“Eles cospem na tua cara e te dizem que és lindo”, sentencia o presidente deposto Fernando Lugo

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Por: André | 26 Junho 2012

Em entrevista ao Página/12, o presidente constitucional Fernando Lugo, destituído na sexta-feira, se livra do abraço de urso de seu sucessor, Federico Franco, que disse que Lugo é a chave para destravar o conflito externo do Paraguai.

Seus colaboradores já encontraram um título para ele: “É o presidente dos paraguaios”, como o chamam, para diferenciá-lo do cargo de presidente do Paraguai que Fernando Lugo perdeu com a destituição, na sexta-feira passada, por parte do Congresso. À noite, em entrevista ao Página/12, Lugo resumiu seu plano deste modo: “Resistência pacífica e não reconhecimento do presidente que tomou posse depois do golpe de Estado”.

Lugo parece mais recuperado que na sexta-feira, quando seu então vice Federico Franco o substituiu na Presidência. Parte de sua estratégia é interna e parte parece consistir na conquista de apoio internacional para fortalecer-se, também, entre os paraguaios.

Franco também fica nesses dois planos, a tal ponto que no domingo disse que Lugo é a única pessoa que pode evitar o conflito internacional. É uma forma de aludir aos problemas que o governo vem enfrentando com as crescentes medidas de castigo, começando pela suspensão já decidida pelo Mercosul.

A entrevista é de Martín Granovsky e está publicada no jornal argentino Página/12, 25-06-2012. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Lugo, você percebe que Franco tenta responsabilizá-lo por qualquer represália ao Paraguai?

É que não são castigos ao Paraguai. Estamos diante de um grande movimento de solidariedade internacional do qual participa o teu país. A Argentina é um país irmão, vizinho e muito próximo que conhece muito bem a realidade paraguaia.

Retirou Rafael Romá, o embaixador.

Fez o que dentro de sua soberania considerou que seria útil para a liberdade e a soberania de um país que quer a democracia, como o Paraguai.

E se a solidariedade se converter em problemas cotidianos, como você irá reagir?

Infelizmente, poderia haver muitos inocentes que sofram as consequências. Eu quero o melhor para o Paraguai. E por isso rechaçamos o regime.

Na madrugada de domingo, em frente ao prédio da televisão pública, falou de resistência pacífica. Será essa a tática?

Sim. Já começamos a resistência pacífica e um não reconhecimento do presidente que tomou posse depois do golpe de Estado parlamentar. E já se veem as manifestações de cidadãs e cidadãos. Elas existem. Crescem. São pacíficas. Expressam-se contrárias àquilo que o Parlamento resolveu na sexta-feira negra. Também vamos fazer uma reunião de gabinete.

Quando?

Às 6 horas da manhã. Vão participar todos os meus colaboradores que fizeram parte do gabinete quando estávamos no palácio de governo.

Ao se despedir dos chanceleres da Unasul disse a eles que voltaria ao seu trabalho político nas bases. Foi isso que o chanceler Héctor Timerman relatou ao Página/12.

E já começamos a fazer isso. Vamos unir forças com os movimentos sociais e sindicais.

Sempre dentro da não violência?

Sim. Sempre.

Por isso, na sexta-feira, quando o destituíram, teve uma atitude aprazível?

Efetivamente. Nos submetemos ao julgamento político parlamentar e aceitamos o veredicto para evitar derramamento de sangue. Somos contra qualquer tipo de violência e nesse dia se pressagiava violência e repressão. Hoje, já com o espírito sereno, as manifestações cidadãs são exemplares, o que se pode ver nas ruas ou nas transmissões do Canal 13 do Paraguai e como o faz a televisão pública.

É uma forma de ação política que repetirá a experiência no interior do Paraguai?

Assim mesmo. E estamos serenos para essa tarefa. Esse é o motivo pelo qual a nossa atitude de sexta-feira foi ponderada por muita gente. No Paraguai, há muita violência. Na sexta-feira os mercadores da morte estavam rondando. O julgamento era injusto, disparatado e sem argumento, mas era preciso reagir da forma como o fizemos. Era o melhor.

O dinamismo da sua atividade aumentará?

Estamos saindo e nos comunicando com a população. Hoje mantivemos uma série de reuniões com líderes sociais e políticos. A recusa está crescendo. Estou certo. Haverá uma consolidação do rechaço ao novo presidente.

Franco insiste em que o Congresso só aplicou um artigo da Constituição, que fala de procedimentos e não de tempos para o julgamento político do presidente.

Quero destacar o que disse o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos. A ferramenta do julgamento político é válida do ponto de vista jurídico e constitucional, mas os congressistas exageraram na forma.

Os congressistas poderiam lhe dizer que votaram com maioria qualificada.

É um simples acordo de cúpulas. Foi costurado pelos dirigentes dos partidos tradicionais.

Em sua primeira aparição depois de ter sido destituído, você disse que havia setores políticos vinculados ao narcotráfico. A quem se referiu?

Há muitos parlamentares acusados de ter grande participação em negócios ilícitos. O narcotráfico está dentro de alguns setores da política. Há investigações que foram publicadas, denúncias...

Próximos passos

“O nosso projeto é reforçar a presença política de Fernando Lugo”, disse a este jornal depois da entrevista um colaborador que pediu para não ser identificado.

A análise otimista dos partidários de Lugo indica que Franco não conseguirá impor a ideia de que o responsável pelo eventual isolamento do Paraguai será o presidente deposto. “As pessoas têm isso muito claro, não vemos um perigo nesse tema”, foi a opinião recolhida.

Outro ponto que os dirigentes mais próximos ao ex-presidente sopesam é que, como disse um deles, “virão tempos difíceis para o setor importador e também para o setor exportador”.

“Os setores fáticos se verão mal, cada vez pior”, disse. No Paraguai, assim como quando na Espanha alguém fala dos poderes fáticos, a expressão é utilizada no mesmo sentido que na Argentina com “establishment”.

O núncio apostólico foi o primeiro representante diplomático estrangeiro que conversou com Franco.

Dentro da Igreja Católica, mas em outro setor, dom Melanio Medina, bispo de Misiones y Ñeembucú, ironizou neste domingo em sua homilia o novo presidente: “Pobre Franco, em que briga se meteu, porque a estrutura parlamentar e capitalista não vai lhe permitir fazer nada”.

Disse que a destituição havia sido “um golpe do Parlamento” e que Lugo foi tirado por “querer lutar a favor dos pobres”.

Também Medina fez uma incursão pela análise diplomática. “Certamente, mais adiante a relação bilateral será resolvida, mas se cortarão gás e combustíveis que o país compra da Argentina”, disse, e atribuiu o assassinato de 11 camponeses e seis policiais em Coruguaty à “angurria” de proprietários de terras. Nomeou Blas Riquelme, com mais de 40.000 hectares.

A fronteira da soja se expande muitas vezes, no Paraguai, como em Santa Fé ou Santiago del Estero, com tiros para amedrontar ou atacar diretamente os pequenos proprietários de terras.

Segundo Medina, tanto no Paraguai como na América Latina inteira, há dois modelos: “Aquele que busca a igualdade social e o capitalismo, que só quer amassar fortuna e a quem não interessa absolutamente nada da situação dos pobres”.

Tanto as declarações de Lugo ao Página/12 como os comentários de seus colaboradores e o testemunho de Medina parecem marcar a busca, por parte de Lugo, da popularidade que teve no seu primeiro ano de governo, em 2008, e que foi perdendo mesmo apesar das políticas sociais e o aumento do gasto de saúde.

Desde que começou a série de discursos, a maioria de militantes de base, em frente ao prédio da televisão pública, a questão da saúde foi uma das mais repetidas entre os argumentos em defesa de Lugo. Nesse mesmo lugar se apresentou, na madrugada deste domingo, o próprio Lugo, e ali mesmo houve um indício da política que Franco quer realizar. Também na madrugada se apresentou uma pessoa de cerca de 35 anos, de feição sorridente, que disse querer também usar o microfone aberto. Afirmou chamar-se Cristian Saguier e comunicou que era o chefe do gabinete da nova direção da televisão pública. Anunciou que o governo não suprimiria o programa Micrófono Abierto e que ele estava ali “para celebrar a discussão pública”.

Esse lugar pode ser um dos pontos de observação da política paraguaia. Por um lado, e para além do nível de audiência, mais baixo que o dos canais privados, Franco quer preservar a imagem de um Paraguai democrático, de um país que não incorreu em uma ruptura da ordem constitucional. Por outro lado, está encurralado pela mesma realidade: mesmo com audiência menor, o microfone é uma referência. O resto é o que Lugo e os setores que o apóiam conseguem fazer daqui até as eleições de 2013.

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