Por que o ser humano precisa de insetos. Entrevista com Edward Wilson

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18 Fevereiro 2012

Edward Wilson, chamado de herdeiro de Darwin, explica a importância da "biodiversidade". "Devemos proteger todas as formas de vida: são indispensáveis para o nosso futuro".

A reportagem é de Piergiorgio Odifreddi, publicada no jornal La Repubblica, 13-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A história da biologia repousa sobre alguns pilares, que são os organismos sobre os quais nos concentramos para estudar as folhas daquela que Darwin chamou de "a árvore da vida". O objetivo, obviamente, é chegar a compreender os seus ramos, seu tronco e suas raízes, e talvez até a semente que a gerou. Ou seja, chegar a resolver o problema complementar ao abordado pelo próprio Darwin em A Origem das Espécies: não só como a vida evoluiu e se diversificou, até chegar à sua complexidade atual, mas também, até, como ela nasceu.

Muitos cientistas se dedicaram ao estudo de um organismo particular e muitas vezes obtiveram fama e honras disso. Por exemplo, nos casos da bactéria Escherichia coli, do verme Caenorhabditis elegans e da mosca Drosophila, que levaram ao Prêmio Nobel cerca de 20 estudiosos. Subindo na escada evolutiva, os tentilhões e os pombos de Darwin pertencem agora à história do evolucionismo.

Se quisermos nos aproximar da mirmecologia, como é chamada em linguagem técnica esse estudo (do grego myrmex, "formiga"), no entanto, talvez seja melhor começar por Anthill, "Formigueiro" (Ed. Elliot), que se apresenta no formato mais acessível do romance. Um romance estruturado em seis partes, como os hexápodes que Wilson estudou por toda a vida. E que conta a história de um menino muito parecido com ele, precocemente apaixonado pelas formigas e pelo seu mundo.

Um dos motivos de interesse pelas formigas é que elas fornecem o exemplo mais conhecido de insetos altamente sociais. A tal ponto que podem ser considerados como verdadeiros organismos não as formigas individuais, mas sim os formigueiros coletivos. Esse aspecto é abordado em detalhe por Wilson e Hölldobler no seu último superlivro, Il superorganismo (Ed. Adelphi).

Os superorganismos mirmecológicos, no entanto, são apenas uma organização biológica supraindividual particular. Há muitos outros exemplos no reino animal: por exemplo, entre os corais, as abelhas, as vespas, os cupins, os peixes, os pássaros, os golfinhos, os elefantes, os leões, os lobos, os macacos. E, obviamente, o homem. Chega-se, assim, de maneira natural, ao estudo proposto por Wilson em 1975, no seu discutido livro Sociobiologia (Ed. Zanichelli, 1979). Um termo, este, que pretende indicar uma "nova síntese" entre sociologia e biologia, que dê conta das "bases biológicas do comportamento social".

A discussão sobre a sociobiologia nasce do fato de que ela tende a sublinhar e enfatizar as raízes genéticas e os mecanismos seletivos do comportamento, e, em geral, os fatores naturais, em detrimento e descrédito daqueles culturais. Muitos cientistas e humanistas, portanto, reagiram duramente à nova disciplina, acusando-a de determinismo genético e de legitimação do status quo sociopolítico. Essa longa premissa serve para introduzir os muitos pontos da minha conversa com Wilson.

Eis a entrevista.

Qual a importância do estudo das formigas na biologia?


Estranhamente, ele não começou seriamente a não ser na metade do século XIX.

Como o senhor o situaria no espectro dos estudos de outros organismos, como a bactéria Escherichia coli, as abelhas de von Fisch e os gansos de Lorenz?

No mesmo nível, ou um pouco menos. As formigas estão entre os organismos mais avançados do ponto de vista da organização social animal, e a realizam das formas mais disparatadas. E são também insetos dominantes.

A propósito de Lorenz, o senhor foi influenciado pelo seu trabalho?

Profundamente. Sobretudo quando o encontrei e o ouvi falar, no início dos anos 1950. Os estímulos que ele chamava de releaser, "liberador", me inspiraram a encontrar o feromônio, que no início eu chamei justamente de "liberador químico". E também a tentar decodificar, juntamente com outros, o sistema de comunicação das formigas.

Quando começou seu interesse pelas formigas, que o senhor chamou, em sua autobiografia, de um "transe naturalista"?

Aos nove anos. Mas isso acontece com muitas crianças: a diferença comigo é que eu nunca cresci.

Quanto há do senhor no personagem Raff, do seu romance Anthill?

Um pouco. Com efeito, a adolescência de Raphael Cody é semelhante à minha.

Que semelhanças e diferenças há entre os superorganismos das formigas e das sociedades humanas?

As semelhanças estão na complexidade da comunicação e na divisão do trabalho. As diferenças, na individualidade e no desejo de reprodução, que são traços gerais, senão até mesmo universais, da humanidade.

Mais em geral, o que as formigas podem nos ensinar sobre a natureza humana?

Não muito. As formigas são quase completamente guiadas pelo instinto e aprendem muitos poucos comportamentos. Os homens, ao invés, são apenas parcialmente guiados pelo instinto e têm uma enorme capacidade de aprendizagem.

Portanto, não foi a partir de um paralelo com as formigas que o senhor chegou à sociobiologia?

Gostaria de esclarecer uma coisa. A sociobiologia, como eu a concebi cientificamente em 1971, é o estudo sistemático das bases biológicas de todas as formas de comportamento social nos animais, incluindo os humanos. E não é, como ao contrário foi muitas vezes mal entendida no passado, o estudo dos instintos dos seres humanos.

Como responderia, então, às críticas que foram levantadas contra ela?

Que essas críticas, justamente, estavam focalizadas na segunda definição, a incorreta.

Mesmo as de Lewontin e de outros, por exemplo no seu livro Il gene e la sua mente. Biologia, ideologia e natura umana?

Lewontin acreditava que o cérebro humano era completamente imune a instintos e que a biologia deveria ser consistente com a teoria marxista. Mas é desde os anos 1970 que ninguém mais acredita nessas coisas, pelo menos entre os biólogos.

Entre as suas grandes preocupações, estão a biodiversidade e sua conservação. Por que é tão importante preservar o número e a diversidade de todas as espécies?

Porque o resto da vida, que é justamente o significado da palavra "biodiversidade", é a herança mais preciosa e vulnerável para o ser humano. E a sua sobrevivência é essencial para a nossa.

No seu livro A Criação (Ed. Companhia das Letras, 2008), o senhor propõe uma aliança entre ciência e religião, para salvar a biodiversidade. Mas como é possível se aliar quando ciência e religião se combatem no fronte da visão do mundo?

Pessoalmente, acho que as histórias da criação propostas pela religião são impossíveis de reconciliar com a ciência. Mas isso não impede que aqueles que aderem, em teoria, a duas visões antitéticas do mundo não possam depois cooperar, na prática, pela conservação da biodiversidade.

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