A revolução doutrinal que assusta a hierarquia. Artigo de Gian Enrico Rusconi

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17 Dezembro 2013

O pontífice não quer criar tensões ou divisões dentro da Igreja. Ao contrário, como nenhum outro dos seus antecessores, ele pretende valorizar ao máximo as formas de colegialidade existentes.

A análise é do historiador e cientista político italiano Gian Enrico Rusconi, professor emérito da Universidade de Turim, em artigo publicado no jornal La Stampa, 16-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Ele é perturbador na comunicação pastoral. E nunca põe em causa a correção doutrinal. O Papa Bergoglio é sugestivo no seu estilo pessoal de se expressar, mas controlado, até mesmo sofisticado, ao manter as posições tradicionais sobre pontos controversos. Tomemos uma as passagens mais irônicas, breve mas significativa, da sua entrevista ao jornal La Stampa: "As mulheres na Igreja devem ser valorizadas, não clericalizadas", fazendo-as, talvez, cardeais.

A sagacidade da afirmação evade a substância de um problema doutrinal sem solução. Eu esperaria que o Papa Francisco dissesse: a mulher colocada em posições de tomada de decisão e em papéis institucionais essenciais poderá desclericalizar a Igreja como ela é hoje.

Por que ele não disse assim? Trata-se de um limite pessoal ou do temor de que uma autêntica inovação sobre esse tema (que implica uma séria revisitação histórico-doutrinal) seria intolerável para muitos expoentes da hierarquia?

O Papa Francisco não é um ingênuo. Ele está consciente de que está se movendo em um cume muito frágil: a sua inovação expressiva na pastoral não é uma "atualização" à moda antiga. Muitas das suas palavras têm um potencial inovador que entusiasma e emociona – de modo confuso – grandes camadas da população, fiéis crentes e fiéis críticos ou desiludidos. Mas, ao mesmo tempo, ele inquieta uma grande parte da hierarquia que não sabe decifrar o êxito dessa emoção coletiva.

Mas o pontífice, de fato, não quer criar tensões ou divisões dentro da Igreja. Ao contrário, como nenhum outro dos seus antecessores, ele pretende valorizar ao máximo as formas de colegialidade existentes. Ele leva muito a sério o fato de que a problemática aparentemente menor da comunhão aos fiéis divorciados em segunda união e a muito mais comprometedora de uma reflexão sobre a família seja confiada às resoluções do Sínodo de 2014. Não à autoridade da sua palavra, mas a processos de convencimento da comunidade dos fiéis sob a orientação dos seus pastores.

É uma perspectiva interessante, embora eu não acredite que novidades virão à tona. Mas já será importante que, em nível de sociedade civil, de debate público e, especialmente, de normativas jurídicas, desapareça o espírito falsamente militante (ligado ao uso e abuso da fórmula dos "valores inegociáveis") em favor de um debate mais maduro e razoável entre todos os cidadãos, crentes e não crentes.

Como se relaciona tudo isso com as sugestivas palavras do Papa Bergoglio sobre a "ternura" e a "esperança", que é a parte central do seu discurso? Seria fácil considerar essa parte como uma edificante pregação natalícia, menos concreta, por exemplo, do que as pontualizações com que ele rejeita o suposto marxismo da sua posição, reivindicando o anticapitalismo da doutrina social da Igreja.

Mas a afirmação: "Quando os cristãos se esquecem da esperança e da ternura, tornamo-nos uma Igreja fria não sabe para onde ir e se refreia" introduz considerações de sabor místico que são típicas do estilo de Francisco. Não só a quase palpável "ternura de Deus que te acaricia", mas também a dimensão oposta, dura, de Deus que não fala diante do porquê do sofrimento: "Ele não explica nada. Mas eu sinto que Ele me olha. Tu não me o dizes, mas me olhas".

O antigo drama da inexplicabilidade da dor, que homologa crente e não crente, encontra aqui a sua saída. O fato de que um papa saiba encontrar as palavras certas em uma entrevista a um jornal e, mais em geral, dominando com perícia o circuito midiático, faz parte da personalidade de Bergoglio.

Resta comprovar se esse é o caminho para evitar uma "Igreja fria".

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