''A minha viagem ao inferno dos refugiados.'' Entrevista com o cardeal Filoni

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25 Agosto 2014

O cardeal Fernando Filoni, enviado pessoal do pontífice ao Iraque, voltou nessa quarta-feira de Bagdá, enquanto adverte pelo futuro imediato. E dispara dois sinais de alerta. O primeiro diz respeito a um possível risco de epidemias, que cresce enquanto se prolonga a situação de emergência dos deslocados, a promiscuidade, a falta de água, a debilitação devida ao fato de não encontrar abrigo do calor e do sol.

A reportagem é de Maria Antonietta Calabrò, publicada no jornal Corriere della Sera, 22-08-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O segundo alerta é sobre o que vai acontecer com o inverno, assim que começar, que será muito duro se a população ainda for forçada a viver ao ar livre. Mas os refugiados – diz – "só voltarão aos vilarejos se houver um cinturão de segurança internacional".

Eis a entrevista.

Por quanto tempo o senhor falou com o papa?

Uma hora. Também entreguei ao papa um relatório escrito e uma série de documentos.

O que o papa disse?

Ele principalmente ouviu. O Papa Francisco, sempre atento, no entanto, ficou particularmente impressionado com o meu relato de alguns episódios tocantes dos quais eu fui testemunha direta.

Conte-nos alguns.

Por exemplo: eu vi alguns idosos que, arrancados das suas localidades, da cotidianidade de vida nos vilarejos, se deixam levar e ficam ali jogados no chão o tempo todo, sem ter quase mais força para viver. E depois, em Manghesh, vi três jovens que escaparam dos jihadistas que tinham sequestrado cerca de 200 pessoas do seu vilarejo e todos os seus parentes. No dia seguinte, a internet mostrou uma pilha de 70 homens mortos. E depois também pequenos, mas odiosos, abusos. Lembro-me de uma menina de poucos meses da qual os milicianos arrancaram dois brincos simples, e que as pessoas tentaram consolar, encontrando-lhe outro par, quase como que dizendo: "O nosso tesouro é você"...

E as mulheres?

Das mulheres quase não restou rastro: desaparecidas, engolidas por sabe-se lá qual horrendo destino, mulheres que foram raptadas, violentadas, vendidas.

E as outras?

As que ficaram vivas e não desapareceram, mas não estão mais com a presença de um homem – de um pai, de um irmão, de um esposo – que seja quase a garantia da sua vida, segundo a sua cultura, sentem-se igualmente como que mortas, sem futuro. Lá não é como no Ocidente, onde uma mulher também pode construir a sua vida com as próprias capacidades e com a própria força. Assim, isso se torna muito, muito penoso: o olhar daquelas mulheres sentadas, caídas, sem expressão era muito impressionante.

Quantas pessoas são afetadas por esses "brutais sofrimentos", como o papa escreveu na carta que o senhor entregou ao presidente iraquiano, Fuad Masum?

Do 1,2 milhão de deslocados refugiados no Curdistão iraquiano, cerca de 100 mil são cristãos, embora não haja verdadeiras estatísticas. Como o papa também pediu, deve-se intervir por todos, por todas essas minorias perseguidas, por toda essa humanidade sofredora. Entre aqueles que estão em fuga do avanço do Isis, também há muitos muçulmanos xiitas. As autoridades curdas me disseram: "Nós, aqui, viveremos juntos ou morreremos todos juntos".

Nestes dias, a temperatura média durante o dia é 45-48ºC. Como é possível viver sem abrigo do sol, com pouca água, todos amontoados?

O verdadeiro problema neste momento é o dia, porque o sol não deixa escapatória. É preciso evitar o perigo de epidemias. Estão sendo preparados chuveiros, sanitários etc. O comitê organizativo dos bispos iraquianos se estabeleceu em Ankawa, perto de Erbil. São muito ativos a Catholic Relief Services, da Conferência Episcopal Norte-Americana, a Church in Need e outras organizações católicas como a Caritas Internationalis. Elas estão tentando fazer uma programação: porque aquilo de que é preciso agora, talvez, não servirá em dois meses. Embora a primeira emergência imediata tenha sido saneada, não sabemos quanto tempo tudo isso vai durar.

É uma corrida contra o tempo?

Sim. O inverno nas montanhas do norte é muito duro. A questão é que eles não podem passar o inverno ao ar livre. Muitos desejam voltar para os seus vilarejos, mas pedem que os vilarejos tenha um cinturão de segurança, possivelmente, internacional.

A quem cabe o pedido da intervenção internacional?

Cabe principalmente ao governo central iraquiano e às autoridades regionais curdas. São eles que têm que fazer isso.

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