Para o economista Gaël Giraud, "a política de austeridade equivoca-se no diagnóstico"

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Por: André | 19 Setembro 2014

De acordo com o economista jesuíta Gaël Giraud (foto), a política de austeridade fiscal agrava a espiral de deflação. Para o autor de Ilusão Financeira, ela serve, em primeiro lugar, para os bancos se desendividarem. O Estado deveria comprometer-se urgentemente com a transição energética.

 
Fonte: http://bit.ly/1mfxid0  

A entrevista é de Henrik Lindell e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 03-09-2014. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Qual é a sua opinião sobre a política de austeridade do governo Valls II?

Eu não quero fazer um julgamento das intenções do governo, uma vez que acaba de se instalar. Gostaria apenas de dizer que a política de austeridade defendida pela Europa e pela Alemanha equivoca-se no diagnóstico. Muitas vezes, explicam-nos que a causa da crise atual – do desemprego, da falta de crescimento, etc. – está no excesso de endividamento público dos Estados. Qual é a prova desta afirmação? Na realidade, a causa da atual crise econômica é a deflação, na qual toda a Europa está caindo. Esta deflação vem do excesso de endividamento privado, não público. Gostaria de lembrar que o endividamento dos Estados está perto de 90% do PIB, em média, na zona do euro, próximo daquele das empresas não financeiras. O endividamento dos bancos é de aproximadamente 350%! O fenômeno da deflação é clássico, porque já pudemos observá-lo na década de 1930 nos Estados Unidos e depois no Japão, em meados da década de 1990. Por outro lado, o Japão ainda não saiu da armadilha deflacionária.

Por que, no fundo, a deflação é tão perigosa?

Se todo o mundo está tentando se desendividar ao mesmo tempo – com a venda de seus ativos – isso provoca a queda dos preços e entramos, assim, em uma espiral deflacionária. Esta queda dos preços pode ser mais rápida do que a velocidade com que as dívidas diminuem, de modo que, paradoxalmente, o peso real da dívida aumenta! Com outras palavras, quanto mais se tentar sair da dívida simultaneamente, mais a dívida aumenta. É preciso, portanto, que todo o mundo se desendivide não simultaneamente, mas um após o outro.

O que me parece fundamental neste contexto é, evidentemente, que o setor bancário se desendivide primeiro. Porque enquanto este setor estiver sufocado pela sua própria dívida, não poderá mais fazer empréstimos bancários para a economia real. O que provoca a interrupção dos investimentos e a impossibilidade de recuperação. Por outro lado, as despesas públicas alimentam os estabilizadores que abrandam o colapso da economia. Elas devem, portanto, ser cortadas por último.

Você é favorável a um Estado intervencionista. Em que área deveria se comprometer mais?

O Estado deve intervir para favorecer, financiar e encorajar a transição energética. Por que isso é importante? Entre outros motivos porque é a energia que impulsiona a maior parte do crescimento. Você sabe que pelo menos metade do crescimento durante os Trinta Gloriosos provinha simplesmente do aumento do consumo de energia? Uma vez que entendemos a importância da energia, temos que saber de onde ela vem na Europa: em grande parte do exterior, através das nossas importações de petróleo (70 bilhões de euros por ano, no caso da França). Nós dependemos muito do petróleo importado. Nestas condições, e na medida em que o petróleo polui muito e será cada vez mais restrito em volume, nós temos todo o interesse em reduzir essa dependência. Claro, não devemos substituí-lo pelo carvão, porque seria catastrófico para o meio ambiente, mas, por exemplo, por gás, o que já é um pouco melhor em termos de CO2. Para reduzir a nossa dependência do petróleo, temos, pelo menos, mais 30 anos.

Isso é mais do que um plano de crescimento, é uma escolha da sociedade...

Sim. No ano passado, eu participei do comitê de peritos do Conselho Nacional do Debate sobre a Transição Energética (CNDTE) do governo. Cerca de 10 cenários de transição energética para a França foram elaborados por cinquenta outros especialistas. Devemos implementar um verdadeiro debate democrático sobre esses cenários. Esta é,d e fato, uma escolha de sociedade. Que lugar vamos conceder à energia nuclear ou ao gás de xisto, por exemplo? Temos que discutir. Na sequência, será o Estado que vai encontrar os meios correspondentes e ajudar no seu financiamento, sabendo que esses investimentos serão pouco rentáveis no curto prazo. Mas, se estamos persuadidos de que a prioridade deve ser o desendividamento do Estado a qualquer preço, temos poucas chances de sair disso.

Na sua opinião, o Estado ainda pode se endividar?

Eu não estou dizendo que a restrição do orçamento público não existe. Mas se tivermos um verdadeiro projeto econômico, pode valer a pena aumentar a dívida pública. Atualmente, ela é de 92% do PIB na França, um número que podemos comparar com a dívida japonesa que chega a 250% do PIB. A tentativa de se desendividar a qualquer preço poderá provocar a queda do PIB e... aumentar a relação entre dívida pública/PIB.

Dito isto, eu elaborei no CNDTE propostas de financiamento que permitiriam garantir a transição energética sem aumentar a dívida pública. O Estado francês poderia muito bem dar sua garantia pública para determinados empréstimos bancários para investimentos de longo prazo, tanto em infra-estrutura como na retomada da construção civil. É como se o Estado financiasse, mas, na realidade, não seria ele. Estas garantias são fora do balanço, e não têm impacto sobre a dívida pública.

Nos últimos anos, não há uma retomada do crescimento ou permanece num nível muito baixo. É possível fazer isso sem crescimento?

Primeiro ponto: eu não vejo como no modelo atual se poderia voltar a crescer nos próximos 20 anos. Tendo presente que pelo menos metade do crescimento decorre do consumo de energia e que certamente não chegaremos a aumentar aquele consumo com a parte atual de petróleo na nossa matriz energética, é simplesmente impossível. Além disso, a deflação mata qualquer oportunidade de crescimento.

Segundo ponto: a falta de crescimento do PIB é grave? Eu não tenho certeza. O PIB é um indicador pobre. Nós devemos nos desintoxicar desta ideia de que o crescimento do PIB é a chave da felicidade. O debate não é: sou a favor ou contra o crescimento do PIB? Devemos trocar os indicadores. Poderíamos, por exemplo, usar a série de indicadores alternativos analisados por Florence Jany-Catrice e Jean Gadrey.

Em terceiro lugar, se realizarmos a transição energética, que é um programa que vai nos ocupar durante mais de meio século, criaremos uma série de atividades, portanto, empregos. Aumentaremos o PIB? Isso não é de primordial importância. O único que está reclamando é o Estado, cuja base fiscal repousa em grande parte sobre o PIB. Mas, em todo o caso, também precisamos reformar profundamente o nosso sistema fiscal, especialmente no sentido preconizado por Piketty.

Uma nova Comissão Europeia está em formação. No plano econômico, o que ela deverá fazer em primeiro lugar?

Há duas urgências, na minha visão de ver as coisas. A primeira é a regulação financeira. Desde a crise de 2007-2009, tivemos muito pouco progresso nesta área. A União Bancária ainda está num estágio embrionário e, do meu ponto de vista, deixa muito a desejar. O setor bancário europeu é muito frágil, está perto de uma potencial falência, que pode ocorrer a qualquer momento. Uma enorme espada de Dâmocles pesa sobre a nossa Europa!

Além disso, os preços das ações globais ultrapassaram os seus níveis anteriores à crise de 2007. Nós temos, portanto, uma nova bolha financeira, gigantesca, que é alimentada pela liquidez injetada pelos bancos centrais destinada aos bancos. Atualmente, nos mercados financeiros, não há praticamente nenhum prêmio de risco. Este é o sinal de que a bolha não vai durar muito tempo: os investidores se endividam para comprar ativos financeiros, e que não poderão pagar suas dívidas porque a economia real, paralisada pela deflação, não pode manter a calma artificial das finanças. Estamos novamente diante de uma situação comparável àquela de 2004-2005. Diante dos riscos, penso que devemos impor a diretriz Barnier sobre a separação dos bancos. Isso poderia ser feito em três meses. A lei de separação francesa é uma hipocrisia, pois não separa nada. [A diretriz Barnier, que será discutida a partir de novembro, tem como objetivo proibir os bancos de especular por conta própria sobre mercadorias e produtos financeiros – ações, títulos, etc. – que trocamos nos mercados. Além disso, a diretriz dá às autoridades de controle a possibilidade de confinar numa filial as demais atividades de mercado de alto risco, ndr.]

A segunda urgência é a transição energética. Isto deveria ser um projeto europeu financiado pelo Banco Central Europeu e pelo Banco Europeu de Investimento. Isso restauraria um verdadeiro projeto político para a nossa querida Europa.

Para isso, eu gostaria de acrescentar a necessidade de reformar, no longo prazo, as instituições europeias, que sofrem um grande déficit democrático. A Comissão Europeia, em particular, não tem nenhuma legitimidade democrática.

O tipo de política de Manuel Valls é liberal, blairista, social-liberal, social-democrata, socialista? Que termo empregar?

Eu não quero fazer um pré-julgamento do governo Valls II, que está apenas começando o seu trabalho. Quanto a Valls 1, vimos a aplicação de uma política inspirada na convicção de que a prosperidade vem da financeirização da sociedade. Os defensores desta política não acreditam mais na indústria, mas nas finanças. Eles têm uma política de oferta, ao passo que não entenderam que é preciso ao mesmo tempo a oferta e a procura (para sair da deflação, mais uma vez). Financeirização, desprezo da indústria, política exclusiva de oferta, são três sinais de uma política neoliberal. Mesmo a direita europeia na década de 1950 nunca teria feito isso. Este é o sinal de que uma determinada social-democracia da Europa Ocidental não tem mais um projeto econômico. Como ela não sabe o que propor, acabou esposando as teses de um neoliberalismo que vem da direita, mas que é compartilhado hoje por uma parte da direita (não gaullista) e uma parte da esquerda (digamos strauss-kahniana). Qual é a diferença entre os programas econômicos de François Hollande/Manuel Valls e aquele de Nicolas Sarkozy?

Arnaud Montebourg, que queria salvar a indústria, tinha um plano alternativo?

Sim, há um verdadeiro projeto alternativo! O mesmo vale para os partidos Europe Écologie les Verts e o Nouvelle Donne. Montebourg quer, de fato, reindustrializar a economia francesa. Para isso, ele precisa controlar as finanças. O Europe Écologie les Verts e o Nouvelle Donne são favoráveis à transição energética. Os projetos alternativos, portanto, existem.

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Para o economista Gaël Giraud, "a política de austeridade equivoca-se no diagnóstico" - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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