Sobre as crianças de rua de Gaza, “Agora morrem também de frio”

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03 Março 2015

Omar volta para casa da escola de Unrwa di Shejaia com uma pequena mochila desbotada nas costas como todos os meninos do mundo quando a aula termina. Caminha com a cabeça baixa, deve passar em meio a este bairro feito agora por pequenas colinas de oito a dez metros de altura, feitas com os restos das casas destruídas na guerra ocorrida neste verão. As crianças da região são reconhecidas de imediato. Calçam sapatos sem meias, mesmo se a temperatura alcança no máximo os seis graus. Das ruínas das casas foram retirados cobertores e praticamente mais nada. Nada de meias, porque não são prioridade. À noite, a temperatura é gélida, os recém nascidos são os que seguidamente pagam o preço mais alto. Multiplicam-se os casos de pneumonia, e também os de congelamento. “Ficou azul”, fala com uma dura simplicidade Munir Khassi, o avô de uma criança de 5 meses que morreu dormindo durante a madrugada gelada em sua casa parcialmente destruída em Khan Younis.

A reportagem é de Fabio Scuto, jornalista italiano, em artigo publicado pelo jornal La Repubblica, 27-02-2015. A tradução é de Ivan Lazzarotto.

Com apenas dez anos, e já veterano de quatro guerras, Omar não possui livros ou brinquedos. A sua família – os Fodil – vive desde o último verão em meio as ruínas da sua casa. A mãe cozinha em um fogão a lenha improvisado sobre o que restou da sala de estar. À noite de Shejaia exala um odor de lenha queimada. Os focos que são vistos entre as montanhas de entulho são a única fonte de luz e de calor neste bairro que abriga aproximadamente 60.000 pessoas. Durante a guerra foram destruídas 96.000 casas. Dos 130 mil desabrigados poucos encontraram hospitalidade nos contêineres ou em barracas, sendo que cerca de vinte mil ainda vivem em escolas de Unrwa que dão abrigo e refúgio, mas a maior parte vive entre as montanhas de entulhos que restou de suas casas. A reconstrução seis meses após do cessar fogo recebeu apenas um aceno, e nesse ritmo, serão necessários 100 anos – estimou Oxfam – para reconstruir aquilo que foi destruído pelas bombas durante os 50 dias de guerra, enquanto a milícia de Hamas estava ocupada em lançar 4500 mísseis contra Israel.

Um rastro de sangue de 2.200 palestinos mortos, 10.000 feridos, 72 israelenses assassinados e 1.500 feridos. A Unrwa, agência da ONU que assiste os refugiados palestinos, terminou os seus fundos interrompendo o seu programa de assistência para sustentar possíveis locais de trabalho e reparo nas habitações, e para o aluguel de casas que era dado aos desabrigados. Os compromissos bilionários firmados com o vértice internacional do Cairo não foram respeitados e os islamistas do Hamas, que controlam este pequeno pedaço de terra, se recusam a libertar os prisioneiros. Pelo contrário, se preparam novamente para a guerra. Disparam mísseis ao mar para testar o alcance, treinam crianças das escolas superiores às armas para formar também um exército de menores de idade. “As singelas esperanças de um futuro melhor foram destruídas pela última guerra e pela paralisação política”, fala Robert Turner, chefe das operações da Unrwa em Gaza, “os palestinos estão presos na Faixa sem nenhuma esperança de mudança. Milhares de famílias esperam ajuda, mas nós – a Unrwa – não temos mais dinheiro. Se não somos mais capazes de reiniciar o fornecimento de benefícios, as pessoas que deixaram as nossas escolas e encontraram soluções alternativas estarão sujeitas a voltar”.

Uma das razões para o não pagamento de fundos por parte dos Países doadores, e de Israel passar materiais de reconstrução, é que o cimento poderia ser usado pelo Hamas para o bunker subterrâneo onde vivem os seus líderes e para os túneis, o aço para construir mísseis. Os líderes islâmicos foram hábeis depois da guerra ao anunciar a vontade de ceder muitas responsabilidades de governo a Gaza, mas não o poder. Os seus homens ainda exercitam o controle sobre três caminhos com Israel e o Egito. A polícia islâmica controla as cidades e os membros do braço armado Ezzedin al Qassam estão em seus refúgios subterrâneos prontos para matar. Os jornalistas que entram em Gaza, sempre em número menor devido as ameaças de sequestro dadas pelos grupos pró-Salafistas, recebem aprovação de entrada do Hamas. Os islâmicos que consideram o Hamas muito moderado ganham autorizações, a propaganda pró-Islã que cria prosélitos. Foram eles que mandaram pelos ares o Centro Cultural francês. Em um mês foram explodidos quatro caixas eletrônicos e ninguém sabe quem possa ter feito.

Explodem também os carros nas noites escuras de Gaza, quatro em duas semanas. A “voz da estrada” diz que trata-se de uma escalação das várias facções em luta. Porque nessa faixa de areia destruída pela guerra existem pelo menos dois conflitos armados: aquele entre o Hamas e os salafistas que pedem o Califado, e aquela entre os fiéis – sempre menor – do presidente Abu Mazen e aqueles do ex-capitão de Arafat Mohammed Dahlan que está em busca de colocar em ação Fatah 2.0 para remover a velha guarda.

A pesca praticamente parou, os agricultores possuem campos devastados pelas bombas e as fábricas de Gaza foram atingidas. Como a fábrica de conservas Pioneer, ou a Al-Awda que produzia sorvetes, batatinhas e biscoitos. Na Al-Awda – danos aproximados de 24 milhões de dólares – o trabalho foi parcialmente retomado mas somente para os biscoitos. Poderiam fazer mais se Israel consentisse a passagem de peças para manutenção e novas máquinas para substituir aquelas reduzidas a entulho. Mas por enquanto nada, “o sorvete terá que esperar” falou desconsolado o diretor Manil Hassam.

Gaza é uma metáfora de tudo aquilo que é errado.

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