A minoria no Sínodo. Um comentário

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31 Outubro 2014

"Não deveremos, porém, deixar passar a afirmação impressionante do autor de que esta provável 'pequena minoria' vem sendo aqueles 'que mais têm se esforçado para manter viva a Igreja'", escreve Peter Steinfels, em artigo publicado pelo Commonweal, 28-10-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Apesar da minha crítica ao livro sobre a história recente da religião americana escrito por Ross Douthat, espero ansiosamente por sua coluna na edição de domingo do jornal The New York Times. [1] Mesmo quando em grande parte errados, os seus textos quase sempre são utilmente (e divertidamente) contrários à visão de mundo predominante do jornal. Comparado ao retrato do Sínodo visto alhures no mesmo periódico, por exemplo, a análise de Douthat do último domingo foi, com certeza, contrária. E, certamente, não está menos errada em grande parte também.

Vejamos o argumento de Douthat antes de eu apresentar minha crítica.

1) O Papa Francisco “repetidas vezes assinalou um desejo de repensar questões em que o ensinamento católico está em clara tensão com a vida social ocidental – sexo e matrimônio, divórcio e homossexualidade”.

2) Partindo dos esforços de busca do consenso presente no Vaticano II, o papa usou homens escolhidos a mão para promover “um documento que sugeriu tanto uma mudança geral na atitude da Igreja para com as relações não matrimoniais quanto uma mudança específica, admitindo os divorciados e recasados à Comunhão, o que entra em conflito claro com o ensinamento histórico da Igreja sobre a indissolubilidade do casamento”.

3) Embora tantos os conservadores quanto os progressistas venham minimizando a “aridez” desta realidade, “o Sínodo precisa ser interpretado como uma repreensão da posição papal implicada”. “No final, as passagens polêmicas do documento foram substancialmente retrocedidas”, visto que “muitos” participantes acreditavam que os passos aprovados pelo papa eram impensáveis em vista do que “a Igreja sempre ensinou”.

4) Esta riposta conservadora “tem o melhor do argumento”. Embora a Igreja possa moderar uma atitude excessivamente severa para com os homossexuais, qualquer “celebração” de “relacionamentos não matrimoniais em geral, como o documento sinodal pareceu querer”, era insustentável; e permitir a Comunhão para fiéis casados pela segunda vez “não é absolutamente passível de debate”. Afinal de contas, a Igreja estava disposta a perder toda a sua cristandade de língua inglesa por causa do princípio segundo o qual “um segundo casamento é adúltero” e, à luz das próprias palavras de Jesus, alterar este ensinamento “não seria um desenvolvimento”, mas “uma contradição e uma reversão”.

5) Os católicos progressistas e a imprensa secular podemsaudar uma tal mudança. Porém ela colocaria os bispos e teólogos numa posição insustentável; semearia confusão, dúvida, deserções e apocalipicismo maluco entre os “adeptos ortodoxos”; e até mesmo correria o risco de um “verdadeiro cisma”.

6) Estes “adeptos ortodoxos” podem ser uma minoria, “até mesmo uma pequena minoria”, entre os católicos no Ocidente, mas são as pessoas que mais têm se esforçado para manter viva a Igreja”; e eles “não merecem uma traição teológica”.

7) Portanto o papa deveria “recuar” e encontrar “formas de modelar a Igreja sem colocar a doutrina em dúvida”, e explorar vias para trazer as pessoas de volta aos sacramentos “sem uma crise”.

8) No entanto, se Francisco parece estar rearranjando as coisas em busca de uma “mudança radical”, os católicos conservadores precisam ficar “de olhos atentos” e considerar a possibilidade de que o “papa possa ser preservado de um erro somente se a própria Igreja resistir-lhe”.

Eis aqui a minha resposta:

Não vejo problema algum com a preocupação de Douthat com o desânimo de seus “adeptos ortodoxos” (falo mais sobre estes abaixo). Mas, primeiramente, consideremos o quadro geral de sua análise. Ela é construída em torno do exercício da autoridade papal do Papa Francisco, por um lado, e, por outro, em torno do ensinamento da Igreja que “não é passível de debate” independentemente da “clara tensão com a vida social ocidental”. Não há indício algum de que este chamado a “repensar” possa ter vindo de muitas outras fontes que não o papa, incluindo bispos, teólogos e os fiéis nos bancos das Igrejas. Não há indício algum que, por detrás destes apelos, sentiram-se tensões não só na cultura ocidental, mas também com relação ao Evangelho e à obrigação da Igreja em testemunhar o chamado de Jesus, um chamado de amor e misericórdia.

Assim, desde o início esta análise reflete o tropo favorito dos conservadores: fidelidade doutrinal versus acomodação social. O Papa Francisco e os seus nomeados se juntaram, agora, às fileiras dos acomodadores.

(Aliás, “sexo e matrimônio, divórcio e homossexualidade” dificilmente são as principais áreas em que o Papa Francisco tenha enfatizado as tensões entre os ensinamentos da Igreja e as normas ocidentais; e, em geral, ele tem incomodado os conservadores por sua falta de acomodação.)
O contraste de Douthat entre a dinâmica de construção do consenso do Vaticano II e as “falhas” desnudadas no Sínodo subestima os conflitos do Vaticano II. E mais, o contraste ignora a diferença entre um encontro de duas semanas e um encontro de vários meses realizados ao longo do curso de quatro anos.

Ao mesmo tempo, pergunto: O fato de que o relatório intermédio do Sínodo tenha “retrocedido” foi uma “repreensão” franca à posição “implicada” do papa? Ou teria sido uma parte razoável da construção do consenso?

Habilmente, Douthat evita especificar sobre quanto do documento final, ainda não disponível em tradução oficial inglesa, “atenuou” a versão anterior. Ele se refere a um “grande número” e “muitos” votos negativos, mas, de novo, evita citar números reais. Os eleitores mostraram um apoio de dois terços para todos os parágrafos, exceto aqueles sobre os relacionamentos homoafetivos e a Comunhão para pessoas divorciadas e recasadas – mesmo assim, uma maioria apoiou estas seções.

Independentemente do que se pense sobre o documento inicial ou o revisado – e eu tenho as minhas próprias reservas aqui –, o fato de não se alcançar um acordo completo nas duas semanas dificilmente constitui um confronto com a autoridade papal.

Douthat está igualmente errado em sua certeza não qualificada de que este suposto confronto envolveu um movimento papal em direção a abandonar um ensinamento católico que “não é passível de debate”. A força do autor é o seu faro para as premissas não examinadas da cultura progressista. Quando se trata do pensamento católico e da tradição, a evidência disponível sugere que ele pensa dentro de uma bolha católica neoconservadora e que quer se desfazer ou continuar inconsciente de qualquer coisa fora dela.

Será que é possível que o problema posto pelo casamento dinástico entre Henrique VIII e Catarina de Aragão, princesa espanhola e tia do imperador Carlos V, cujas forças imperiais há pouco tinham saqueado Roma e prendido o papa, não determine, por completo, os casos contemporâneos dos matrimônios fracassados e dos matrimônios duradouros?

Será que ele poderá reconhecer que a tradição ortodoxa cristã oriental, cujos sacramentos e o clero Roma aceita como válidos, não está menos ciente das palavras de Jesus sobre o adultério, mesmo assim chegando a conclusões diferentes quanto ao matrimônio e à admissão à Comunhão? Será que ele está ciente da história complicada da Igreja primitiva em torno da questão da admissão e readmissão à Comunhão?

Questões sobre o divórcio, o casamento e a recepção da Comunhão não serão resolvidas facilmente, muito menos por mim. Mas as afirmações de Douthat, de que o assunto “não é passível de debate”, não têm fundamento. Da mesma forma com a sua afirmação de que aceitar um segundo casamento adúltero seria, necessariamente, uma reversão em vez de um desenvolvimento dos ensinamentos da Igreja.

Deveríamos partilhar da preocupação de Douthat pelo efeito desorientador de que toda mudança substancial terá sobre os “adeptos ortodoxos”? Absolutamente não, mesmo se rejeitarmos a propriação de autoengrandecimento do termo “ortodoxo”.

Não deveremos, porém, deixar passar a afirmação impressionante do autor de que esta provável “pequena minoria” vem sendo aqueles “que mais têm se esforçado para manter viva a Igreja”. Como ele sabe disso? Em minha experiência, os bancos das igrejas estão cheios, as catequeses e as sessões ritualísticas de iniciação cristã dos adultos estão sendo feitas, as escolas estão sendo administradas, as organizações paroquiais e diocesanas de caridade estão trabalhando, os financiamentos estão sendo concedidos e a liturgia está sendo celebrada por um grande número daqueles que não se alinham com os liberais ou seculares nefastos de Douthat, mas que acolheriam, em vez de recuarem, as mudanças nas atitudes e práticas que ele, Douthat, descreve como “traição”. Ele poderá até mesmo ficar surpreso ao encontrar uma boa porcentagem de uma “minoria ortodoxa” imaginada entre estes. Mas eu não sei realmente aqui. Sei somente que deveríamos ser modestos ao declarar quem “mais se esforça” para manter vivo o catolicismo.

A unidade é um dom precioso da Igreja. Assim como Douthat, espero que o Papa Francisco – e todos nós – encontre formas de aprofundá-la enquanto se dedica a uma missão que sempre foi objeto de diferentes interpretações e que avançou sob formas contrastantes. Esta responsabilidade não é menor naqueles que se consideram os defensores da constância doutrinal do que naqueles que sustentam um desenvolvimento legítimo. Se “colocar a doutrina em dúvida” pode precipitar uma “crise”, rotular preventiva ou prematuramente propostas razoáveis como “colocar a doutrina em dúvida” também o pode.

Não tenho certeza do que Douthat está sugerindo em seu parágrafo final. Se o seu texto fala simplesmente que o papa pode cometer erros e que a Igreja toda deveria mobilizar o seu pensamento e as suas orações para evitá-los – ou corrigi-los –, estou em completo acordo. É claro que os católicos conservadores têm um “papel a desempenhar”, tal como ele escreve. Mas será que este papel deveria incluir ameaças sutis de cisma? Espero que não seja isso o que Douthat esteja propondo em sua evocação final de uma Igreja que “resista” ao papa.

Nota 1: Trata-se do livro “Bad Religion: How We Became a Nation of Heretics” (Free Press, 2012). Crítica disponível em inglês aqui.

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