Crescimento populacional e as relações católico-muçulmanas

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09 Julho 2011

O Vatican Insider, o novo portal da Internet operado pelo jornal La Stampa, na Itália, já se destacou como uma valiosa fonte de notícias e de comentários sobre a cena católica global. Dois itens da semana passada são especialmente interessantes.

A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 08-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Primeiro, Giacomo Galeazzi fez uma entrevista com Ettore Gotti Tedeschi (foto), presidente do Banco do Vaticano, sobre uma recente projeção da Organização das Nações Unidas de que a população mundial deve cruzar a marca dos sete bilhões no dia 31 de outubro. Antes de sua ida ao Vaticano, Gotti Tedeschi, um leigo, era um dos principais economistas da Itália, e ele argumenta que o crescimento populacional é bom para os negócios: "Os países com as maiores taxas de crescimento econômico e de poupança são aqueles mais populosos", disse.

Em poucas palavras, Gotti Tedeschi prevê um futuro econômico sombrio para o Ocidente, especialmente para a Europa, por causa de sua baixa taxa de fertilidade e envelhecimento rápido da população. Nesse contexto demográfico, diz ele, a dívida aumenta, a população em idade ativa se contrai, a atividade produtiva se desloca para outros lugares, e os impostos sobem (na Itália, onde a taxa de natalidade permanece bem abaixo do nível de reposição, os impostos subiram de 25 a 50% do PIB nos últimos 30 anos).

Gotti Tedeschi, na verdade, afirma que a baixa fertilidade está por trás da crise fiscal mundial que começou em 2008: "A verdadeira causa da atual crise econômica não deriva da avidez do sistema bancário, nem da corrupção dos governos", afirma, "mas sim do colapso demográfico que atingiu países avançados a partir dos anos 1970".

Enquanto isso, diz Gotti Tedeschi, as nações com grandes populações estão apresentando ganhos econômicos robustos, e a China e a Índia são os exemplos mais óbvios. Um vasto reservatório de poupanças na China, criado por uma enorme população em idade ativa, permitiu que o país subscrevesse a dívida pública dos Estados Unidos, enquanto, ao mesmo tempo, criava uma "pegada quase-colonial" nas regiões do mundo com matérias-primas valiosas (claro, nestes dias, a política chinesa do filho único está criando suas próprias dores de cabeça demográficas; o rápido envelhecimento levou alguns especialistas a sugerir que a China pode ser a primeira nação na história a ficar velha antes de ficar rica).

De um ângulo católico, o que é interessante sobre a entrevista de Gotti Tedeschi é que ela reflete uma mudança no repertório conceitual do movimento pró-vida ao longo das duas últimas décadas. Recentemente, na a encíclica de João Paulo II Evangelium Vitae, de 1995, os argumentos contra a contracepção e o aborto, e a favor do matrimônio e da família, era em grande parte construídos sobre bases morais e pronunciados nos termos da lei natural.

Com o surgimento da "nova demografia" nos últimos 20 anos – projetando um crescimento de curto prazo, mas com uma contração de longo prazo da população global, juntamente com a turbulência no Ocidente causada por uma explosão populacional de idosos sem um número proporcional de jovens trabalhadores –, o quadro mudou. Há um sentimento crescente entre os líderes pró-vida de que as tendências demográficas oferecem uma confirmação empírica da sua posição.

Sob essa luz, é interessante que o principal comentário do Vaticano sobre o relatório da ONU sobre a população até agora tenha vindo não de um moralista, mas sim de um banqueiro. Talvez, seja um prenúncio do que está por vir: no futuro, os porta-vozes pró-vida mais eficazes não serão teólogos ou pregadores, mas sim economistas, gurus das finanças e gestores de fundos de pensão.

Relações católico-muçulmanas

O segundo item: o Vatican Insider confirmou que o príncipe Ghazi bin Muhammad (foto), da Jordânia, irá participar da cúpula inter-religiosa que o Papa Bento XVI pretende promover em Assis, no dia 27 de outubro, comemorando a famosa assembleia convocada por João Paulo II em 1986 para rezar pela paz. Ghazi é um ator principal no cenário islâmico mundial, e sua presença deve garantir que o evento de outubro tenha um alto perfil.

Todo mundo se lembra da tempestade de fogo que o discurso de Bento XVI em setembro de 2006 em Regensburg causados nos círculos muçulmanos, mas o que muitas vezes é menos apreciado é o progresso nas relações católico-muçulmanas que ocorreu pós-Regensburg. Ghazi tem sido uma importante força nesse sentido.

Em 2006, Ghazi escreveu a Bento respondendo ao seu discurso de Regensburg – não de uma forma polêmica, mas explicando como ele vê a relação entre fé e razão no Islã. Em 2007, o Real Instituto al-Bayt para o Pensamento Islâmico, de Amã, dirigido por Ghazi, preparou o A Common Word [Uma palavra comum], um documento assinado por 138 pensadores e clérigos muçulmanos de renome, estabelecendo uma base teológica para as relações com o cristianismo.

Por sua vez, a viagem do Papa Bento XVI à Jordânia, em 2009, foi a plataforma para o discurso mais importante do pontífice sobre as relações com o Islã. Em Amã, Bento XVI propôs uma grande "Aliança das Civilizações", cujo núcleo era a ideia de que cristãos e muçulmanos são aliados naturais na resistência ao hipersecularismo e ao exílio da religião da vida pública. Bento XVI visitou a Mesquita al-Hussein bin Talal, em Amã, onde foi acolhido por Ghazi – que pronunciou, segundo a maioria dos relatos, um dos discursos mais impressionantes da viagem.

Como a notícia do Vatican Insider observa, há um subtexto político óbvio na amizade florescente de Ghazi com o papa.

A família real Hachemita da Jordânia há muito tempo se vê como uma rival dos sauditas para a liderança do mundo islâmico, e delinear o seu príncipe herdeiro como o primeiro interlocutor muçulmano junto à figura percebida nas ruas muçulmanas como o CEO do cristianismo global serve a essa agenda. Além disso, a dinastia jordaniana está se esforçando para se isolar dos ventos de mudança democrática que sopram em todo o Oriente Médio, e assumir uma postura moderada nas relações com o Ocidente pode ajudar.

Como o orgulhoso patrono do corpo diplomático mais antigo do mundo, o Vaticano não é ingênuo com relação à dimensão política do que Ghazi está prestes a fazer. Essa consciência, entretanto, não impedirá que o Vaticano estenda o tapete vermelho para ele em outubro, talvez com base nesta lógica: por que as políticas intramuçulmanas não poderiam realmente favorecer o diálogo uma vez, ao invés de sempre irem na contramão?

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