Bispo do Paraguai é destituído pelo Papa Francisco

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26 Setembro 2014

Na manhã desta quinta-feira (25-09-2014), a Sala de Imprensa da Santa Sé anunciou que o Papa Francisco destituiu Rogelio Ricardo Livieres Plano, que vinha sendo bispo da Diocese da Cidade do Leste, no Paraguai.

Em geral, os anúncios deste tipo dizem que o papa aceitou a renúncia de um bispo. Não neste caso. A Santa Sé abertamente informa que Livieres foi substituído. Segundo a nota divulgada, a decisão foi tomada “pelo bem maior da unidade” da Igreja local e da comunhão episcopal. Porém, a ação acontece depois de uma investigação feita em julho na diocese em consequência das queixas de leigos e do clero locais, incluindo um arcebispo, sobre o estilo de governança de Dom Livieres e de sua decisão em trazer para a diocese e, em seguida, promover a vigário geral um padre argentino que, por repetidas vezes, foi acusado de conduta sexual imprópria – acusações que remontam ao final da década de 1980. (O anúncio da Santa Sé nada diz sobre o padre acusado).

A reportagem é de Grant Gallicho, publicada por Commonweal, 25-09-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Após uma investigação inicial, mas antes de o papa ter estudado o relatório dos investigadores, o Vaticano anunciou que o sacerdote acusado – o Pe. Carlos Urrutigoity – havia sido destituído de seu posto como vigário geral. A Santa Sé também decidiu proibir Dom Livieres de ordenar padres.

Em resposta, Livieres escreveu um longo texto em sua defesa, publicando-o no site da diocese. Nele – que em si é uma novidade, pois em geral os bispos não refutam publicamente o Vaticano –, o religioso afirma que Urrutigoity fora acusado erroneamente, que os dois (o padre e o bispo) são vítimas de uma campanha difamatória e que Livieres convidou Urrutigoity para a diocese sob recomendação do então cardeal Joseph Ratzinger (hoje papa emérito). O texto repreendeu o arcebispo de Asunción por “atacar” Urrutigoity, chegando dizer que o próprio arcebispo fora acusado e “processado” por se envolver em “atividades homossexuais”.

Então, o que isso significa? Primeiro, se você for um bispo que não vem lidando com casos de padres acusados, que bom. Nos Estados Unidos, Dom Robert Finn, da Diocese de Kansas City-St. Joseph, foi condenado por não relatar às autoridades civis um padre suspeito de abuso infantil. O caso custou à sua diocese milhões de dólares. Muitos dos paroquianos não confiam mais nele. No entanto, nada aconteceu com ele. Finn continua em seu posto, apesar dos pedidos insistentes para que renuncie.

Na Arquidiocese de St. Paul e Minneapolis, Dom John Nienstedt esteve sob intenso escrutínio por quase um ano após a Rádio Pública de Minnesota informar que a arquidiocese vinha lidando de forma muito precária com os casos de suspeita de abusos. Nienstedt contratou um leigo para supervisionar as respostas da arquidiocese às acusações de abusos clericais e afirma que aprendeu com os erros do passado. Mesmo assim, a Igreja local está magoada.

A arquidiocese não me ajudou quanto relatei que o próprio Nienstedt estava sendo investigado sob acusações de má conduta sexual envolvendo adultos (acusações que o arcebispo nega firmemente). A empresa externa contratada pela arquidiocese para estudar estas acusações submeteu os seus resultados à chancelaria. Porém a arquidiocese diz que a investigação completa não foi feita ainda. Quando esta for finalizada, a chancelaria diz que enviará o relatório ao núncio papal em Washington, D.C. E isso já aconteceu? A arquidiocese não respondeu ao meu pedido para comentar o caso. Será que ela irá divulgar o relatório completo?

Não parece, realmente, que o Papa Francisco esteja bem informado sobre o que vem acontecendo na cidade do Kansas e em St. Joseph. Ele enviou investigadores à Cidade do Leste. Isso não foi feito aqui nos EUA ainda (a menos que você seja membro da Conferência de Liderança das Religiosas – LCWR, organização americana que vem sendo perseguida pelo Vaticano). Este é um papa que acredita em processo (afinal de contas, é um jesuíta). Lembremos: ele não destituiu o assim chamado Bispo do Bling até que a conferência episcopal local conduzisse a sua própria investigação. O destino de Dom Livieres já estava selado antes de o Vaticano investigar o caso em julho? Possivelmente. Mas Francisco escolheu enviar investigadores em vez de decidir sem ter, antes, uma imagem mais completa da situação local.

Algo que também está pouco claro: por que razão a nota da Santa Sé não mencionou a lei canônica na qual a decisão se baseou. Em geral, quando bispos são destituídos/removidos por comportamento inadequado, o Vaticano cita um cânone (1389,2, que diz que os padres que abusarem em seus postos podem ser destituídos). Isso dá uma ideia do que possa ter acontecido de errado. Mas, neste caso, a Santa Sé se referiu vagamente à unidade da Igreja local – e dos bispos locais. Ela não mencionou nada sobre o escândalo que Livieres promoveu ao trazer junto de si o Pe. Urrutigoity. Não que os comunicados do Vaticano devessem informar tudo sobre as tomadas de decisão dos papas. Mas, pelo menos, quando se tratar de padres acusados, ela bem poderia repensar esta prática.

É claro que o papa tem a autoridade para destituir um bispo – basta ler o cânon 1405 para saber disso. Talvez o status de Dom Livieres como membro da Opus Dei tenha algo a dizer sobre esta curiosa omissão. Enquanto prelazia pessoal (ou seja, uma prelazia pessoal do papa), a Opus Dei é governada por seus próprios estatutos e encontra-se sob a jurisdição da Santa Sé e da Congregação para os Bispos. Ou talvez Roma esteja apenas improvisando.

Em todo caso, é uma boa notícia – a menos que você seja um bispo que deu (ou que está dando) condições a padres abusadores.

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