A China e sua importação de alimentos: Quais os custos ecológicos?

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25 Setembro 2012

A dinâmica da agricultura chinesa está mudando. Espera-se da China, que ainda pode ser auto-suficiente em alimentos, entrar em uma nova era de importação de comida, principalmente de origem animal. Ainda assim, estaria o país preparado para assumir a responsabilidade dos impactos ambientais causados pela "pegada" feita no além-mar?

A reportagem é de Tom Levitt, publicada no portal China Dialogue, 10-09-2012.

Após duas décadas, a China viu um mercado expressivo para a importação de soja. Até 2030, o país irá consumir 72 milhões de toneladas de soja do exterior - mais de um quarto de toda a soja produzida no mundo hoje. 

Ambientalistas temem que as atenções se voltem para as áreas ainda não cultivadas das florestas do Brasil que é o segundo maior produtor de soja depois dos Estados Unidos e o maior expotador do grão para a China. Em 2011, mais de 67% da produção brasileira foi enviada para o país asiático. Sem nenhuma coincidencia, hoje o país sul americano é o grande alvo dos investimentos de expansão para o agronegócio chinês.

A China é um país que rapidamente irá alcançar seu limite no que diz respeito a recursos de produção agrícola. A chamada "linha vermelha" para segurança dos plantios é de 120 milhões de hectares de terra arável dada pelo governo. De acordo com Deborah Brautigam, professora na American University e pesquisadora no International Food Policy Research Institute, a solução seria importar commodities mais baratos como milho e soja enquanto deixa seus campos para produtos de mais valor como peixes e vegetais.

Numa avaliação detalhada das possíveis tendências para a agricultura chinesa em 2030, Laixiang Sun, professor na Escola de Estudos Orientais e Africanos, em Londres, explica que espera ver os números de frangos e suínos se elevarem "ao menos duas vezes e meia nos próximos 30 anos". Esse tipo de cultura consiste em produções mais baratas.

O que significa, segundo Sun, que enquanto a China ainda estiver conseguindo se suprir de graões produzidos internamente, o montante de comida no país tenderá a cair. Ele espera que as importações de milho atinjam 16 milhões de toneladas até 2030 e as importações de soja cresçam a cerca de 72 milhões de toneladas até lá.

A pegada dos alimentos importados para a China: Uma nova ameaça para a Amazônia?

A rápida expansão do cultivo da soja no Brasil nas últimas duas décadas tem contribuído para o vertiginoso crescimento na taxa de desmatamento na Amazônia - uma das regiões com maior biodiversidade e lar de 10% de todas as espécies conhecidas pelos cientistas.

A produção do grão foi responsável por aproximadamente 10% do total de desmatamento da floresta entre 2000 e 2005, de acordo com as estimativas da Columbia University. Nos cinco anos anteriores esse número caiu para 2% quando as novas plantações foram movidas para as terras que anteriormente eram pasto.

Ainda que não seja sempre a causa direta do desmatamento, a produção de soja pode ser um dos causadores indiretos por aumentar o preço das terras, empurrar os agricultores para dentro dos territórios de floresta e criar projetos de infraestrutura para o escoamento das colheitas tais como estradas que muitas vezes ficam no lugar dessas áreas de mata.

"O setor do agronegócio quer mais. A fome por desenvolvimento fez do Brasil o terceiro maior exportador de produtos agrícolas mas o modelo econômico escolhido para a região ignora o ambiente da Amazônia e a sua gente", diz o Greenpeace Brasil, numa campanha que visa o desmatamento zero até 2015.

Tragicamente, a competição por terras e recursos lucrativos na região também acaba em violência e morte. O grupo defensor dos direitos à terra Pastoral da Terra, estima que 1,6 mil ativistas foram assassinados no estado do Pará nos últimos 25 anos. A organização diz que as mortes, a maioria vitimando pequenos agricultores e indígenas, são cometidas por assassinos contratados por fazendeiros e madeireiros. Apenas 1% dos casos resultaram em prisão. 

"Uma batalha foi declarada. Demostrada em atos violentos contra todos os que são considerados obstáculos ao desenvolvimento e ao progresso", diz a Pastoral da Terra.

O desmatamento tem outro impacto global significativo, a Amazônia é a casa de espécies únicas e também de outras que são ameaçadas de extinção, além de captadora de gás carbônico, pois absorve o dióxido de carbono ajudando a estabilizar o aquecimento global. Maiores desmatamentos resultariam num efeito reverso, liberando todo o gás presentes no solo e nas árvores.

O 'boom' do agronegócio chinês

A ligação da China com o desmatamento da Amazônia não é apenas fruto da importação da soja brasileira e da expansão das empresas do agronegócio chinês no país e fora dele, ainda que sejam relativamente pequenas em comparação às gigantes como a Cargill, as companhias têm a ajuda do governo chinês na procura por novos territórios agrícolas.

Uma das maiores importadoras de alimentos da China a Chongqing Grain Group, anunciou no ano passado que estava gastando 500 milhões de dólares para construir uma fábrica de soja no Brasil e que este projeto poderia ser seguido por um investimento de milhões de dólares em futuras plantações.

A Sanhe Hopefull Grain & Oil colocou 7 bilhões e meio de dólares em instalações de processamento de soja no Brasil, numa negociação que ainda incluia a construção de uma estrada de ferro.

O porta voz do Greenpeace Brasil, Marcio Astrini, disse ao chinadialogue.com que esperava que o crescimento da influencia chinesa país não afetasse de forma tão feroz o meio ambiente no Brasil. "Acreditamos que os investimentos da China deviam respeitar o meio ambiente."

Enquanto expande o seu alcance global, o agronegócio chinês também está mudando o panorâma da antiga pequena fazenda. A nova cara da agricultura não é mais a do pequeno agricultor mas de pessoas como Liu Yonhao, presidente da New Hope Group e a quarta pessoa mais rica da China, sua empresa abate 750 milhões de aves e 8 milhões e meio de suínos ao ano e ainda é dono de outras 16 fábricas fora do país.

O professor Sun ainda espera que as pequenas fazendas de criação sobrevivam, levando-se em consideração seu posicionamento estratégico e sua utilidade nas áreas rurais onde grandes propriedades tem menos demanda por trabalhadores mas outros especialistas sugerem que os incentivos para este tipo de fazendas estão desaparecendo.

"Imagino que as grandes corporações logo irão tomar conta da maioria da produção de carne de porco da China, provavelmente em uma década ou duas", diz o professor Li Jian, da Universidade de Iowa, que estudou a queda da produção de suínos no país.

"As características tradicionais do cultivo de porcos estão sumindo, por exemplo, poucos produtores ainda dependem de chiqueiros e cada vez menos famílias dependem do crescimento dos porcos para as festividades, banquetes e etc. Sob essas novas condições socioeconômicas, cada vez menos fazendeiros irão achar a suinocultura um negócio lucrativo."

O êxodo acelerado dos criadores de animais do meio rural não trará apenas problemas de poluição mas resultará em mais pessoas nas áreas urbanas piorando alguns problemas já existentes. O Banco Mundial estima que a taxa de empregos ligados à agricultura cairá de 30 para até 12% até 2030.

"Os pequenos agricultores são capazes de produzir a quantidade necessária de alimento para seus países mas eles vêm encarando barreiras crescentes", conclui uma pesquisa recente da NGO Grain, que faz campanhas pelos direitos dos fazendeiros.

"As decisões dos governos de confiar em importações de commodities agrícolas servem apenas aos interesses do agronegócio e da sua necessidade por fontes baratas de alimento mas a um custo alto de ameaça à terra, à vida e aos sistemas locais de alimentação de várias comunidades ao redor do planeta", acrescenta.

Amazônia agora, África depois?

Depois da Amazônia brasileira, o agronegócio chinês espera juntar-se a outros especuladores internacionais na exploração de florestas e a biodiversidade africana. Por ora, o envolvimento da China em terras da África ainda é mínimo.

"Eu achava que os investimentos chineses iriam voltar-se bem mais na agricultura africana o que acabou não acontecendo. Eles foram parar na Ásia e na América do Sul", disse a professora Brautigam. Ela afirma que negociações de terras onde ficam canaviais para a produção de açúcar na Etiópia e de biocombustíveis na República Democrática do Congo não progrediram pois a China se ateve apenas a questões de mercado ao invés da segurança de sua alimentação.

Enquanto os interesses da China pela agricultura se mostram infrutíferos na África, no Brasil eles têm crescido. Agora cabe a decisão se alimentar seus cidadãos pode ser feito sem causar danos ambientais do outro lado do oceano.

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