Karl Barth e as esperanças do Concílio

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14 Abril 2012

Em 1967, a editora Claudiana editava Domande a Roma, livro que, no original, se intitulada Ad limina apostolorum, composto pela crônica de Karl Barth sobre a sua viagem do ano anterior à Cidade Eterna, além de alguns dos seus textos sobre diversos documentos conciliares e concentrados sobre temas como a Escritura, a questão mariana, a autoridade do magistério eclesiástico e a relação da Igreja no mundo.

A reportagem é de Marco Roncalli, publicada no jornal dos bispos italianos, Avvenire, 11-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Quase 50 anos depois, essas páginas retornam, confiadas a dois novos organizadores (o pastor valdense Fulvio Ferrario e o e teólogo Marco Vergottini) e enriquecidas com novos textos: uma conferência inédita de Eberhard Busch, um artigo de Barth publicado em 1963 na revista Ecumenical Review, breves correspondências (por exemplo, entre o teólogo da Basileia e Paulo VI, ou com Visser 't Hoof, o cardeal Bea, Ernst Wolf) traduzidos pela primeira vez.

O resultado é uma reedição que recupera em parte o título original (Karl Barth e il Concilio Vaticano II. Ad limina apostolorum e altri scritti, Ed. Claudiana, 156 páginas) e a recolocação de uma peça no mosaico da teologia do século XX, assim como a reconstrução historiográfica da influência barthiana no evento conciliar, no movimento ecumênico e na teologia católica posterior tão complexa (como já evidenciava Angelo Maffeis no artigo Karl Barth, un teologo tra le confessioni, publicado na revista Hermeneutica há três anos).

Sabe-se que, convidado como observador ao Vaticano II, Barth não pôde aceitar por graves motivos de saúde. Só em 1966, portanto, com o Concílio concluído, com a esposa Nelly e o médico pessoal Alfred Briellmann, é que ele chegou em Roma. E lá conheceu teólogos, professores, dominicanos, jesuítas..., conversando também com Karl Rahner e Joseph Ratzinger sobre temas como a mariologia, onde as divergências não faltavam.

Uma etapa importante, antes de retornar à Suíça, foi o encontro no dia 26 de setembro de 1966 com o Papa Montini, em que os dois conversaram, além do papel de Maria na Igreja, de ecumenismo e do apelido "irmãos separados" usado nos documentos conciliares para indicar os protestantes, depois se despedindo com uma troca de presentes: um fac-símile do Codex vaticanum por parte do papa, textos das suas obras com uma dedicação por parte do "irmão separado Karl Barth, no comum serviço do único Senhor (…) ao bispo Paulo VI, humilíssimo servo de Deus".

Seguiram-se, a essa conversa, o punhado de cartas reportadas nesse novo livro que confirma em chave "irênico-crítica" o crescente interesse barthiano pelo "catolicismo em movimento", que brotou daquele Concílio desejado por João XXIII e levado a termo por Paulo VI, apontando como "bússola segura" por João Paulo II, recomendado por Bento XVI no quadro de uma reforma eclesial inspirada por uma "síntese de fidelidade e dinâmica".

E daí se vai da carta de Barth do dia 3 de outubro de 1967 (na qual o teólogo exprime, com os votos pelo 70º aniversário de Paulo VI, a sua gratidão pela a audiência, a sua atenção aos trabalhos do Sínodo dos Bispos reunido em Roma naquele período) à resposta do Papa Montini dirigida ao "estimadíssimo professor" no dia 14 de novembro de 1967, em que se reconhece no destinatário "um estudioso que busca corajosamente a verdade e que traz muito no seu coração o pensamento da comunhão fraterna em Cristo".

A esse documento manuscrito seguiram-se dois de Barth (nos meses anteriores gravemente doente): de 16 de março e de 28 de setembro de 1968, depois de ter recebido os dois volumes sobre Pedro e Paulo publicados em preparação ao Jubileu de 1969 pelo martírio dos dois apóstolos: lidos pelo teólogo "não sem sérias perguntas de natureza teológica, histórica e até mesmo estética".

Sobre o livro de Pedro, a propósito do desenvolvimento da teologia pós-conciliar católico-romana, Barth confessa: "Eu também, como frater sejunctus, acompanho esse desenvolvimento com intensa atenção, até mesmo somente pelo fato de estar em estreito contato pessoal com mais d um dos seus expoentes. E posso dizer que, em todo caso, algumas das preocupações que Vossa Santidade expressas a esse propósito não são estranhas nem mesmo a mim".

Sobre o de Paulo, Barth manifesta a sua apreciação na escolha da "Epístola aos Romanos, que se tornou tão importante para a história da Igreja inteira", reconhecendo a convergência de apreciações "na esperança de que a mesma coisa, como ocorreu até aqui, assim também no futuro, possa acontecer, também em questões ainda mais importantes, entre Roma e Genebra". Também não falta, na missiva, com uma reflexão sobre o "poder das chaves", uma longa referência à encíclica Humanae Vitae (que publicamos abaixo).

Encerrado o volume, o Barth das origens, protestante combativo, adverso ao catolicismo, não só parece muito distante, mas a sua atitude perante o Vaticano II também é o de "uma abertura de crédito" (segundo Vergottini) de grande significado, enquanto o pensamento católico se delineia diante dos seus olhos, escreve Ferrario, "como uma séria interrogação dirigida à teologia evangélica, um chamado ao essencial, isto é, à realidade de Deus".

* * *

O respeito pela "solidão heroica" de Paulo VI diante das questões da Humanae Vitae

por Karl Barth

Basileia, 28 de setembro de 1968

Santo Padre! (…) No que se refere à encíclica Humanae Vitae, tenho que estudar o seu significado e a sua recepção, em particular com a escolta de inúmeras declarações de origem católico-romana, e portanto não gostaria aqui de tomar posição sobre o seu conteúdo material. Sobre isso, se encontraria melhor colocado o meu médico e amigo católico Dr. Briellmann, que há dois anos, dela participou.

O problema, que, por ocasião da encíclica se tornou tão ardente, da autoridade na Igreja, seguramente é uma questão que, embora certamente se refira também a nós, deve ser discutido e, de um modo ou outro, resolvido no âmbito da Igreja Católica (no sentido estrito da palavra).

O ponto que, nessa discussão, me inquieta é o problema teológico fundamental da "lei natural", que, na encíclica, é adotado de um modo repleto de conseqüências – ou, melhor: a sua valorização como segunda fonte da revelação –, e, do lado dos críticos do seu texto, a "consciência" da pessoa individual ou do cristão individual, que é creditada com uma função correspondente.

No longo caminho da minha relação com a teologia, se tornou impossível para mim, nesse ponto, caminhar com Tomás de Aquino, em cujo caminho, juntamente com Vossa Santidade, se movem tanto os amigos quanto os críticos da encíclica e, além disso, muitos não católicos-romanos também. Desse ponto de vista, eu não posso, de minha parte, nem considerar a encíclica como convergente com a bela constituição Dei Verbum do último Concílio, na qual eu não acho que se fale nem de "lei natural" nem de "consciência" como fontes da revelação.

Apesar dessa séria diferença, que eu não quis calar, o senhor pode estar certo do meu alto respeito diante da solidão, que pode ser bem definida como heróica, na qual o senhor, Santo Padre, juntamente com os seus colaboradores mais estreitos, agora se encontra, sobretudo...".

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