''Habemus Papam'': uma avalanche de aplausos em Cannes, e no fim Moretti chora

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15 Mai 2011

Grande sucesso na exibição ao público do trabalho de Moretti que concorria nesta sexta-feira no festival de Cannes. O diretor se comoveu com os longos aplausos.

A reportagem é de Curzio Maltese, publicada no jornal La Repubblica, 14-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Muitas risadas, algum silêncio comovido, no fim aplausos generosos, mas não irresistíveis, como aqueles que há dez anos anunciaram ainda na sala de exibições a Palma de Ouro a O Quarto do Filho. Essa foi reação dos jornalistas. Na tarde, na projeção para o público, as emoções foram multiplicadas por três. E, consequentemente, a comoção de um Moretti raramente em lágrimas (foto).

Cannes acolheu Habemus Papam pelo que é. Metade uma obra-prima, um filme genial na ideia e na essência, mas com algumas oportunidades perdidas. E, mesmo assim, como um filme. Não é o pretexto para convocar uma assembleia política de fanáticos pró e contra. De um lado, os exaltadores de Moretti, enquanto líder ideal da oposição. De outro, os detratores de plantão, os odiadores ideológicos do "esquerdismo" encarnado. Ele, Nanni Moretti, é o primeiro a se rebelar contra isso.

"A coisa mais bonita destes dias é que o meu filme foi colocado novamente em seu lugar. Gostando ou não, estamos falando de cinema e do filme, não de mim apenas. Ninguém me pergunta por que eu ainda faço filmes autobiográficos ou por que eu não os fiz. Ninguém me diz, mas por que você não nos dá primeiro o roteiro? O que você diz de Berlusconi? Por que você não faz mais sobre os manifestantes de esquerda? Por que você os fez? De um a dez, o quanto você é antipático? O quanto você é idiota?".

Visto novamente em Cannes, Habemus Papam se confirma como um filme importante e imperfeito, grande nos méritos e às vezes nos defeitos, que talvez não ganhará a Palma de Ouro, mas certamente merece "começar aqui uma viagem para o mundo", como deseja o autor. Outro é o discurso para o protagonista, Michel Piccoli, ao qual deveriam dar o prêmio de melhor ator desde o início, além do Oscar e do Nobel da Recitação, quando for instituído.

Na verdade, Habemus Papam também mereceria recomeçar uma outra viagem na Itália. A ideia de implantar um novo Celestino V nos nossos dias não é apenas um objeto fantástico. Com o tempo, se revelará talvez uma intuição profética, assim como foram os outros filmes de Moretti no passado. Como Ecce Bombo, sobre o fim do movimentismo, filmado em pleno 1977. Palombella Rossa, sobre a crise da esquerda italiana, pensado quando ainda existia o Partido Comunista. Sem falar de Caiman, mais atual hoje do que naquele tempo.

Este é um filme sobre uma crise epocal da Igreja Católica, talvez a pior jamais enfrentada em 2 mil anos de história. E se Moretti tende a minimizar as reações duras da hierarquia vaticana, repetindo que não quis fazer um filme "contra a Igreja", muito menos "de denúncia", a realidade é que justamente a natureza dessas reações indicam a força do filme.

Porque o verdadeiro segredo terrível do Vaticano de hoje não está nos escândalos do IOR ou dos pedófilos, nas tramas mil vezes contadas no cinema ou nos jornais, mas sim na perda de sentido, na incapacidade de dizer e fazer algo de decisivo na sociedade. Na fraqueza, até mesmo na irrelevância, que se manifesta até nas ocasiões mais felizes e acompanhadas, como a beatificação de João Paulo II. Em que o sentimento predominante era a nostalgia aguda de um papa muito amado, que marcou sua própria época, e do qual não se entrevê nem de longe um verdadeiro possível sucessor, no presente e no futuro. "Jamais haverá um papa como ele", dizia um fiel na Praça de São Pedro. Na metáfora de Moretti, isso se tornou a impossibilidade quase física de ser papa. Torna-se o passo desperdiçado e fugaz de Michel Piccoli pelas ruas de Roma.

Ao lado desse talento profético e de cenas de uma força extraordinária, como a angústia noturna dos cardeais, em Habemus Papam certamente encontram-se quedas desnecessárias, vícios, até mesmo incongruências. Moretti reivindica como é justo o direito do artista de pôr em cena seu próprio papa e seus próprios cardeais, sem obrigações de realismo; e paciência se se assemelham mais com o Pe. Camillo do que com Bertone ou Bagnasco.

Mas reduzir o encontro entre psicanálise e religião, um tema tão fascinante e inédito, a uma série de piadas, alguns jogos e dois esboços de analistas neuróticos, parece ser um pouco desilusório. Trata-se de detalhes, mas os detalhes são importantes quando se tem nas mãos uma possível obra-prima. Moretti, no entanto, parece feliz assim, satisfeito com o sucesso italiano (até agora 5 milhões de euros de bilheteria) e curioso do mundo, de como o filme será acolhido de Cannes em diante.

E todos nós estamos felizes porque Moretti e seus filmes tenham existido ao longo dos anos, quando eram quase os únicos que ainda faziam falar do cinema italiano e agora quando os tempos estão mudando. Satisfeitos em ver a sala de imprensa de Cannes cheia de jornalistas de todo o mundo, como não acontecia há uma década ou mais para um filme italiano.

Então, em todo o caso, obrigado, Nanni.

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