''Ressuscitar a missa pré-Vaticano II deixa a Igreja em uma encruzilhada''

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14 Dezembro 2012

O missal de 1570 (a base do missal de 1962) foi, e continua sendo, uma liturgia em que os batizados – uma vez sujeitos da liturgia e cocelebrantes do sacrifício eucarístico – foram e são reduzidos a meros espectadores. Eles estão lá para assistir o padre dizer a "sua" Missa. A ênfase é hierárquica e legalista (quem tem o poder e como exerce legalmente esse poder).

A opinião é de Ron Schmit, pároco da St. Anne Church, em Byron, Califórnia, nos Estados Unidos. O artigo foi publicado no sítio do jornal National Catholic Reporter, 08-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Foi a curiosidade e um senso de ironia que me levaram a abrir a edição do dia 1º de outubro do nosso jornal diocesano. Na capa, a manchete era "Seguindo em frente na fé", ao lado de uma foto do nosso ex-bispo vestido como um prelado de mais de 50 anos atrás. Essa era uma foto de uma liturgia na "forma extraordinária" (a missa em latim pré-Vaticano II de 1962), acolhendo um grupo de freiras carmelitas muito tradicionais na diocese.

Ultimamente, parece haver um crescente interesse por essa "forma extraordinária", em nosso jornal diocesano e entre alguns dos nossos clérigos. No passado, a minha atitude foi "e daí?". Se as pessoas gostam de antiquarismo, deixe-as gostar. Algumas pessoas gostam de passar fins de semana reencenando a Guerra Civil. Elas se vestem com trajes da época. Elas encenam simulações das batalhas dos soldados da União e dos confederados. É um passatempo inofensivo. Eu percebi, então, que as pessoas ligadas a essa "forma extraordinária" eram a versão litúrgica das sociedades de reencenação anacrônicas.

No entanto, eu tive que mudar a minha opinião. As pessoas ligadas à forma extraordinária não são como as sociedades de reencenação da Guerra Civil. Ao menos, estas pessoas sabem que estão brincando-atuando sobre um tempo que nunca pode voltar. As pessoas ligadas à forma extraordinária estão tentando seriamente decretar uma visão de mundo e uma compreensão particulares da Igreja. E essa é uma compreensão que deixamos para trás no Concílio Vaticano II . É uma visão de mundo que é incompatível com o Concílio.

A liturgia não tem a ver com gosto ou estética. É como a Igreja define a si mesma. Aqueles que rejeitaram o Vaticano II e a sua liturgia foram os primeiros a compreender a conexão entre a liturgia e a nossa autocompreensão como Igreja.

O Papa Paulo VI também entendeu isso. A rejeição da liturgia do Vaticano II é uma rejeição da sua eclesiologia e teologia. Em seu livro recém-publicado True Reform: Liturgy and Ecclesiology in Sacrosanctum Concilium, Massimo Faggioli narra a resposta de Paulo VI quando o seu amigo filósofo Jean Guitton perguntou por que não reconhecer o missal de 1962 ao separatista arcebispo Marcel Lefebvre e seus seguidores. Paulo VI respondeu:

Nunca. Essa Missa (...) torna-se o símbolo da condenação do Concílio. Eu não vou aceitar, em hipótese alguma, a condenação do Concílio através de um símbolo. Se essa exceção para a liturgia do Vaticano II fosse concedida, todo o Concílio ficaria abalada. E, como consequência, a autoridade apostólica do Concílio ficaria abalada.

Paulo VI sabia que permitir a velha forma seria não só divisivo, mas colocaria em dúvida todo o Concílio, e isso seria um pecado contra o Espírito Santo. Agora estamos experimentando o fruto infeliz da recente permissão para celebrar a forma extraordinária.

A definição de quem somos como Igreja ganha vida na liturgia. O Vaticano II descreveu a Igreja como um povo sacerdotal chamado a uma missão. Esse sacerdócio se enraíza no nosso batismo. Uma vez, o Papa João Paulo II foi perguntado sobre o dia mais importante da sua vida. Ele respondeu: "O dia em que eu fui batizado".

O batismo é a nossa participação na vitória de Cristo sobre a morte. Somos incorporados no mistério pascal do Cristo ressuscitado e agora participamos da vida de Deus. Que outro chamado maior pode haver? O casamento, a vida religiosa ou de solteiro e o ministério ordenado nada mais são do que formas específicas em que somos chamados a viver a nossa vocação batismal. É por isso que Santo Agostinho dizia ao seu povo: "Com vocês, eu sou batizado; por você, eu sou ordenado". O Concílio nos diz que o batismo chama todos à santidade.

A visão do Concílio de um povo sacerdotal em missão precisava de uma liturgia que pudesse preparar discípulos prontos para assumir as suas responsabilidades. O Concílio olhou para o passado distante da Igreja para recuperar os elementos rituais que foram fundamentais para preparar o batizado a assumir uma responsabilidade ativa da missão sacerdotal, profética e real de Cristo.

Em seu artigo Summorum Pontificum and the Unmaking of the Lay Church (Worship, julho de 2012), o estudioso Mestres Keightley, da Geórgia, identifica esses elementos recuperados da Igreja antiga pelo Concílio. Eles expressam o exercício ativo do povo sacerdotal de Deus: a oração dos fiéis, a procissão do ofertório e o beijo da paz. Eles eram sinais visíveis que expressavam o sacerdócio da Igreja. Esses sinais encarnam para o sacerdócio de todos os fiéis a missão de proclamar o Evangelho e de interceder pelo mundo e por todas as pessoas.

Ao longo do tempo, esses elementos foram perdidos ou ficaram obscurecidos. No momento em que chegamos ao Concílio de Trento (1545-1563), novas orações e ritos substituíram os ritos antigos. Keightley escreve:

Eles [as novas orações e ritos] não deram nenhum espaço para as intercessões dos leigos pelo mundo e por seu povo. Desapareceu qualquer sinal visível da oferta sacrificial de si mesmo que ganha forma naqueles esforços diários para acolher o estrangeiro, cuidar dos pobres e administrar os recursos da Terra. Também não havia permissão para aquela expressão sincera do companheirismo e da comunhão que a Igreja afirma celebrar e testemunhar. Com o seu desaparecimento, uma dimensão importante da liturgia também recuou, isto é, a apreciação da Igreja primitiva pela Eucaristia como um sacrificium laudis (sacrifício de louvor).

A liturgia que surgiu a partir da Idade Média e de Trento colocava uma ênfase diferente sobre a liturgia eucarística. O foco não estava na preparação de todos os batizados para a missão, mas sim no poder do ordenado de transformar pão e vinho. A ideia da "reconstituição incruenta do sacrifício da cruz" empurrou a "ação de graças pela criação e a consagração do mundo" para as margens da teologia eucarística. O poder do clero de tornar Cristo presente na Eucaristia ofuscou o poder da Eucaristia de transformar os batizados – equipados para tornar Cristo uma presença real no mundo através de suas vidas cotidianas. Keightley novamente:

Isso não só introduziu uma profunda divisão entre criação e redenção, mas também deu origem a uma espiritualidade laical focada estritamente na futura salvação do indivíduo, negligenciando os deveres eclesiais sacerdotais da pessoa pela renovação da criação aqui e agora.

O missal de 1570 (a base do missal de 1962) foi, e continua sendo, uma liturgia em que os batizados – uma vez sujeitos da liturgia e cocelebrantes do sacrifício eucarístico – foram e são reduzidos a meros espectadores. Eles estão lá para assistir o padre dizer a "sua" Missa. A ênfase é hierárquica e legalista (quem tem o poder e como exerce legalmente esse poder).

Em vez do Cristo ressuscitado que atua através de todo o povo de Deus (leigos e ordenados), temos um clero poderoso que ministra a um povo passivo. Em vez da Igreja como sacramento, temos a Igreja como uma hierarquia jurídica.

A tentativa de ressuscitar e popularizar a Missa pré-Vaticano II de 1962 tem sérias ramificações. Será que vamos ser uma Igreja que olha estritamente para dentro – onde Deus só é encontrado na piedade e na devoção privada, ou seremos uma Igreja como o Vaticano II a definiu – um povo cheio do fogo do Espírito com um urgente sentido de missão? Estamos em uma encruzilhada. A forma extraordinária é incapaz de nos ativar como povo sacerdotal de Deus – a visão do Vaticano II. Qual caminho iremos seguir?

Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz foram grandes reformadores da Contrarreforma católica. Assim como os participantes do Vaticano II, eles tentaram reformar a sua comunidade retornando para as fontes e restaurando a prática religiosa (descalça) que se tornou obscurecida ao longo do tempo. Eles também tiveram que lutar contra aqueles que combatiam as reformas que eles estavam iniciando. Precisamos da sua intercessão para perseverar no aggiornamento (atualização) que o Papa João XXIII inaugurou convocando o Concílio.

A perseverança irritável e alegre de Santa Teresa de Ávila está refletida em uma das frases dela que eu mais gosto: "De devoções absurdas e santos amargurados, livra-nos, Senhor!".

Amém.

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