Comer, um ato político

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09 Mai 2014

Um terço dos alimentos produzidos no mundo inteiro é desperdiçado durante um ano. Enquanto isso, 860 bilhões de pessoas espalhadas pelo globo sofrem com a falta de acesso à alimentação. Levando em consideração não apenas a comida, mas a qualidade do que se come, o número de pessoas em insegurança nutricional sobe para quase o dobro. Por dia, 40 mil pessoas morrem de fome e de má nutrição. É neste contexto que o pesquisador e engenheiro agrônomo José Esquinas-Alcázar, que por mais de 30 anos trabalhou na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura – FAO, iniciou sua fala.

No dia 5, o pesquisador, que já viajou para mais de 100 países em missão internacional, ministrou a conferência de abertura do XV Simpósio Internacional IHU. Alimento e Nutrição no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, evento que se encerra hoje na Unisinos. No dia seguinte, presidiu a mesa-redonda Sociobiodiversidade: A riqueza planetária para a Segurança alimentar e nutricional, ao lado da assistente social Maria Augusta Henriques, da ONG Tiniguena, de Guiné-Bissau.

A conferência ocorreu logo após um culto ecumênico, que reuniu religiosos de diversos credos, que compartilharam, a partir de suas respectivas matrizes, perspectivas sobre a importância do partilhar consciente e do não desperdício. José Esquinas Alcázar fez referência ao ocorrido em sua fala. “Em meu país, quando um pão caía no solo, nós o recolhíamos, beijávamos e então comíamos”, relata.

Da mesma forma, o palestrante retomou também a relação dos hindus com o arroz, da cultura asteca com a quinoa e dos mexicanos com o amaranto, resgatando a importância ritualística da comida. “Todas estas práticas estão ligadas à religião, porque a sacralidade dos alimentos no ciclo da vida sempre foi valorizada por elas.” Para ele, no entanto, esta relação veio se perdendo ao longo dos anos, numa dessacralização dos alimentos marcada, especialmente, pela visão da comida como mercadoria.

Esquinas cita o exemplo de Benin. Uma das democracias mais estáveis do continente africano, o país é considerado o quarto maior produtor de algodão da região. No entanto, também carrega outro título bem menos celebrável: figura entre os países mais pobres do mundo. “Há quase 50 anos, Benin nunca havia conhecido a fome. Seus agricultores produziam com grande esforço, mas fome não havia”, relata. Segundo o professor, uma missão internacional incentivou o país, que tinha boas condições de clima e solo, a trocar todos os seus cultivos por algodão. A cultura seria comercializada com o mercado internacional, e dele se comprariam os alimentos a um preço mais baixo do que o custo de produção.

“Tudo funcionou muito bem, até que em 2008 houve uma alta mundial no preço dos alimentos. Quando os preços do arroz, do milho e do trigo triplicaram, os ex-agricultores experimentaram a fome pela primeira vez. Só então se deram conta do que haviam perdido, mas era tarde demais”, sentencia Alcázar. “Mataram a galinha dos ovos de ouro.”

A política da fome

O pesquisador levanta alguns fatores responsáveis pela alta no preço dos alimentos e na consequente falta de acesso a eles pelos grupos sociais mais vulneráveis. São várias, desde a tomada das áreas cultiváveis para o plantio de biocombustíveis até as mudanças climáticas, que levam à imprevisibilidade do trato das culturas. No entanto, para o pesquisador, a principal causa é a especulação dos alimentos na bolsa de mercados e futuros.

Esquinas esclarece que, após a crise no setor imobiliário em 2006-2007, os especuladores encontraram no mercado de alimentos uma boa oportunidade para investir. Em artigo em seu blog, a ativista Esther Vivas relata que em 1998 os investimentos financeiros especulativos nos setores agrícolas foram em torno de 25%. Em 2011, giravam em torno de 75%. “Estas transações são realizadas nos mercados, sendo o Mercado de Commodities de Chicago o mais importante deles em nível mundial, enquanto na Europa alimentos e matérias-primas são negociadas nos mercados futuros de Londres, Paris, Amsterdam e Frankfurt”, descreve.

A virtualidade do negócio, no entanto, se manifesta não na compra, mas na venda. Segundo o pesquisador, no aguardo de uma boa oferta, muitas vezes os investidores instruíam os produtores a eliminar a produção para promover a regulação dos preços de mercado. A mercadoria, no entanto, não era um objeto material qualquer, mas elemento fundamental para alimentar milhares de pessoas. “Isso não é uma prática ilegal, mas para mim é um crime contra a humanidade.”

Saberes tradicionais e a Tiniguena

Se encarar a alimentação como mercadoria é um dos grandes problemas que levam à fome no mundo, qual seria a melhor solução? Para Esquinas, tudo começa quando a agricultura passa a ser vista como agroindústria, e uma resposta possível seria retornar aos saberes tradicionais, não como forma de negar o progresso, mas levando em conta um lastro de conhecimento que tem muito para colaborar ainda hoje.

Fermentar pássaros, colocar batatas no calor e no ar gelado por cinco dias e espremer a carne em selas de cavalo. Esses são alguns dos métodos de conservação tradicionais, mencionados no site da Organização das Nações Unidas. “Não existem soluções únicas, cada país tem suas características, tradições e culturas distintas”, relata o pesquisador. “Na Roma antiga, Cícero já dizia que a agricultura é a profissão do sábio, a ocupação mais digna para todo homem livre.”

Valorizar a produção local, o agricultor familiar e os saberes tradicionais é a missão da ONG guineense Tiniguena, que em língua Cassanga significa "Esta terra é nossa". Augusta Henriques, assistente social com formação em Lisboa, foi uma das fundadoras da entidade, em 1991. Ela, que integrou uma equipe de alfabetização coordenada por Paulo Freire, dividiu a mesa com Esquinas e compartilhou suas próprias experiências no contexto africano.

A Tiniguena é responsável pela criação, no arquipélago dos Bijagós, de uma área marinha protegida comunitária que inclui mangues e planícies da maré. “Os crustáceos são a principal fonte de proteína no meu país”, explica ela, dando a entender a importância das áreas úmidas. “A ONG aposta na valorização da biodiversidade, no consumo local e no patrimônio cultural”, afirma. “Eu me senti tocada pela frase do professor (Alcázar) sobre o agricultor ser um homem sábio, pois me lembrou meu pai. Foi ele quem me ensinou a amar a terra, e a amar a minha terra.”

Segundo Augusta Henriques, Guiné é o país da biodiversidade. Com 36 mil km² de extensão e uma população estimada de 1,5 milhão, possui seis meses de estação chuvada, terra arada para plantio e muitos saberes culturais. No entanto, ao mesmo tempo, precisando lidar com a cumplicidade interna e externa a insurreições militares constantes, com uma população refém do narcotráfico e um estado ausente, é na solidariedade comunitária que o povo consegue ser valorizado e atingir sua segurança alimentar.

Adotando políticas que se aliam à visão da via campesina e posicionando-se contra as regras do comércio livre, a ONG criou um banco de arroz para abastecer a população carente nos momentos de seca; um banco de sementes, com a constituição de renda para guardiões de semente e promovendo a soberania da população. “Queremos fazer de Guiné Bissau uma terra onde seus filhos podem viver em segurança.”

Felicidade Interna bruta

Por vezes, inseridos que estamos na lógica capitalista e de livre mercado, pensamos que é preciso mais do que o realmente necessário para ser feliz. Muitas vezes a ideia de felicidade está ligada ao de ser bem-sucedido, mas como estimar as medidas de sucesso? É pela renda familiar? Pelo cargo que se ocupa? Pelo número de carros na garagem ou pelo total de quartos na casa? Da mesma forma, ao se avaliar a riqueza de um país, muitos se atentam apenas aos dados econômicos, ao seu Produto Interno Bruto - PIB.

No entanto, existem outros parâmetros que também devem ser levados em conta. Emoções positivas e negativas, espiritualidade, satisfação pessoal e com o governo, tempo de sono e com a família: todos servem para chegar a um novo cálculo, o de Felicidade Interna Bruta – FIB. O termo foi proposto em 1972 pelo 4º rei de Butão, Jigme Singye Wangchuck. No entanto, desde 1729, o código legal do país, ainda da época da unificação do Butão, já trazia que, se um Governo não pode criar felicidade para seu povo, não há motivo para o Governo existir. "A essência da Felicidade Interna Bruta é a paz e felicidade de nosso povo e a segurança e soberania da nação", defende o rei.

Alcázar finaliza seu raciocínio mencionando o Butão, que, em termos de felicidade, é um dos países mais desenvolvidos do mundo. No entanto, o próprio pesquisador apresenta também sua proposta de avaliação: “Um país desenvolvido é aquele que apresenta SEDA – Sustentabilidade, Ética, Diversidade e Amor”. Apenas com base nestes parâmetros, diz ele, será possível direcionar a “nave Terra” para a direção que desejarmos, e não deixá-la se perder pelo espaço. Para isso, devemos ter consciência do que consumimos, do que incentivamos, do que aceitamos. “É preciso transformar nosso carrinho de compras em um carro de combate”, provoca Alcázar. “Comer é um ato político.”

(Andriolli Costa)

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