às vezes utiliza até em alguma audiência, provocando expressões surpresas até entre os diplomatas de língua espanhola um pouco avessos ao seu jargão...

Mas, apesar disso, é difícil entrever uma "pequena Buenos Aires" entre os muros vaticanos e na própria Casa Santa Marta. É verdade, o seu círculo estreito é buenairense. De manhã cedo, depois de tomar a aspirina contra a dor de cabeça, ele se encontra com dois compatriotas, os padres Pedacchio e Karcher. O primeira, dentre outras coisas, tem a tarefa de atualizá-lo todos os domingos sobre os resultados do time do San Lorenzo; o segundo lhe faz uma espécie de clipagem da imprensa diária dos jornais de Buenos Aires, La Nación e El Clarin em primeiro lugar.

Mas Francisco não quis uma audiência especial para os argentinos, como João Paulo II fazia com os poloneses. E, embora os seus compatriotas no Vaticano hoje pareçam ser todos "bergoglianos", Francisco sabe estabelecer as distâncias... Ninguém é autorizado a falar no seu nome, nem a reduzir o seu pontificado a um fato interno argentino.

Nas conversas e nas relações entre Roma e Buenos Aires, o tema ressurge continuamente... Existe uma espécie de breviário oral de que o círculo dos amigos de Francisco indicou como manual para alguns argentinos que o contatam. Ele sugere que não se reduza o papa a um fator da realidade nacional; que não se o manipule a serviço de interesses político-partidários na Argentina; que não se considere que Francisco pode resolver todos os problemas do país, descarregando a responsabilidade dos argentinos e da sua classe dominante...

Mas não é fácil fazer entender que o papa não deve ser "nacionalizado". A tentação de considerar Bergoglio, em primeiro lugar, como o "seu" pontífice é humana.

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