Teólogo indiano merece apoio, e não censura

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15 Mai 2014

Peter C. Phan é um teólogo americano nascido no Vietnã atualmente professor de teologia nos Estados Unidos. É amigo do padre jesuíta Michael Amaladoss e grande conhecedor de seus escritos teológicos. Após ficar sabendo que a Congregação para a Doutrina da Fé está investigando Amaladoss, Phan escreveu esta carta aberta ao Papa Francisco, publicada por National Catholic Reporter, 14-05-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Peter C. Phan, é autor de três artigos publicados pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- O cristianismo mundial e a missão cristã são compatíveis?: insights ou percepções das Igrejas asiáticas, Cadernos Teologia Pública, no. 38;

- O pluralismo religioso e a Igreja como mistério. A eclesiologia na perspectiva inter-religiosa, Cadernos Teologia Pública, no. 75;

- Diálogo Inter-religioso: 50 anos após o Vaticano II, Cadernos Teologia Pública, no. 86.

De Michael Amaladoss, veja o artigo O Deus de todos os nomes e o diálogo inter-religioso, Cadernos Teologia Pública, no. 10

Eis a carta.

Papa Francisco
Bispo de Roma
Cidade do Vaticano
13 de maio de 2014

Prezado Papa Francisco:

Nunca imaginei que um dia iria escrever uma carta ao papa. Mas, já que o senhor mesmo, após a sua eleição como bispo de Roma e, portanto, como pastor da Igreja Católica, tem escrito e telefonado para as pessoas – católicas e àquelas outras que pertencem a outros credos ou mesmo que não tem religião alguma –, criei coragem para escrevê-lhe pessoalmente, ainda que por meio de uma carta pública.

Pensei em enviar-lhe uma carta privada, mas tive medo de que nunca chegasse às suas mãos. Também não quis começar uma campanha de envio de cartas angariando assinaturas, uma vez que não busco organizar um movimento político. Espero que esta carta aberta endereçada ao senhor seja lida por, pelo menos, aqueles que são seus colaboradores próximos os quais poderão, então, oferecer-lhe assessoria apropriada no que diz respeito ao assunto que estou trazendo à sua atenção.

Tenho certeza de que, a esta altura, o senhor está ciente que sua eleição para o papado trouxe novas esperanças e uma brisa de ar fresco para muitas pessoas – ainda que não todas evidentemente – na Igreja Católica e mesmo fora dela. Eu também estou ciente do fato de que o senhor está lidando com enormes problemas tais como os escândalos de abuso sexual e financeiros bem como com a reforma da Cúria Romana.

O assunto que trago à sua atenção parece pequeno em comparação aos temas acima. Refiro-me ao fato de que, recentemente, a Congregação para a Doutrina da Fé – CDF exigiu do teólogo indiano Michael Amaladoss que escrevesse “um artigo publicamente endossando as opiniões do Vaticano ou que enfrentasse o silêncio”. Relatou-se igualmente que a ele foi dito para cancelar palestras e a interromper a publicação de sua obra. Aqui estou citando uma fonte de notícias, visto que geralmente as relações com a CDF são envoltas em segredo.

Em parte escrevo porque quero mostrar apoio ao Pe. Amaladoss, de quem sou amigo e quem, suponho, não está tendo a liberdade de publicamente se defender. Mas há uma razão muito mais importante para esta minha iniciativa, e ela é o futuro da Igreja Católica na Ásia e sua teologia. Como o senhor bem sabe, a Igreja Católica é uma minúscula minoria na Ásia. A sua missão é proclamar a Boa Nova do amor de Deus – ou, como o senhor colocou: a “alegria do Evangelho” – a todas as pessoas na Ásia de forma que elas a acham compreensível e crível. A Igreja Católica na e da Ásia, por meio da Federação das Conferências Episcopais dos bispos asiáticos, se propôs a realizar a missão cristã de evangelização através de um tríplice diálogo com o povo pobre da Ásia, com suas culturas e religiões.

Por meio de seus longos anos de ensino, de seus numerosos escritos e palestras internacionais, o Pe. Amaladoss tem dado uma enorme e duradoura contribuição para a elaboração de uma teologia genuinamente asiática. Mas, como o senhor sabe, os teólogos na Ásia não desfrutam do tipo de apoio institucional, da liberdade acadêmica de pesquisa e publicação bem como de proteção legal tal como desfrutam os teólogos na Europa e nos Estados Unidos, especialmente se eles ensinam em universidades estatais, não pontifícias ou não católicas. Os teólogos asiáticos são quase todos sacerdotes e religiosos que lecionam em seminários e em instituições controladas pela Igreja. Eles não estão protegidos pelo devido processo e pela liberdade acadêmica e podem ser demitidos à vontade pelos seus superiores religiosos ou eclesiásticos. Creio que a CDF sabe bem disso.

Não sou um defensor precipitado da “liberdade acadêmica”, entendida como a licença para lecionar qualquer coisa segundo a consciência do sujeito e suas luzes intelectuais. Estou convencido de que os teólogos cristãos devem ser responsáveis para com a verdade da revelação de Deus, com o magistério da Igreja, com o magistério dos fiéis, e na Ásia com o magistério dos pobres também. Como teólogo, o Pe. Amaladoss cumpriu as suas responsabilidades ensinando e escrevendo de forma exemplar, com humildade, bondade e santidade.

Há apenas um pequeno número de teólogos asiáticos trabalhando no Ocidente e desfrutando da liberdade acadêmica e da imunidade de temer a censura eclesiástica de qualquer espécie e de qualquer fonte. Portanto, nós temos tanto a oportunidade quanto o dever de levantar nossas vozes em defesa de nossos colegas na Ásia. Mas, mais do que a defesa de nossos amigos e a nossa solidariedade, é o futuro da Igreja Católica no continente que está em jogo. Sem uma teologia robusta que somente pode surgir numa atmosfera de liberdade acadêmica, criatividade intelectual, integridade moral e coragem pessoal, a Igreja Católica na Ásia irá se privar de uma ferramenta efetiva para o cumprimento de sua missão.

Prezado Papa Francisco, em breve o senhor irá visitar a Ásia. Por favor, considere esta oportunidade para dizer uma palavra de profundo apreço ao Pe. Amaladoss por sua obra teológica e outra de forte encorajamento aos jovens teólogos asiáticos. Por favor, diga-lhes que não devem se sentir desencorajados pelo que estão vendo acontecer com seus predecessores e que eles devem dar continuidade a suas obras teológicas com criatividade, coragem e com a “alegria do Evangelho”.

Que Deus continue abençoando-o em seu ministério.

Peter C. Phan

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