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12 Novembro 2013

De eldorado à decepção, o investimento da indústria do eucalipto no Estado caiu a menos da metade em uma década, com o recuo da Votorantim e, agora, a desistência da Stora Enso. Como herança, restaram vastas áreas à espera de colheita.

A reportagem é de Nilson Mariano, publicada pela Zero Hora, 10-11-2013.

Gaúchos que acreditaram prosperar com o eucalipto embarcaram num vertiginoso tobogã, experimentando os extremos da euforia e da frustração em menos de 10 anos. No princípio, três projetos prometiam investir R$ 12,9 bilhões (em valores de hoje) no Estado, entre florestas e indústrias. Votorantim Celulose Papel (VCP) e Stora Enso recuaram. Quando tudo parecia perdido, a chilena CMPC apareceu no cenário, comprou a Aracruz, em Guaíba, a rebatizou de Celulose Riograndense e aplicará R$ 5 bilhões até 2015.

Isto significa menos da metade do anunciado pelas três gigantes papeleiras. Se um naco do investimento se perdeu, também murchou o medo do “deserto verde”, temor de ambientalistas.

O eucalipto moveu sonhos de riqueza. Há oito anos, o Estado foi loteado pelos três megaprojetos. A Metade Sul ficou com a VCP, depois Fibria. A Stora Enso fixou-se na Fronteira Oeste, enquanto a Aracruz pretendia crescer desde Guaíba. Juntas, somariam três fábricas e 300 mil hectares de florestas.

A perspectiva de transformar o Rio Grande do Sul num polo mundial de celulose gerou uma corrida. Houve produtores que venderam ou arrendaram as propriedades com a súbita valorização do hectare. Outros passaram a plantar eucalipto no lugar das lavouras de cereais ou de pastagens.

Mas ocorreu o inesperado. A crise mundial de 2008 e os obstáculos para a compra de áreas por empresas estrangeiras abateram os projetos como uma harvester – a enorme ceifadeira que corta e desbasta eucaliptos. A Votorantim foi a primeira a pular fora, virou Fibria (na fusão com Aracruz) e redirecionou os investimentos para Três Lagoas (MS).

Havia dúvidas se a Stora Enso realmente cancelaria o empreendimento na Fronteira Oeste, onde mantém 23 mil hectares de eucalipto. Mas a empresa confirmou a desistência, por e-mail, pondo fim às especulações:

– Sim, o projeto de celulose no Rio Grande do Sul foi descontinuado.

A Stora Enso ficou só no Uruguai, onde as papeleiras estão sob as asas do governo, que inclusive se atrita com a vizinha Argentina por conta de reclamações sobre o impacto ambiental.

Soja compensou perdas no campo

O Brasil já é o quarto produtor internacional de celulose, com 13,97 milhões de toneladas no ano passado. A Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa) informa que as fábricas se modernizaram. O que atrapalha, na visão empresarial, são as restrições para a aquisição de terras. Querem mudanças na lei para destravar projetos avaliados em R$ 67 bilhões no país.

Ao perder a Fibria e a Stora Enso, o Rio Grande do Sul herdou maciços florestais à espera da colheita. O presidente da Federação da Agricultura (Farsul), Carlos Sperotto, diz que os produtores ficaram inseguros. Só não há desalento e desvalorização de terras graças à soja. Para Sperotto, não pairam dúvidas sobre o que rende mais:

– A soja valoriza mais a terra do que o eucalipto. É uma concorrente desleal.

A Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag) lamenta o que poderia ser qualificado de conto do eucalipto. O vice-presidente, Carlos Joel da Silva, diz que famílias venderam suas terras, incentivadas pela valorização repentina, ou descuidaram da produção de alimentos para cultivar árvores exóticas.

– A Fetag sempre alertou para a euforia demasiada. Propriedades de agricultura familiar acabaram nas mãos de grandes empresas – diz Joel.

Agricultor não colheu 62 mil pés plantados há oito anos no Cerrito

O agricultor José Luiz Caldeira Lucas compartilhou desde o início da euforia que embalou a Metade Sul quando a Votorantim Celulose Papel (VCP), hoje Fibria, anunciou a instalação de uma fábrica na região.

Plantou 62 mil pés de eucalipto, na propriedade de 171 hectares, em Cerrito, adubando a terra e as esperanças.

Passados oito anos, Lucas não se arrepende de ter sido o primeiro entre os 285 produtores que assinaram contrato de parceria com a VCP. Elogia que a empresa, mesmo tendo abandonado o projeto com a crise mundial de 2008, honrou todos os compromissos. Lamenta, é claro, a frustração dos milhares de jovens que sonhavam com um emprego.

– O entusiasmo era muito grande, mas, de uma hora para outra, foi tudo por água abaixo – conta Lucas, hoje com 65 anos.

O agricultor não pôde colher os eucaliptos, quando se fechou o ciclo de sete anos de plantio. Mas não reclama. Diz que a Fibria, que assumiu no lugar da VCP, pagou o financiamento bancário e adiantou 80% do valor da safra. O restante será corrigido, à razão de 9% ao ano, incluindo o aumento em metros cúbicos das árvores, que seguem crescendo.

– A empresa sempre nos procurou, avisou da venda para a companhia chilena (Celulose Riograndense) e cumpriu todas as cláusulas – informa.

Quando se tornou parceiro da VCP-Fibria, Lucas acreditava que o eucalipto seria a redenção dos agricultores. Em 2006, ressaltou a ZH que não queria envelhecer pobre, “tendo por saldo um amontoado de ferro-velho ao redor da casa” – referência às sucatas de arados e máquinas obsoletas que apodrecem sem uso nos pátios.

Atualmente, continua apostando no eucalipto. Sabe que a soja é a coqueluche da vez, com cotação em dólar e fartura de crédito a juros baixos, mas entende que a situação pode mudar quando a China se empanturrar do grão.

– Ainda acho que o eucalipto é um grande negócio. Uma, pela segurança. Outra, pelo compromisso de compra e o preço – diz Lucas, que também cria gado de corte e de leite.

Pelo acordo com a Fibria, ele poderá cortar os 62 mil pés em até dois anos. Até a colheita, é o fiel depositário da plantação, como os demais agricultores que se consorciaram com a empresa. Lucas não trocará o rebanho de bois e vacas. Dependendo da proposta que receber, permanecerá cultivando mudas de eucalipto.

Produtor não pode registrar fazenda em Quaraí

Ao apostar que forraria a guaiaca com a renda do eucalipto, mais do que se plantasse soja ou criasse vacas, o agropecuarista Sirlei Silveira de Miranda, 68 anos, fechou um negócio que hoje não repetiria.

Não é que se arrependa amargamente. É que não foi tão vantajoso como prometiam.

Há oito anos, ao perceber a euforia que a indústria de celulose derramava sobre a Fronteira Oeste, Miranda decidiu fazer um contrato de permuta de terras com a sueco-finlandesa Stora Enso. Trocou 1,14 mil hectares que tinha no Alegrete por 1,2 mil hectares pertencentes à empresa, localizados em Quaraí.

Miranda ficou satisfeito. Cedera campos ralos, que não se prestavam à agricultura convencional, recebendo uma área com pastagens abundantes. No entanto, não imaginava o desfecho que viria em 2008: a Stora Enso desistiu do projeto de construir uma indústria de celulose no Rio Grande do Sul, optou por investir só no Uruguai.

Não houve prejuízo no bolso, mas Miranda se aflige por não conseguir registrar em cartório a propriedade de Quaraí. A Stora Enso também ficou pendurada, porque a Lei da Faixa de Fronteira, da década de 1970, restringe empreendimentos estrangeiros nos 150 quilômetros ao longo da linha divisória com o Uruguai e a Argentina. É considerada área de segurança nacional. A Stora Enso conhecia a lei, mas confiava que seria alterada, no Congresso Nacional.

Fosse agora, Miranda não faria a permuta de áreas. Ficaria com os 1,14 mil hectares de campos no Alegrete para o plantio de soja irrigada. Antes, seria arriscado semear no local, mas a técnica de pivôs – incentivada nos últimos anos devido à rotina de estiagens – garantiria a colheita do grão mais cobiçado do momento.

– Hoje, não faria aquele negócio – diz o agropecuarista, que trocaria o eucalipto pela soja.

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