A crença de Emmanuel Carrère

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02 Setembro 2014

Acreditávamos. Por séculos, não pudemos viver sem apelar para Deus. Essa relação não era abstrata, moldava a nossa relação com o mundo, orientava o espaço e marcava o tempo, produzia milhares de efeitos sobre o nosso corpo, sobre a nossa alimentação, sobre o nosso sono.

A reportagem é de Jean Birnbaum, publicada no jornal Le Monde des Livres, 29-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sem sequer pensar nisso, púnhamos os mistérios bíblicos tanto como princípio da nossa existência cotidiana, quanto na raiz da história humana. Hoje, isso parece loucura. Porque, por mais que a religião busca se tornar presente na nossa memória, nós rejeitamos levá-la a sério.

Queremos, com toda a força, reduzir o ímpeto espiritual a uma pura quimera que esconderia as verdadeiras questões em jogo na política, na economia... Nós acreditamos em tudo, exceto na fé?

Mas "nós" quem? "Nós, ocidentais do século XXI", responde Emmanuel Carrère. Em Le Royaume (O Reino), o escritor toma sobre si o destino do Ocidente. E o faz a seu modo, portanto, em primeira pessoa, com um rigor jocoso, na forma de uma investigação humilde e insensata, que multiplica os choques entre os textos bíblicos, romances clássicos e cenas cinematográficas. Ele explica: eu também acreditei, acreditei cegamente; e eu também acabei virando as costas para a fé, até ridicularizar o crente que fui; o que essa trajetória diz de mim, de vocês?

Para realizar essa investigação, Carrère volta aos Evangelhos e traça novamente a história das primeiras comunidades cristãs. É, ao mesmo tempo, muito didático e apaixonante. Mas ele começa exumando um arquivo íntimo: os 18 cadernos nos quais le escreveu, no início dos anos 1990, os seus comentários do Evangelho segundo João e que formam o "diário de bordo" da sua conversão.

Na época, o romancista passava por uma violenta depressão e não conseguia mais escrever. Ele se voltou para duas "instituições" que sabem que a razão não é a totalidade da experiência humana: a psicanálise e a Igreja. Começou, então, uma aventura em que se misturavam arrepios e suores frios, alegria de esperar e terror de cair "naquela coisa mais enfaticamente e quase obscenamente católica".

Se o relato que Carrère faz sobre isso fosse acompanhado por um espírito sério, o leitor poderia hesitar em assumi-lo. Mas o escritor introduz na sua investigação um humor valtairiano que o torna hilariante e preciso: talvez Deus mudou seu projeto sobre mim, escreve Carrère, "talvez ele quer que eu deixe realmente de ser escritor, que eu me torne, não sei, carregador de maca em Lourdes".

A partir do momento em que o livro ameaça cair no pathos edificante ou na apologia dogmática, entra em cena a autoironia para fazer daquele Reino o que ele é, um território majestoso e frágil, em que o único amor que vale é o amor da incerteza, em outras palavras, o amor pela vida mesma.

Todo o livro manifesta a preocupação de assumir as "falhas" da condição humana. Testemunha disso são os maravilhosos retratos dos seus companheiros de esperança, Hervé, o amigo fiel, Jacqueline, a sua "madrinha" comum, dois seres caracterizados por "uma espécie de estupor que os impede de viver sem se perguntarem por que vivem".

Testemunha disso também é o seu modo de descrever certas cenas de fraternidade que, por um instante, permitem entrever o Reino interior: como aquele momento de uma retirada em que Carrère, depois de hesitar por medo do ridículo, começou a dançar com uma menina com síndrome de Down, cantando "Jesus é meu amigo".

Entre os evangelistas, além disso, Carrère escolheu o seu campo e afirma isso em todos os comentários que dedica aos destinos de Paulo e de Lucas: contra o primeiro, teórico arrogante que quer achar pelo em ovos, ele, escritor famoso, gostaria de se identificar com o segundo, descrito como um homem honesto, um bom artesão de ficção, que coloca a fé do lado do coração e da simpatia.

Mas é a própria escrita de Carrère, o seu estilo e o seu movimento que mantêm a dúvida e a escuta. Ele acaricia os textos bíblicos, sem nunca se apropriar deles, como se se tratasse não tanto de compreendê-los, mas de compreender a si mesmo no seu contato.

Dirigindo-se ao seu leitor, Carrère coloca em cena os seus escrúpulos, as suas angústias: "A propósito, percebo que esse detalhe não funciona", "Convido-lhes a voltar para a página 327..."," Como narrador, também abri mão dessa redundância, mas, tudo bem...", "Eu sei, eu me projeto...", "No entanto, eu tentei"...

Reconhecer a parte de mentira inerente ao ofício de escritor, isso significa destacar a impostura que está presente em toda promessa. Lendo esse livro que se estende em direção ao céu e que domina definitivamente essa época literária, pensa-se que toda a obra de Carrère talvez tenha sido apenas uma sublime oração, um modo de afirmar que não há nada de mais concreto, nada de mais real do que aquilo que é simbólico.

Pela primeira vez, sob a sua pena, a escrita se torna verdadeiramente vocação espiritual, e o objeto louco da esperança humana se torna uma coisa só com o reino da literatura.

Viver? Que boa ideia! É uma das cenas mais memoráveis de Le Royaume de Emmanuel Carrère. Na página 23, ele conta a sua única sessão com o psicanalista François Roustang. Diante dele, o escritor fala do beco sem saída em que se encontra, das suas dores de estômago, dos seus pensamentos sobre o suicídio.

Depois, pergunta a Roustang se ele aceitaria tratar dele. Este responde que não. Ouço muito bem, diz-lhe, que tudo o que lhe interessa é testar mais uma vez o quanto você é dotado para pôr em xeque os seus psicanalistas. Deveria passar para outras coisas, continua Roustang. Sim, para o quê? "Você falou de suicídio. Não se fala muito bem dele nestes dias, mas às vezes é uma solução."

Depois de deixar que o silêncio caísse, o terapeuta conclui: "Se não, pode viver". Fim do tratamento. "Pouco a pouco, sem nunca tê-lo reencontrado, constata Carrère, as coisas começaram a sair melhor."

Se não, pode viver... Frase de uma simplicidade fulgurante, em que se reconhece o estilo ousado e provocativo que distingue François Roustang. Franco-atirador da cena freudiana, tendo passado pela Companhia de Jesus à "seita lacaniana", depois da psicanálise à hipnose, eme compartilha com Carrère a mesma repugnância diante dos relatos blindados de certezas e a convicção de que o humor permite que se faça com que eles vão pelos ares.

Assim, só nos resta nos alegrarmos de que Le Royaume de Carrère é publicado ao mesmo tempo que uma bela coleção de textos assinados pelo psicanalista, republicados em formato de bolso com o título Feuilles oubliées, feuilles retrouvées (Petite Bibliothèque Payot, 256 páginas).

O problema do fim da análise é central nesses textos. Colocando na mira as práticas dos colegas que têm tanta facilidade para definir as suas teorias quanto dificuldade para libertar os seus pacientes, Roustang se recusa a considerar que toda psicanálise, por definição, tenha em si um fracasso contínuo: "Se o sucesso está no fiasco, quanto menos funciona, melhor funciona", ironiza.

Não fazer com que o paciente mergulhe em uma passividade mórbida, reabilitar a sua capacidade de decisão e, para esse fim, fazer uso da provocação: aqui está o que prevê o doutor Roustang, que persiste pensando que a psicanálise deve ter como alvo, no fim, a felicidade do paciente.

"A felicidade (...) não se fala muito bem dela nestes dias", adverte. E poderíamos acrescentar: mas, às vezes, é uma solução.

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