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02 Março 2015

"É angustiante. Às vezes, não consigo dormir pensando no que construí nos últimos quinze anos - e em como tudo isso desmoronou em questão de meses", conta Anderson de Souza, pequeno empresário da periferia de Salvador que acaba de fechar seu negócio na área de distribuição de bebidas.

A reportagem foi publicada pela BBC Brasil, 26-02-2015.

"Como vou pagar a escola dos meus três filhos? E em que vou trabalhar se as empresas parecem só querer contratar gente jovem?"

A história de Anderson é uma das muitas ouvidas pela BBC Brasil que mostram como a estagnação da economia, a desaceleração do mercado de trabalho e as demissões em massa em setores específicos parecem estar colocando em risco o sonho de classe média de algumas famílias brasileiras.

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o desemprego ficou em 5,3% em janeiro, contra 4,3% em dezembro e 4,8% no mesmo período de 2014. A taxa ainda está em patamares historicamente baixos, mas essa alta de 1 ponto percentual significa que o número de pessoas desocupadas aumentou 22,5% no mês passado. No total, o saldo de janeiro é de um fechamento de 220 mil postos de trabalho.

Carrinho mais vazio

"Com a desaceleração do mercado de trabalho é esperado que possa haver uma paralisação e até retrocesso de alguns avanços sociais dos últimos anos", acredita Waldir Quadros, professor da Facamp (Faculdades de Campinas). "Temos estudos mostrando que, desde 2013, já houve uma piora na questão da mobilidade social - as pessoas não só pararam de melhorar como começaram a piorar. E esse processo deve acelerar com um aumento do desemprego."

Claudio Dedecca, da Unicamp concorda que pode haver retrocesso. "Mesmo entre os empregados, já está mais difícil negociar ganhos reais de salário", diz.

Gabriel Ulyssea, professor da PUC-Rio, faz a ressalva: "É claro que as histórias de pessoas que perderam seus empregos ou não encontram trabalho são dramáticas – e de fato devem se tornar um pouco mais comuns. Mas por outro lado, o índice de desemprego deve crescer pouco – a boa notícia é que não deve chegar ao patamar dos 10%."

Anderson é um dos brasileiros cujo padrão de vida está sendo afetado pela estagnação e as demissões. São pessoas que prosperaram nos anos em que o Brasil crescia. Muitas compraram casa, carro e eletrodomésticos. Investiram em sua formação e na educação dos filhos.

Tiveram oportunidades com as quais seus pais nunca sonharam - e, agora, com a desaceleração econômica, perderam seu ganha pão e têm de refazer seus planos.

Confira abaixo a história de algumas delas:

'Se alguém ganhou com a Copa não foi na periferia'

Anderson de Souza teve uma infância "feliz, mas difícil" em São Paulo. "Às vezes, comíamos farinha com açúcar porque não havia mais nada em casa", diz.

Quando jovem, trabalhou como motoboy na capital paulista, mas foi na Bahia, terra de seus pais, que ele prosperou com um negócio de distribuição de bebidas – chegando a ter 10 funcionários.

"Sempre quis dar a meus filhos o que não tive", diz ele. "Nos últimos anos, coloquei eles em uma escola particular, comprei três televisores, para não dar briga em casa, computador, TV cabo e internet."

"Consegui melhorar muito a vida da minha família porque meu negócio prosperou. A demanda só crescia. Há pouco mais de um ano, porém, isso começou a mudar."

A queda drástica das vendas, combinada com dois assaltos, levaram o comerciante a fechar a distribuidora. Ele também se endividou para tentar salvar seu negócio – e sua situação financeira se complicou ainda mais.

"A Copa foi uma grande decepção: achava que ia salvar minhas vendas, mas se alguém ganhou dinheiro com os jogos, não foi aqui na periferia", diz ele.

"Agora estamos tentando encontrar uma maneira de pagar as contas e dívidas. Já fiz uma entrevista em uma empresa, mas em geral buscam gente mais nova. Talvez deva tentar a sorte em outro negócio."

'O que mais me preocupa é ficar sem seguro-saúde'

Demitido em dezembro após seis anos e meio em uma empresa do setor aeronáutico, Anderson Rodrigues, de São José dos Campos, também teve uma carreira promissora até sua empresa começar a cortar gastos para se adaptar à "nova realidade econômica".

Ilustrador técnico especializado em certificação aeronáutica, Anderson viu seu salário dobrar no boom econômico da década passada. Fez diversos cursos de especialização, comprou carro e pagou pela educação dos filhos.

"Agora, o que mais me preocupa é a falta de seguro saúde, porque tenho diabete e estava fazendo um tratamento com um médico particular", diz ele.

"Além disso, há alguns anos, meu filho foi contaminado por uma superbactéria e, não fosse a rapidez com que foi atendido e diagnosticado em um hospital privado, provavelmente estaria morto hoje."

Anderson diz que está fazendo um curso superior de gestão de produção industrial e estudando inglês para aumentar suas chances de conseguir um novo emprego.

"Mas a situação está desanimadora na minha região: as montadoras locais estão demitindo e o setor aeronáutico passa por dificuldades."

'Deixei de ser classe média'

Formada em jornalismo e administração e com um curso técnico em refrigeração, Ana Carolina Alves era gerente comercial de uma empresa em Osasco que passava por dificuldades econômicas.

"Fizemos um acordo e eles me desligaram da empresa. Eu achava que seria fácil encontrar um novo trabalho na área, mas já estou mandando currículos há 5 meses - e nada", diz ela.

A única de sete irmãos que levou os estudos adiante, Ana Carolina diz que, até agora, sentia que seus esforços de investir em sua formação haviam sido recompensados.

Na última empresa em que trabalhou, por exemplo, foi promovida a um cargo de supervisão.

"Nunca imaginei que pudesse chegar a essa situação. Nos últimos meses vendi o carro, parei de sonhar em comprar apartamento, cancelei os cartões de crédito, cortei os gastos de lazer e vamos ter de nos virar para pagar o aluguel, agora reajustado", diz ela.

"Deixei de ser classe média. Minha sorte é que minha mãe nos ajuda com a criação da nossa filha."

'Agora tenho de morar com um amigo'

Eurivan Sales trabalhava no complexo petroquímico do Comperj, polêmica obra da Petrobras em Itaboraí, no Rio de Janeiro. Hoje, é um dos 2.500 funcionários da empresa Alumini Engenharia sem salário há três meses. Outros 469 já foram demitidos, mas receberam apenas parte de suas verbas rescisórias.

Eurivan e seus colegas brigam na Justiça para receber seus vencimentos – mas há um jogo de empurra entre Alumni e Petrobras sobre quem deve fazer o desembolso. Nesta semana, eles estão acampando em Brasília para pedir a resolução do caso.

Mecânico montador, Eurivan diz que pretende voltar para sua cidade, no Pará, quando resolver sua situação.

"Por enquanto, meu caso é pior que o de um desempregado. Logo vou ter de procurar outro trabalho - talvez de caminhoneiro. Em Itaboraí a situação é desoladora por causa dessa crise na Petrobras", diz ele.

"Há muito desemprego, os comércios não vendem e alguns estão fechando. As perspectivas de conseguir trabalho por lá são nulas", conta.

Eurivan diz que desde o ano passado "sua vida virou de cabeça para baixo".

"Estou morado na casa de um amigo, porque não tinha como pagar o aluguel. E não vou poder mais ajudar a financiar os estudos de minha filha mais nova - ela estava fazendo cursinho para entrar na faculdade, além de curso de inglês", conta.

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