Infectologista da Fiocruz fala sobre a malária e a importância do diagnóstico rápido

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05 Março 2015

Os casos de malária confirmados no Estado do Rio de Janeiro e divulgados esta semana pela imprensa trouxeram o debate sobre a enfermidade novamente à tona. O infectologista José Cerbino Neto, do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), é especialista no tema e, na entrevista abaixo, discorre sobre a doença, suas características, sintomas, a importância de se obter um diagnóstico rápido e ainda a atuação da Fundação, entre outros aspectos. Normalmente associada à Região Amazônica nos dias de hoje, a malária já foi endêmica em todo o território brasileiro, sendo erradicada da maior parte do país em meados do século 20. Atualmente, além da Região Norte existem áreas de transmissão residual nos estados do Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

A entrevista foi publicada pelo sítio Fiocruz e reproduzida pelo portal EcoDebate, 04-03-2015.

Eis a entrevista.

O que é a malária?

A malária é uma doença febril aguda infecciosa causada pelos protozoários do gênero Plasmodium e é transmitida para os seres humanos pela picada de fêmeas de mosquitos do gênero Anopheles infectadas. É uma doença potencialmente grave, mas com tratamento eficaz que, quando realizado de forma correta e oportuna, apresenta excelente prognóstico.

Qual o histórico da doença no Brasil?

A malária foi introduzida no continente americano ainda no período colonial, encontrando condições ambientais favoráveis para seu estabelecimento de forma endêmica. A doença foi endêmica em todo o território brasileiro, ocorrendo em todas as capitais do país até que, em meados do século 20, os esforços do programa de controle conseguiram eliminar a transmissão da doença da maior parte do país, ficando sua ocorrência restrita basicamente à região amazônica, com áreas de transmissão residual nos estados do PR, SP, RJ, MG e ES.

Quais são as características da malária fora da Região Amazônica?

Cerbino: Na região de Mata Atlântica do Estado do Rio de Janeiro, foi identificado, nos anos 90, um foco de transmissão de malária por Plasmodium vivax, no município de Nova Friburgo. Desde então, um número pequeno de casos vem sendo identificado regularmente. A transmissão ocorre em áreas rurais de mata atlântica fora do litoral, sempre com quadros clínicos brandos, por vezes auto limitados. O diagnóstico dos casos é dificultado primeiro pelo baixo índice de suspeição, uma vez que as formas leves não apresentam sinais clínicos característicos da doença e ocorrem em uma área de baixíssima incidência. Além disso, mesmo quando a suspeita clínica é levantada, o diagnóstico laboratorial torna-se um desafio, uma vez que as infecções cursam com parasitemia [presença de parasitas vivos no sangue] muito baixa e morfologia atípica dos protozoários, o que levanta inclusive discussões sobre a possibilidade de tratar-se de outra espécie que não o P. vivax.

Quais os principais sintomas?

A malária tem um amplo espectro de apresentação clínica, podendo ocorrer desde formas muito leves até quadros muito graves. Essa gravidade é determinada por uma série de fatores, como a espécie de Plasmodium envolvida, a intensidade da infecção, a história do paciente de exposição anterior e outras características do hospedeiro como idade, gestação e co-morbidades. Os casos autóctones do Rio de Janeiro identificados até o momento e atendidos pela Fiocruz tem apresentado quadros leves, basicamente com febre sem outras complicações.

No paciente com malária, de uma forma geral, os sintomas mais comuns são febre, mal-estar, dores pelo corpo e cefaleia [dor de cabeça]. Após alguns dias, a febre pode se apresentar de forma exarcebada, com episódios de elevação rápida da temperatura e calafrios seguidos de sudorese [transpiração] intensa e defervescência [declínio]. Esses episódios podem ser acompanhados de náuseas e vômitos, e ocorrer em intervalos regulares. Anemia e dor abdominal com aumento de fígado e baço podem aparecer, e nas formas graves são observados sangramentos, icterícia [cor amarelada na pele], insuficiência renal e alterações neurológicas.

Qual a importância do diagnóstico rápido?

O diagnóstico rápido é muito importante, sobretudo, para o prognóstico do caso. Este também permite o tratamento precoce, que evita a evolução para formas graves. O diagnóstico rápido acaba tendo importância também para o controle da doença, uma vez que, quanto antes o paciente receber o tratamento, mais rápido ele deixa de ser uma fonte de infecção, reduzindo o risco de ocorrência de nova transmissão.

Como é possível se prevenir da malária?

Na situação epidemiológica do Rio de Janeiro, a prevenção envolve as medidas de proteção individual, com o uso de repelente e mosquiteiros nas áreas de transmissão. É importante utilizar repelentes com eficácia estabelecida, evitando produtos “caseiros”. A redução da área exposta com utilização de roupas com mangas também reduz o risco de infecção.

Quais são as formas mais eficazes de tratamento?

O tratamento medicamentoso é extremamente eficaz e pode durar de 3 a 10 dias, de acordo com a espécie de Plasmodium envolvido na infecção. No caso da malária autóctone do Rio de Janeiro, o tratamento é realizado ambulatorialmente com medicação oral muito bem tolerada. Os antimaláricos são medicamentos fornecidos gratuitamente nas unidades de referência para os casos diagnosticados. As formas graves devem ser tratadas em ambiente hospitalar com medicações parenterais [que se faz por outra via que não a digestória].

Como a Fiocruz atua na prevenção e no tratamento da doença?

A Fiocruz tem linhas de pesquisa direcionadas para os diversos aspectos da malária, como entomologia, epidemiologia e métodos diagnósticos. O Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas [INI/Fiocruz] atua no atendimento de casos suspeitos, realizando o diagnóstico e o tratamento dos pacientes, e desenvolve linhas de pesquisa na área com o Laboratório de Doenças Febris Agudas. A investigação e monitoramento dos casos autóctones da Mata Atlântica do Estado do Rio atendidos pelo ambulatório de Doenças Febris Agudas e diagnosticados pelo Serviço de Parasitologia do INI vem sendo feita desde 2008 por estudos com o Laboratório de Pesquisa em Malária e Laboratório de Transmissores de Hematozoários do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), integrantes do Centro de Pesquisa Diagnóstico e Treinamento em Malária da Fiocruz (CPD-Mal).

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