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23 Abril 2014

Na família de oito irmãos, a chegada de mais um bebê, em 1950, rompeu definitivamente uma tradição. Fossem homens ou mulheres, as crianças deveriam ser batizadas com nome de um santo ou santa. O italiano Achille Tempesta, que nascera e vivera até os quatro anos de idade em um povoado, mais ou menos na divisa entre as províncias do Lazzio e Abruzzo, até vir para o Brasil, não abria mão do costume. Mas, daquela vez, Maria de Lourdes, a irmã 25 anos mais velha do recém-nascido, resolveu intervir. Por que não um nome diferente? Ela sugeriu juntar a primeira sílaba do nome do tio de quem gostava muito, Orlando, com a última do título do livro que estava lendo: "O Guarani", de José de Alencar. Assim surgiu Orani (pronuncia-se com acento no "i"). O pai, Achille, acabou concordando. Mas não totalmente. O primeiro nome podia ser Orani. Já o segundo obedeceria ao costume da família e seria João. Orani nascera em 23 de junho, véspera do Dia de São João (24), e a homenagem era justa. "Minha irmã morreu no ano passado com mais de 80 anos. Agora ficamos só três", conta o cardeal, arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta, de 63 anos.

A reportagem é de Monica Gugliano, publicada pelo jornal Valor, 17-04-2014.

Batina, sorriso aberto: passam alguns minutos das três da tarde quando dom Orani abre a porta do refeitório no Palácio São Joaquim. Há duas mesas com seis lugares e uma com 11. É essa grande que está preparada para o café da tarde deste "À Mesa com o Valor". "Tudo isso é para nós?", pergunta ele, surpreso, à assessora de imprensa Carol de Castro. E antes que ela responda, ele mesmo já esclarece a dúvida: "É que não tenho muito esse costume do café da tarde por pura falta de tempo. Aqui é sempre muito corrido e só em raras exceções podemos tomar um café como este, quando vem alguma visita".

Ao confirmar a entrevista, Carol também explicara que seria impossível marcar almoço ou jantar fora do prédio da Cúria. Dom Orani não frequenta restaurantes na quaresma - período entre a Quarta-Feira de Cinzas e a quinta-feira da Semana Santa, durante o qual os católicos se preparam para as celebrações da morte e da ressurreição de Jesus Cristo. Mas se "tudo isso" era para "nós", dom Orani não quis perder tempo. Sentou-se à cabeceira, pegou o bule, serviu o café e começou a conversa querendo saber qual era o lugar de origem da repórter. Ao saber que era Buenos Aires e ouvir, provavelmente pela milionésima vez, que os argentinos têm um papa, dom Orani devolveu a brincadeira: "É. Mas você já ouviu o papa Francisco dizendo que é um argentino de coração brasileiro".

Orani João Tempesta nasceu em São José do Rio Pardo, município no interior de São Paulo, próximo de Minas Gerais. Achille, o pai, era viúvo quando casou com Maria Bárbara de Oliveira, uma descendente da miscigenação entre indígenas e portugueses que resultou da colonização do Brasil. Como quase todas as famílias da época, os Tempestas eram muito religiosos. Achille participava ativamente dos trabalhos da paróquia e, portanto, os filhos também. O menino estudava e jogava futebol. Mas não chegou a viver uma infância de casa cheia de irmãos. A diferença de idade entre eles era tão significativa que Orani, durante a maior parte da infância e juventude, morou na casa com um irmão e uma irmã. "Eles foram casando, saindo de casa. Eu tinha sobrinha da minha idade. Ficamos nós e nossos pais", recorda.

Adolescente, Orani foi coroinha e catequista. A religião, desde a infância, fora algo tão presente em sua vida que foi natural sentir a vocação para seguir esse caminho. "Comecei a refletir, conversar, conhecer as possibilidades. Pensei muito e decidi que era isso." Mas não era o que a mãe imaginava ou desejava. Maria Bárbara desatou a chorar quando o filho caçula, que ainda não completara 17 anos, comunicou que decidira ir para o seminário. Ele terminara o colegial (ensino médio) e trabalhava numa concessionária da Willys, fabricante do carro que, na década de 1960, se tornara sinônimo de sucesso e ascensão social. "A tradição italiana previa que o filho menor da família cuidaria do pai e da mãe quando envelhecessem. Naquele momento, ela imaginou que ficariam sem ninguém", diz o cardeal. Dona Maria Bárbara e "seu" Achille, enquanto viveram, nunca ficaram longe do filho. "Eu até brinquei que ganharam mais filhos com os paroquianos", acrescenta, enquanto escolhe algumas frutas e um pedaço, pequeno, de bolo de fubá.

Uma vantagem do café da tarde "em casa" é que, diferentemente do que ocorre nos restaurantes, há pouquíssimas interrupções. A mesa, com uma fina toalha bordada, está posta quando sentamos. A louça tem o brasão da arquidiocese. As irmãs prepararam o bolo de fubá, o pão doce, os biscoitinhos de polvilho, arrumaram delicadamente as geleias, a nata, a manteiga, o suco de abacaxi, a água e as frutas cortadas. É quase como estar na casa daquela tia que visitamos não com muita frequência. O pé-direito alto da sala, as cristaleiras, o pequeno lavatório para as mãos num canto e as cortinas de renda ajudam a reforçar a sensação de familiaridade. E, mesmo que tudo seja formal, é também muito acolhedor.

A conversa com dom Orani é recheada de longas pausas. Em especial, quando as perguntas tratam de questões pessoais. As respostas são curtas. Em outras temas, têm a marca típica do jogo de cintura que se espera daqueles que sabem lidar com a política. Afinal, o título lhe dá o direito de votar para a escolha do papa. E, em ano eleitoral como este de 2014, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promove debates e se mantém atuante em defesa de valores e eleições limpas. A entidade que reúne os bispos no Brasil não recomenda voto neste ou naquele. Mas alerta sobre o que se deve buscar num candidato. E o que se deve buscar? "Nas paróquias, em tudo, nós recomendamos que os eleitores examinem a vida do candidato. É uma escolha com responsabilidade. Se ele disputa a reeleição, é bom saber se fez o que prometeu", diz dom Orani. A pergunta seguinte era inevitável:

- E a presidente Dilma fez o que prometeu?

- Precisamos verificar o que ela disse na época. Há passos dados, como o Bolsa Família. Mas temos um grande caminho a percorrer.

E o passo a ser dado, assinala o cardeal, é levar uma estrutura de justiça a todo o país, combater a violência, dar acesso à educação e ao emprego. "Infelizmente, nosso país tem uma dívida social muito grande. Não é só uma geração que consegue mudar. Precisamos estar sempre andando nessa direção", afirma, acrescentando que o Brasil precisa equacionar a questão social, fazendo com que as pessoas vivam dignamente. "A igreja não é responsável por isso. Mas tem feito sua parte, tanto nas cobranças quanto nas ações sociais.

Alarmadas com a profusão de calorias à mesa, repórter e assessora mal tocam nos doces. Dom Orani serve-se das frutas e dos biscoitinhos sem demonstrar culpa. E dá uma sonora gargalhada quando, depois de esvaziar o prato, é informado de que precisa servir-se novamente para as fotos. "Tem que encher de novo o pratinho? Ai...Ai...vou pegar um pedacinho de manga... Mas, desta vez, vamos tirar a foto, não é? Bolo combina com fruta? Vocês não comem nada. Não têm que tirar foto também?"

Prato arrumado, as memórias da juventude voltam ao centro da mesa. Orani Tempesta iniciou a carreira religiosa no mosteiro de Nossa Senhora de São Bernardo, da Ordem Cisterciense, em São José do Rio Pardo. Os cistercienses são uma ordem monástica que tem trabalhos pastorais e o cardeal observa que gostou daquela vida da comunhão com as dioceses, da paróquia e da atividade pastoral. Ele estudava teologia entre 1970 e 1974, quando a igreja estava mergulhada na divisão entre os chamados conservadores e os progressistas. Era a Teologia da Libertação, que os conservadores tachavam de "comunista" e os liberais viam como a correção de rumo que levaria a igreja de volta ao seu destino de combater as injustiças sociais por via das comunidades eclesiais de base e das pastorais. Durante décadas, adeptos da Teologia foram combatidos e, no Brasil, um de seus expoentes, Leonardo Boff, renunciou ao sacerdócio quando estava prestes a ser condenado pela segunda vez ao silêncio. "Eram outros tempos", diz dom Orani.

Na igreja do século XXI, comandada pelo papa Francisco, um jesuíta argentino que desde sua eleição há pouco mais de um ano surpreende o mundo com seus pensamentos e ações, dom Orani acredita que a aproximação com Boff poderá acontecer. Primeiro, porque teólogos da libertação saudaram a eleição do arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, que, de acordo com eles, devolveu a igreja ao seu caminho de humildade, justiça e luta pelos pobres. Segundo, porque o próprio Boff já afirmou sua expectativa de um encontro com o papa Francisco. "Ouvi dizer isso. Mas, se ele solicitar o encontro, certamente será atendido", afirma o cardeal, dando sinal verde para a reaproximação.

Antes de ser escolhido cardeal, dom Orani foi arcebispo de Belém, no Pará, e, em abril de 2009, tomou posse como arcebispo do Rio de Janeiro. Sucedeu a dom Eugenio Sales, que se tornou referência na defesa dos perseguidos políticos durante a ditadura militar (1964-1985), mas era considerado um conservador. Ao chegar para a nova missão em uma cidade tão complexa e com tantas disparidades sociais, dom Orani conta que sentiu o peso do desafio. "Eu conhecia o Rio como turista, do mesmo jeito que se conhece qualquer outra cidade. Aqui conheci outra realidade de um povo religioso que luta muito para poder trabalhar, viver, que tem dificuldades enormes. Um povo muito heroico."

Desde que chegou à cidade, ele exercita o gosto pelo trabalho pastoral e defende a proximidade (física ou virtual) com os fiéis. Está sempre ligado na internet. E assim soube em tempo real que fora nomeado cardeal. Dom Orani acabara de celebrar uma missa na TV Educativa quando acionou o aplicativo do celular que transmite as missas do papa Francisco, direto de Roma. Ao terminar a oração do Ângelus - que lembra o momento em que o anjo Gabriel anuncia a Maria que ela irá conceber pelo Espírito Santo e dará a luz a Jesus -, Francisco anunciou a nomeação de 19 cardeais, entre eles, dom Orani. Ficou espantado. Mais pelo modo como recebeu a notícia do que pela nomeação em si. Nunca imaginara que isso pudesse acontecer assim, sem antes ter recebido alguma comunicação do Vaticano.

A surpresa, no entanto, se desfez rapidamente. Bastou lembrar do estilo do novo pontífice. Dom Orani conheceu o arcebispo Bergoglio em 2007 na 5ª Conferência Episcopal da América Latina e Caribe, em Aparecida. Ficou com a parte da redação do documento final, o "Documento de Aparecida", um texto que, resumidamente, incentiva a igreja a repensar e relançar sua missão num novo cenário latino-americano e mundial. "Foram vários dias de trabalho e os documentos eram tantos, alguns repetidos, dispersos. Eu pensava como ele [Bergoglio] conseguiria juntar tudo num texto e pensava: 'Ai, meu Deus, daqui não vai sair nada'. Fiquei muito admirado com o trabalho que fez, um belo documento", diz dom Orani.

O contato com o arcebispo Bergoglio, na conferência, acabou sendo muito breve. Foi em 2013, na Jornada Mundial da Juventude, que ambos passaram uma semana muito próximos. "Andávamos juntos, mas não necessariamente conversávamos. No carro, por exemplo, eu ficava mais era ajudando a pegar as coisas que jogavam para ele. Além disso, ele tinha muita coisa a fazer, pessoas a atender e sempre havia muita gente em volta." Nas refeições, havia mais chances de trocar ideias. "Uma pessoa muito simples, muito atenta a tudo, a todos. Sempre com delicadeza, sempre com gentileza." Sete dias depois de sua chegada ao Brasil, o papa Francisco deixava o país impressionado com o trabalho de organização do evento e, em especial, emocionado com a multidão de pessoas que o cercavam todos os dias e furavam os cordões de segurança para aproximar-se dele de qualquer maneira. "É claro que imaginávamos muita gente. Nunca o que foi", diz dom Orani, que, desde a época em que era pároco, trabalha com jovens, estimulando-os a seguir os preceitos da fé cristã.

A vinda ao Brasil foi a primeira visita ao exterior do papa Francisco. Nos dias que passou no Rio, depois de desembarcar do avião carregando sua pasta, e na rápida visita ao Santuário de Nossa Senhora de Aparecida, Bergoglio, com palavras e gestos, institucionalizou a imagem que o mundo passaria a ter dele. Anunciou em entrevistas que trabalharia pela reforma da igreja, combateria abusos, pregaria a volta aos hábitos simples e tocaria em feridas como os casos de pedofilia praticados por padres. Na medida do possível, vem fazendo o que se propôs. Simplicidade virou uma marca dele e algumas posições, como a condenação da união entre pessoas do mesmo sexo, vem sendo amenizada. Há poucas semanas, uma igreja argentina batizou o filho de um casal de duas mulheres. Ato inimaginável no conservador clero do país vizinho. Quanto à pedofilia, neste ano a igreja admitiu os casos e, segundo o papa, tem tratado o assunto com um rigor maior do que o praticado por outras instituições.

Na semana passada, falando de improviso para uma delegação do Escritório Internacional Católico para Infância, Francisco afirmou que não haverá recuo na condenação dos abusos do clero e pediu perdão às vítimas. "Quero assumir pessoalmente e pedir perdão pelo mal que fizeram pelos abusos sexuais de crianças", afirmou o papa.

A personalidade e as posições de Francisco, é óbvio, refletiram-se no trabalho dos cardeais, bispos, párocos e vigários que conduzem no Brasil o maior rebanho de católicos do mundo. Segundo o IBGE, 66% dos brasileiros se dizem católicos. Os discursos e atos do Pontífice, diz dom Orani, vão renovar a igreja. "Este é, sem dúvida, um momento especial. Temos um papa que toma iniciativas, pergunta, quer saber tudo. Estávamos acostumados de outra maneira e não com um papa que pega o telefone e liga para ouvir das pessoas seus problemas, suas questões práticas", explica o cardeal - tomando mais um pouco de café, mas abandonando o bolo no prato.

O refeitório onde estamos fica no térreo do Palácio São Joaquim, no bairro da Glória. De um lado, na rua Benjamin Constant, funciona a mitra, no prédio chamado João Paulo II. Do outro, na rua da Glória, com uma passagem entre ambos, está o palácio inaugurado em 1918. É uma construção em vários estilos, do neoclássico aos mais modernos. No Império, ficava nesse terreno o palacete do visconde de Meriti. Dom Pedro II e dona Teresa frequentavam ali as festas da nobreza. Deteriorado, foi derrubado e reconstruído a partir de 1912, para funcionar como sede da Secretaria de Negócios Estrangeiros e acabou transformado na residência do cardeal. Em uma de suas varandas, o papa Francisco rezou o Ângelus quando esteve no Rio.

Na sala iluminada com luz artificial é difícil perceber que o tempo corre. A não ser, observando o movimento dos dedos de dom Orani, que, sutilmente e sem barulho, batucam na mesa, demonstrando que chegou a hora de terminar. O celular, que ele, educadamente, deixou no silencioso, não para de piscar com mensagens. De vez em quando, dom Orani estende o olhar para conferir quem chama. Até que um dos compromissos seguintes à entrevista aparece ali mesmo na porta da sala. Ele pergunta se está tudo bem e se podemos terminar. Dá um terço de presente à repórter, despede-se com uma bênção e sai a passos largos. O café da tarde, diz dom Orani, estava ótimo, mas a agenda não pode mais esperar.

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