Revolução do Vaticano II passa de Roncalli a Bergoglio

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28 Abril 2014

Na grande "festa dos quatro papas" da manhã desse domingo, 27, João XXIII corre o risco de ser esmagado. Francisco é a estrela, Ratzinger será observado com ternura, João Paulo II terá o papel de destaque já que gerações inteiras – dos jovens de 18 anos aos adultos de 45 – praticamente conheceram sobretudo ele.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 27-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Papa Roncalli é exaltado principalmente nos telões televisivos pela sua humanidade e simplicidade. De fato, dedica-se pouquíssimo espaço para contar o que foi o evento conciliar e como ele mudou em profundidade a Igreja Católica.

O Papa Ratzinger, que como jovem teólogo tinha participado do Concílio militando na patrulha dos reformadores de assalto, durante o seu pontificado, condenou qualquer interpretação de "ruptura" do Vaticano II, insistindo que ele devia ser lido e interpretado em uma lógica de "continuidade" com a tradição da Igreja.

Exercício caduco, porque o valor que o Concílio assumiu na opinião pública e católica, mas não só, consiste exatamente no significado de grande Virada com respeito à Igreja fossilizada, saída do fim do século XIX, da luta antimodernista de Pio X e do rígido pontificado de Pio XII.

O Papa Roncalli – sapatos grandes, cérebro fino, se poderia dizer – escolheu deliberadamente o termo "aggiornamento" [atualização], preparando-se para a sua obra de renovação, porque a palavra reforma assustaria os setores mais conservadores.

Na realidade, o Concílio produziu muito mais do que uma simples manutenção atualizada da Igreja. O Vaticano II, em muitos aspectos, inverteu a sistematização que a Igreja Católica tinha dado às suas relações com a modernidade surgida do Iluminismo, da revolução industrial e científica, e já marcada pelos indícios da secularização paralela ao declínio do regime de "cristandade" que se perpetuou durante séculos na Europa.

O Concílio Vaticano II proclama o primado da liberdade de consciência, reconhece o princípio da liberdade religiosa, reforma a liturgia, abre o caminho para o uso das línguas faladas durante a missa, dirige-se às outras confissões cristãs como "Igrejas irmãs" e não mais como formações heréticas e cismáticas, põe fim ao antissemitismo e ao antijudaísmo arraigados na Igreja, identifica no Deus de Abraão o idêntico Deus do judaísmo, do cristianismo e do Islã, admite a existência de "fragmentos de verdade" nas religiões orientais. Uma revolução.

Se há algo que une Francisco e João XXIII, além da mistura de humanidade e de misericórdia próprias a eles, é que ambos, na sua ação de governo, foram muito além das expectativas do seu eleitorado nos conclaves de 1958 e 2013.

Todos os resultados do Vaticano II foram sancionados em documentos aprovados quando o Papa Roncalli já estava morto. Ele reinou apenas cinco anos: de 28 de outubro de 1958 a 3 de junho de 1963. Mas na única sessão, a primeira, em que ele guiou os trabalhos conciliares, de outubro a dezembro de 1962, ele despedaçou a tentativa da Cúria e do fronte eclesial conservador de assujeitar a assembleia.

São oito semanas emocionantes. O Papa Roncalli inicia o Concílio, rejeitando os "profetas da desventura, que anunciam sempre o pior, quase como se incumbisse o fim do mundo...", defendendo que, ao contrário, na sociedade contemporânea se explicam os "misteriosos planos da divina Providência".

Em rápida sucessão, João XXIII permitiu que os Padres conciliares escolhessem em liberdade e sem pressa os componentes da comissão, rejeitassem os esquemas de documentos preparados na Cúria, fossem livres para trabalhar nas inovações do documento sobre a liturgia, discutissem sem vetos o uso das línguas nacionais na missa.

Por fim, Roncalli também inseriu no órgão dirigente do Concílio personalidades reformadoras como o cardeal belga Suenens. Sem esse impulso inovador, a assembleia conciliar não poderia desdobrar todas as suas potencialidades. Ainda hoje, os documentos do Vaticano II são a base do novo curso de Francisco.

João Paulo II considerou o Concílio como um fundamento do seu pontificado, embora tenha reprimido a teologia crítica, que queria desenvolver ainda mais o patrimônio do Vaticano II, identificando novas abordagens, por exemplo, no campo da dimensão sexual (o que Francisco está fazendo agora).

Mérito de Wojtyla, dentre outras coisas, foi o fato de ter desenvolvido – através das suas viagens e da sua ação geopolítica – a dimensão global da Igreja. João Paulo II compreendeu que o papa não pode mais comandar a partir de Roma, mas deve ir ao mundo.

Durante o seu pontificado, o papado se "apropriou" da comunicação de massa, adquirindo uma dimensão midiática, que já parece imprescindível para qualquer pontífice.

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