A CNBB e o debate de 1994 entre os presidenciáveis. Algumas notas

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Por: Cesar Sanson | 16 Setembro 2014

“Vinte anos separam o primeiro debate organizado pela CNBB entre os presidenciáveis, 1994, e esse agora, de 2014. Em 1994, o protagonismo era dos leigos, assim como dos movimentos sociais no interior da Igreja. O debate de 1994 foi organizado pelas pastorais e movimentos sociais. A CNBB promoveu o debate, propiciando que outros atores sociais se manifestassem. Há duas décadas, o debate foi transmitido por uma TV não confessional, no caso, a Band. Em 1994, o debate abriu um espaço para a sociedade civil organizada e as suas demandas”.

O comentário é de Cesar Sanson, professor do Departamento de Ciências Sociais da UFRN, ex-coordenador nacional da Comissão Pastoral Operária e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Cesar Sanson participou ativamente de toda a organização do debate que se realizou dentro da programação da 2ª Semana Social Brasileira, em julho de 1994, cujo tema era 'Brasil: Alternativas e Protagonistas' e que foi popularizado com o lema: "O Brasil que queremos".

Eis o artigo.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promove nessa terça-feira, dia 16, um debate com os candidatos à Presidência da República em Aparecida, SP. O debate será transmitido pela TV Aparecida em conjunto com as outras tevês católicas como a Canção Nova e a Rede Vida. Em vídeo levado ao ar pela TV Aparecida para promover o debate, o encontro é tratado como "evento histórico".

Esse não é o primeiro debate organizado pela CNBB entre os presidenciáveis. Houve outro. O de 1994 no contexto da 2ª Semana Social Brasileira. Esse sim foi um debate histórico pela ousadia, contexto político, conteúdo, forma e metodologia. O debate à época foi transmitido por uma TV aberta, laica, não confessional – a TV Bandeirantes. Um debate conectado com os grandes temas em debate na sociedade brasileira e marcado por uma iniciativa inédita e única na história do Brasil: lideranças dos movimentos sociais puderam perguntar aos candidatos.

Em 1994, ano de eleições presidenciais, após o desastre do governo Collor e na transição do governo Itamar, o país vivia uma inquietante ebulição social. Particularmente, o movimento social, recém-saído do movimento pelo impeachment, sentia-se fortalecido em suas expectativas. Neste contexto, a Igreja do Brasil, numa atitude inovadora e ousada, propôs a 2ª Semana Social Brasileira - SSB. Essa Semana intitulada 'Brasil. Alternativas e protagonistas', acabou sendo conhecida muito mais a partir do seu tema 'O Brasil que temos e o Brasil que queremos'. A 2ª SSB foi uma aposta corajosa para se pensar novos caminhos para o país e teve desdobramentos posteriores importantes, como o surgimento do Movimento da Consulta Popular e o Grito dos Excluídos.

A Semana foi pensada, gestada e articulada pelo Setor Pastoral Social da CNBB, antiga Linha 6, cujo bispo responsável era D. Demetrio Valentini, bispo de Jales, SP, a partir de um grupo de lideranças das pastorais sociais coordenada à época pelo jesuíta Inácio Neutzling, hoje diretor do Instituto Humanistas Unisinos - IHU. Naquele momento, a leitura que se fazia da conjuntura do país era a de que a eleição de Collor de Mello em 1989 significou um retrocesso na trajetória do movimento social brasileiro que vinha se fortalecendo desde os anos 1970, especialmente depois do AI 5, juntamente com o novo sindicalismo, o surgimento do PT, dos movimentos sociais, da Comissão Pastoral da Terra - CPT, Comissão Pastoral Operária -  CPO, do CIMI, o Movimento de Direitos Humanos, a Comissão Justiça e Paz, entre outros.

A eleição de 1989, portanto, marca uma derrota para o movimento social. Com o processo de impeachment de Collor em 1992, instaura-se um período de transição com o governo de Itamar Franco e fica-se na expectativa das eleições de 1994. A Semana Social Brasileira se insere nesse contexto, a de um país e um projeto em crise – o projeto nacional popular.

A pergunta que emerge no grupo de organização da Semana Social é a seguinte: Considerando-se o fim, ou a crise, do modelo de desenvolvimento econômico social nacional implementado a partir dos anos 1930, retomado depois de outra forma em 1956, e imposto de maneira autoritária no governo militar e a crise que se instala com a adoção do projeto neoliberal iniciado com Collor, por que não pensar um projeto para o Brasil? Como pensar o Brasil que a gente quer? Esse será leitmotiv da 2a Semana Social Brasileira. Uma Semana Social que se realiza no final do mês de julho de 1994, às vésperas das eleições presidenciais com o objetivo de pensar o “Brasil que queremos” num contexto de crise de modelos.

Importante destacar a ideia de se fazer a Semana Social Brasileira em um espaço não eclesial, um espaço público – o Centro de Treinamento Educacional da Confederação Nacional dos Trabalhadores na IndústriaCNTI em Luziânia - GO. Um espaço não do tipo Itaici, ou os ambientes de seminário, das casas de encontro, de retiro. A ideia foi a de organizar a SSB em um espaço público para que as pessoas que não estivessem vinculadas às Igrejas tivessem liberdade de ir e participar sem se sentirem constrangidas.

Uma ousadia à época e demonstração da abertura do diálogo da Igreja com a Sociedade. Tem-se aqui a ideia de uma Igreja que está presente, que organiza, provoca a discussão, mas que se abre para toda a sociedade e a envolve através da estratégia da escolha do espaço físico, e convida essa mesma sociedade para discutir os grandes temas da conjuntura brasileira. Enfim, uma Igreja servidora da sociedade.

Destaque-se ainda que a 2ª Semana Social Brasileira inovou nos métodos de preparação de grandes encontros. O encontro nacional que reuniu 400 pessoas foi resultado de um processo de dois anos que iniciou nos Estados. Centenas de encontros se realizaram e mais de 50 subsídios impressos foram publicados. A Semana, dada a sua envergadura e ousadia chegou a ser a notícia de destaque da primeira página da Folha de S. Paulo em 1994: “CNBB discute um Projeto Nacional para o Brasil”.

É nesse contexto que surgiu a ideia de se organizar um debate entre os candidatos à Presidência da República. De novo, uma ideia inovadora. Naquele momento histórico, conjuntural, político, eclesial, houve uma somatória de vários fatores que propiciaram e possibilitaram que a CNBB convocasse os candidatos e todos comparecessem. Foi uma articulação bancada à época por dom Luciano Mendes de Almeida, presidente da CNBB, em negociação com o proprietário da Bandeirantes João Jorge Saad.

Os bastidores do debate à época revelaram um PT amedrontado com o debate. Lula, liderando as pesquisas contra Fernando Henrique, resistia em participar do debate. A resistência chegou a tal ponto que o atual ministro, Gilberto Carvalho, na época Secretário Geral do partido, foi intimado a dar uma resposta, pois se fazia de difícil. Lula foi o último a confirmar a presença. Lula resistia e muito. Não queria participar porque ainda continuava traumatizado pelo último debate, em 1989, na Globo, com Fernando Collor, na antevéspera do segundo turno. Naquele julho de 1994, antes de entrar no debate, Lula estava nervosíssimo.

Um detalhe de bastidor, pouco conhecido e revelador da força da Igreja e da liderança moral de dom Luciano foi o de que prestes a se iniciar o debate,  antes da entrada no 'palco', com uma plateia com mais de 400 pessoas, entre os quais jornalistas de todo o País, D. Luciano, muito inspirado, fez uma breve e densa saudação a todos os nove candidatos, salientando a importância do debate para a sociedade brasileira. Enquanto várias candidatos assentiam com a cabeça, Leonel de Moura Brizola, pediu a palavra e dizendo: “Somente a CNBB com a sua respeitabilidade e com sua liderança moral D. Luciano,é capaz de reunir todos esses candidatos de partidos tão diferentes num mesmo debate”.

O ineditismo maior do debate estava por vir. Foi o fato de que as perguntas aos candidatos não seriam feitas por jornalistas e sim por lideranças do movimento social que participavam da 2ª Semana Social. Essa ‘brecha’, foi resultado de intensa e tensa negociação entre a coordenação do evento e a Bandeirantes. A emissora através do seu jornalista, Chico Pinheiro, escolhido pela coordenação da 2ª Semana Social Brasileira, hoje na Globo, perguntava: “O que é que esse povo vai perguntar?”. “Meu Deus o que é que vai vir?”. “A gente não tem controle!”. “Isso não é profissional”. Venceu, porém, através da resoluta posição da coordenação da SSB a proposta das perguntas elaboradas pelo movimento social. As perguntas foram elaboradas a partir de uma rica metodologia pelos mais de 400 participantes da SSB distribuídos em grupos temáticos, durante um dos dias do evento. Cinquenta perguntas foram colocadas em várias urnas distribuídas pelas regiões do País e eram sorteadas publicamente. E todos os participantes estavam presentes no debate. Ou seja, o debate não foi feito num estúdio, mas num lugar público sob o olhar atento de todos os participantes do evento.

O debate se realizou num clima de muita tensão. O jornalista da Band estava tenso, preocupado com a reação do público presente no auditório. Mais. À sua frente, sentado na primeira fileira estava o presidente da Rede Bandeirantes que viera de São Paulo para assistir ao debate. Mas o público se mostrou à altura do evento e tudo transcorreu sem nenhm percalço.

Também é preciso recordar que nem todos os que atuavam na CNBB naquele momento estavam de acordo com esta iniciativa. A resistência teve várias motivos. Um dos mais fortes era o medo de que a Igreja fosse "aparelhada" pelos movimentos sociais e/ou por um partido.

O debate, o primeiro grande debate das eleições de 1994, e o único que reuniu todos os candidatos foi um sucesso e tornou-se um fato nacional com grande repercussão na imprensa e na sociedade. E a repercussão do debate dissipou todas as  resistências.

Esse breve e limitado resgate do debate organizado pela CNBB em 1994 manifestou o protagonismo dos leigos e leigas que atuavam nas pastorais sociais, nos movimentos sociais e populares e nos partidos políticos. Sem dúvida, resgatar esta história é também fazer a memória da ousadi, da competência e da visão pastoral de D. Luciano Mendes de Almeida que apostou na seriedade e pertinência desta iniciativa.

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