Buscando o "neurônio de Deus"

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14 Junho 2011

Antecipamos um resumo do verbete "Neuroteologia", escrito pelo teólogo italiano Alberto Melloni para o dicionário La Mente, do Instituto da Enciclopédia Italiana Treccani.

Trata-se de uma obra que visa a tratar, como um único campo de estudos, o complexo das disciplinas que se ocupam do cérebro (humano e animal), da mente e da psique, traduzindo seus conteúdos na forma de um dicionário acessível a todos.

O texto foi publicado no jornal Corriere della Sera, 13-06-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O interesse pela relação entre cérebro e experiência religiosa não nasce com a ciência moderna ou com a filosofia da mente. A hermenêutica bíblica do homem imago Dei, as tradições do Oriente, a teologia do logos, a doutrina dos "sentidos" espirituais das teologias cristãs, a pretensão de "racionalidade" da revelação corânica constituem um patrimônio imenso de figuras e de interesses. Um patrimônio que explica por que Descartes buscava localizar a alma em uma glândula do cérebro e por que a relação da religiosidade com a mente e o cérebro desperta tanto interesse no século XX. Seria equivocado representar essa busca como um banal conflito fé-ciência.

Porque, para alguns – nem sempre, nem todos –, a ciência não é um método, mas sim um juiz ao qual se deve pedir que "demonstre" quer a ilusão, quer a solidez do ato religioso. Tanto aqueles que acreditam provar que a ideia Deus é uma mera função interna do pensar, quanto aqueles que pensam que a própria existência de funcionalidades "espirituais" no cérebro deveria convencer a todos que um projeto superior preside a evolução da nossa racionalidade – tanto uns quanto outros compartilham um campo que frequentemente é chamado de "neuroteologia" (uma expressão do escritor de ficção científica Aldous Huxley).

Para uns e para outros, a experiência religiosa é identificada com um estado de satisfação, de felicidade quieta, de aquisição de "sentido" como garantia do eu, uma "sensação" pacificada: uma visão que a literatura conhece bem – como explicava já a descrição do paradisíaco instante que precede o ataque epilético em O Idiota, de Dostoiévski – e que é absolutizada. É uma história que inicia já com William James (1842-1910). O psicólogo de Harvard, de fé calvinista, aborda o tema de modo apodíctico e pragmático: a mente sadia pensa Deus em positivo como uma ajuda, enquanto a mente doente vive a fé como expressão de angústia.

Mais tarde, James H. Leuba (1867-1946), rígido "naturalista", encontra na religião, entendida como experiência extática, uma expressão primitiva e repetível também graças a substâncias estupefacientes. Essas teorias da psicologia da religião e as suas evoluções se tornarão, nos anos 1950, objeto de experimentos, coerentes, porém, com a ideia de que a "sensação" é a semântica do religioso.

E quando Wilder Penfield (1891-1975) descobre que uma estimulação elétrica do lobo temporal direito produz estados extáticos, abre-se um novo filão que se concentra sobre essa patologia e sobre as suas analogias com a meditação mística. Em parte, essa pesquisa se move em uma direção declaradamente antirreligiosa. Ainda em 1994, Laurence O. McKinney escreve que o sentimento religioso, mesmo na variedade das formas que assume, é "universal" só porque o desenvolvimento cerebral impede que se recupere informações suficientes sobre a infância, e esse "vazio" gera a pergunta sobre "de onde viemos", à qual o fato religioso se encarrega de responder.

Há algum tempo, no entanto, um médico canadense – Michael Persinger, que se apresenta como um libertador da mistificação religioso e é contestado por manifestações de evangélicos enfurecidos – recorre a um "instrumento" para demonstrar experimentalmente a mesma tese. Ele inventou um "capacete" que produz distúrbios magnéticos, durante os quais o lobo temporal faria a "experiência" de um Deus: finalmente desmascarado como efeito elétrico... Tendo funcionado perfeitamente com muitos de seus estudantes, o "capacete" só dá sérias enxaquecas em voluntários de nível maior e de ateísmo certo como Richard Dawkins...

Através da tomografia por emissão de fótons únicos, Andrew Newberg, Eugene D’Aquili e Vince Rause monitoraram o cérebro de religiosos em meditação. A descoberta dos centros ativos da prática religiosa demonstra uma atividade do córtex pré-frontal: o fato de a meditação funcionar como um hiperquiescência [alto grau de quietude] basta, segundo eles, para demonstrar que "o cérebro tem uma capacidade inata (built-in) de transcender a percepção de uma eu individual" e que, portanto, o que se chama usualmente de religiosidade é uma função sua.

O sarcasmo anticartesiano de Spinoza certamente teria definido essa descoberta de uma "qualidade mais oculta" do que a que se queria descobrir. O que acontece, no entanto, é que muitos cientistas percorrem a o mesmo caminho em sentido apologético: os nomes de Harold König e Esther M. Sternberg são muito citados por quem defende, a partir dos estudos sobre o nexo entre cérebro e sistema imunitário, que a menor incidência de doenças na população "religiosa" seria a prova de uma empírica "salutariedade" da fé. E James H. Austin, com o seu Zen and the Brain, demonstra os efeitos benéficos da meditação sobre mente e cérebro: o que entusiasma os defensores de uma apologética do religioso com base científica.

Porque – é a tese de Wentzel van Huyssten – a ideia do imago Dei seria o código cifrado dessas descobertas: a religiosidade como atitude essencial do ser homem seria demonstrada pela neuroteologia, porque diria que mente e cérebro têm os códigos para compreender o amor de Deus. A esse upgrade da pesquisa neurológica a critério de desconstrução da experiência religiosa, típica das espiritualidades fundamentalistas, opôs-se o apelo de teólogos e cientistas a uma certa "neuro-humildade". Instrumentos de pesquisa altamente refinados demonstram apenas saber identificar os correlatos neurais dos estados mentais próprios da experiência religiosa: nem mais, nem menos.

A tentativa de reduzir Deus a movimentos de neurônios e o de usar os neurônios para demonstrar sua existência se movem em um beco sem saída de ambos os lados. Se há uma área do cérebro ativada pela meditação religiosa, isso não significa que neurologia e teologia deixaram de ter tarefas diferentes e métodos aos quais cada uma deve se ater. Onde o teólogo defende a liberdade do indivíduo, o cientista descobre que crença, agnosticismo e incerteza fazem à sua pesquisa uma única e idêntica pergunta.

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