Diálogo entre as religiões. A “Dominus Iesus” de novo sob acusação

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14 Janeiro 2015

As acusações partem da publicação póstuma de dois textos do teólogo Jacques Dupuis. E procura atacar os autores desse documento: Joseph Ratzinger e João Paulo II. Mas, o Papa emérito responde golpe após golpe.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada pelo Chiesa.it, 12-01-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Após o terrível massacre de Paris, o Papa inicia hoje sua viagem a Sri Lanka com a intenção declarada de “promover e consolidar” o diálogo entre as religiões, conhecendo bem as dificuldades de convivência, nesse país, entre a maioria budista e as minorias hinduísta, islâmica e Cristã.

Por uma estranha coincidência, a discussão teológica sobre a relação entre as religiões registrou precisamente em princípios deste ano uma repentina polêmica, causada principalmente por um livro e uma recensão ao mesmo.

O livro é a publicação póstuma de dois textos do teólogo Jacques Dupuis, primeiro nos Estados Unidos e logo na Itália, no décimo aniversário de sua morte, com títulos muito eloqüentes:

Enquanto a recensão do livro apareceu aos 4 de janeiro no suplemento literário do “Corriere della Sera”, obra do professor Alberto Melloni, diretor dessa “escola de Bolonha”, célebre por ter publicado em distintos idiomas e em cinco volumes a história do Concílio Vaticano II mais lida no mundo.

Melloni parte do processo que se moveu contra Dupuis entre 1998 e 2000 por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida nessa época pelo cardeal Joseph Ratzinger, para atacar de maneira frontal não só Ratzinger e seu direto superior João Paulo II, senão, sobretudo a declaração “Dominus Iesus” sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja, publicada pela congregação no verão do ano 2000.

O historiador bolonhês liquida a ”Dominus Iesus” como “o documento mais frágil do pontificado woytiliano”, a considera como “não reconhecida pelos teólogos católicos” e atribui sua redação – de modo igual à notificação que se fez subscrever nessa ocasião a Dupuis – à “incompetência” de uns não necessários “colaboradores da congregação”, que Ratzinger “nos colóquios diretos mostrava não apreciar nem conhecer”, a que João Paulo II “não reagiu”, apesar de que a “manobra” tinha como “objetivo” – sempre segundo Melloni – precisamente “o papado de Wojtyla e sua peculiar fidelidade ao Vaticano II, a oração de Assis por um lado e o ‘mea culpa’ do Jubileu, sua atitude ecumênica, suas teses sobre o Deus do Corão e sobre a eternidade da aliança com Israel”.

Efetivamente, ao ler os dois escritos que Dupuis não pôde publicar nessa época – um sobre a “Dominus Iesus” e o outro sobre a notificação da congregação para a doutrina da fé como conclusão do processo contra seu livro de 1997 “Para uma teologia cristã do pluralismo religioso”-, as críticas contra ambos os documentos são numerosas e incisivas.

Mas, entre as objeções de Dupuis e a ampla ofensiva de Melloni há um abismo.

Enquanto isso resulta infundada a tese de que a “Dominus Iesus” tenha sido universalmente rechaçada “pelos teólogos católicos”. Como se sabe, há teólogos muito válidos entre os cardeais. Um destes é o cardeal Walter Kasper que, efetivamente, nessa época expôs suas críticas contra o documento.

Mas, também o cardeal Giacomo Biffi é um grande teólogo: ele, em troca, expressou juízos altamente positivos sobre a “Dominus Iesus”.

Basta reler, a este propósito, o que ele disse em 2005 aos cardeais reunidos no conclave que poucos dias depois elegeria Bento XVI:

“Quisera dizer ao futuro Papa que preste atenção a todos os problemas. Mas primeiro e mais ainda que se dê conta do estado de confusão, de desorientação, de descarrilamento que aflige nestes anos o povo de Deus, e, sobretudo, que aflige os ‘pequenos’.

“Faz uns dias escutei na televisão uma religiosa anciã e devota que respondia assim ao entrevistador: ‘Este Papa, que morreu, tem sido grande principalmente porque nos ensinou que todas as religiões são iguais’. Não sei se a João Paulo II teria agradado muito um elogio como esse.”

“Quisera assinalar ao novo Papa o caso da ‘Dominus Iesus’: um documento explicitamente de acordo e aprovado por João Paulo II; um documento pelo qual me agrada expressar ao cardeal Ratzinger minha vibrante gratidão.”

“Que Jesus é o único necessário Salvador de todos é uma verdade que em vinte séculos – a partir do discurso de Pedro depois de Pentecostes – não se havia escutado a necessidade de reclamar jamais. Esta verdade é, por assim dizer, o grau mínimo da fé; é a certeza primordial, é entre os fiéis o dado mais simples e mais essencial. Em dois mil anos jamais foi posta em dúvida, nem sequer durante a crise ariana e nem sequer por ocasião do descarrilamento da Reforma protestante. O ter precisado recordá-la em nossos dias nos dá a medida da gravidade da situação hodierna.

“Sem embargo, este documento que reclama a certeza primordial, mais simples e mais essencial, tem sido contestado. Tem sido contestado em todos os níveis: em todos os níveis da ação pastoral, do ensinamento teológico, da hierarquia. Contaram-me que um bom católico propôs a seu pároco fazer uma apresentação da ‘Dominus Iesus’ à comunidade paroquial. O pároco (um sacerdote em geral excelente e bem intencionado) lhe respondeu: ‘Esquecido. Esse é um documento que divide’. ’Um documento que divide’. Grande descoberta! Jesus mesmo disse: ‘Eu vim trazer a divisão’ (Lc 12, 51). Mas, demasiadas palavras de Jesus resultam hoje censuradas pela cristandade; ao menos pela cristandade em suas partes mais loquazes”. 

Mas como mentis à pusilanimidade e indolência de Ratzinger e de João Paulo II, os quais, segundo Melloni, toleraram, mais do que desejaram a redação e a publicação da “Dominus Iesus”, deixando fazê-la a quem sabe quem, é inequívoco o que escreveu, faz um ano, o Papa emérito num livro sobre o Papa Wojtyla:

“Entre os documentos sobre os diversos aspectos do ecumenismo, o que suscitou as maiores reações foi a declaração ‘Dominus Iesus’, de 2000, que resume os elementos irrenunciáveis da fé católica. [...]

“Ante o torvelinho que se havia criado em torno da ‘Dominus Iesus’, João Paulo II me disse que no Ângelus tinha a intenção de defender inequivocamente o documento. Convidou-me a escrever para o Ângelus um texto que fosse irrefutável e que não permitisse uma interpretação diversa. Tinha que emergir de maneira de todo inquestionável o fato de que ele aprovava o documento incondicionalmente.

“Preparei, por isso, um breve discurso; não queria, sem embargo, ser demasiado brusco, razão pela qual tentei expressar-me com clareza, mas sem dureza. Depois de lê-lo, o Papa me perguntou novamente: ‘Realmente é suficientemente claro?’ Respondi que sim.
“Quem conhece os teólogos não se assombrará com o fato de que, apesar de tudo, houve pessoas que frequentemente sustentaram que o Papa havia prudentemente tomado distância deste texto.

Por último, sobre a questão das relações inter-religiosas, é preciso ter presente o risco contra o qual o Papa emérito pôs em guarda, no passado mês de outubro, numa mensagem à Pontifícia Universidade Urbaniana. Um risco de que um diálogo mal conduzido seja “letal para a fé”.

A Urbaniana é a universidade missionária por excelência, ligada à Congregação para a Evangelização dos Povos. O Papa emérito inspirou-se precisamente nisto para reagir contra as dúvidas que ameaçam hoje a idéia da missão “ad gentes”, a qual muitos gostariam de substituir por um diálogo de iguais para iguais entre as religiões, em vista de “uma força comum de paz”.

Mas, ao fazer isto – escreve Ratzinger – se deixa de lado “a verdade que na origem moveu os cristãos” a pregarem o Evangelho até os confins da terra:

“Supõe-se que a autêntica verdade sobre Deus é, em última instância, inalcançável e que no máximo se pode tornar presente o que é inefável somente com uma variedade de símbolos. Esta renúncia à verdade parece ser realista e útil à paz entre as religiões do mundo. Mas, isto é letal para a fé. Com efeito, a fé perde o seu caráter vinculante e sua seriedade, se tudo se reduz, no fundo, a símbolos intercambiáveis, capaz de se referirem somente de longe ao mistério inacessível do divino”.

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