O que fazer com o cardeal Angelo Sodano?

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06 Maio 2011

Em Roma e em círculos católicos de todo o mundo, uma questão está silenciosamente circulando, questão que só o Papa Bento XVI pode responder: o que fazer com o cardeal Angelo Sodano (foto), o ex-secretário de Estado do Papa João Paulo II, que ainda detém o posto de decano do Colégio dos Cardeais?

A análise é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 06-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Se Bento morresse hoje, seria Sodano, 83 anos, que presidiria as reuniões diárias da Congregação Geral dos cardeais, que moldam as discussões que levam à eleição do próximo papa. Também seria Sodano que presidiria a missa fúnebre do papa falecido e que celebraria a Missa Pro eligendo Romano Pontifice , a "Missa para a eleição do Romano Pontífice", que é o último ato público antes do conclave.

Sodano, em outras palavras, seria o rosto da Igreja Católica durante o interregno papal – um momento em que os olhos do mundo inteiro estão diretamente sobre Roma.

Qual é o problema com isso? Em poucas palavras, Sodano tem um histórico problemático tanto em palavras quanto em atos em torno da crise dos abusos sexuais. Sem dúvida, ele não gerou a reação pública que, por exemplo, o cardeal Bernard Law enfrentou em Boston. No entanto, se Sodano estiver na frente e no centro durante o interregno, a sua história poderia facilmente se transformar em uma causa célebre.

De certa forma, é claro, é injusto reduzir o legado Sodano inteiramente ao seu perfil na crise. Ele teve uma carreira diplomática longa, embora polêmica (o seu papel diante do regime do regime Pinochet no Chile como núncio entre 1978 a 1988 ainda está em discussão) e serviu a João Paulo II durante 15 anos em um dos postos mais complexos do Vaticano.

Ambivalência e negação

Aos olhos das pessoas mais escandalizadas com a crise dos abusos sexuais, no entanto, Sodano se tornou um símbolo da ambivalência e da negação que elas ainda associam à resposta do Vaticano.

Primeiro, Sodano é conhecido como talvez o defensor mais firme no Vaticano do falecido padre mexicano Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo. Os Legionários reconheceram que Maciel foi culpado por uma vasta gama de más condutas, incluindo o abuso sexual de ex-membros. No fim de 2005, enquanto a Congregação para a Doutrina da Fé, sob o então cardeal Joseph Ratzinger, estava chegando à conclusão de que Maciel era culpado, a Secretaria de Estado, sob Sodano, emitiu uma declaração pública negando que houvesse qualquer processo contra ele.

Em segundo lugar, o cardeal Christoph Schönborn, de Viena, acusou, em maio de 2010, que havia sido Sodano que bloqueara uma investigação contra o antecessor de Schönborn, o cardeal Hans Hermann Groër, quando Groër enfrentou acusações de abuso sexual na década de 1990. (Na época, Schönborn e outros bispos austríacos anunciaram que estavam "moralmente convencidos" da culpa de Groër.) Embora Schönborn tenha pedido desculpas mais tarde por repreender publicamente um colega cardeal, ele nunca se retratou da substância da acusação.

Em terceiro lugar, foi Sodano que provocou indignação internacional no ano passado ao usar a Missa de Páscoa do Papa Bento XVI como plataforma para comparar as críticas à Igreja devido à crise dos abusos sexuais a "fofocas mesquinhas".

Isso pareceu estar em desacordo com o próprio comentário de Bento XVI, incluindo sua famosa referência na Sexta-Feira Santa, em 2005, à "sujeira" na Igreja. De fato, o furor em torno da frase sobre as "fofocas mesquinhas" de Sodano realmente não morreu até que Bento aproveitou uma pergunta a caminho de Fátima, Portugal, e respondeu que o verdadeiro problema não são os ataques de fora, mas sim "a realidade de pecado dentro da Igreja".

Em quarto lugar, Sodano recentemente enfureceu as águas novamente com a sua resposta a uma pergunta sobre Maciel durante o período de preparação à beatificação de João Paulo II.

"Como você pode, em um momento tão bom, fazer referência a questões tão periféricas quando o mundo está aplaudindo o papa?", disse Sodano em uma exposição no Vaticano que homenageava o falecido Papa. "Estou chocado."

Independentemente do que Sodano quis dizer, o que estava em jogo para muitas pessoas era que Sodano chamou o sofrimento das vítimas de abuso sexual de uma preocupação "periférica".

Além desses pontos, há também a brisa do escândalo financeiro. Em 2008, o empresário italiano Raffaello Follieri foi condenado a quatro anos e meio de prisão em Nova York por ter enganado investidores em milhões de dólares. Ele construiu o esquema negociando laços com o Vaticano, em particular com Sodano.

Sem dúvida, os que estão inclinados a dar a Sodano o benefício da dúvida poderiam argumentar que há formas para explicar tudo isso. Porém, a questão continua sendo que, em termos de percepção pública, ter o cardeal Angelo Sodano na frente e no centro quando quer que o papa morra seria contraprodutivo para uma Igreja que está tentando convencer o mundo de que ela virou a página.

As opções do papa

O que Bento XVI poderia fazer? Em teoria, existem pelo menos três possibilidades, embora uma delas seja bastante improvável.

Em primeiro lugar, Bento XVI poderia revogar o status de Sodano como cardeal. Esse é um passo extremo, mas há precedentes (como o cardeal Francis George, de Chicago, disse recentemente em uma entrevista ao NCR, "tudo já aconteceu na Igreja ao menos uma vez").

Ainda em setembro de 1927, o Papa Pio XI tirou o chapéu vermelho do cardeal Louis Billot, da França, que havia se recusado a seguir o decreto de Pio a retirar o apoio dos católicos do movimento monarquista de extrema direita Action Française (Pio sentiu que alguns dos líderes do movimento estavam manipulando a Igreja para marcar pontos políticos).

Esse passo com Sodano, no entanto, é profundamente improvável. Por um lado, ele e Ratzinger serviram juntos a João Paulo II, e Sodano foi, na verdade, o secretário de Estado de Bento no início do seu pontificado. Além disso, não está claro se Sodano é culpado de desafiar diretamente a autoridade papal.

Em segundo lugar, Bento XVI poderia pedir silenciosamente que Sodano renuncie ao cargo de Decano do Colégio Cardinalício. O cardeal Bernardin Gantin fez isso em novembro de 2002, retornando ao seu Benin natal, onde morreu em 2008.

Caso Sodano pule fora, os cinco cardeais-bispos restantes elegeriam um deles para assumir. A escolha mais provável seria o cardeal francês Roger Etchegaray, 88, atualmente o vice-decano. Apesar de sua idade, Etchegaray está em boa saúde. Além disso, ele é um antigo embaixador da boa vontade para o Vaticano, com uma personalidade graciosa e afável e sem nenhuma história problemática em torno da crise dos abusos sexuais.

Os outros cardeais-bispos são Giovanni Battista Re, Francis Arinze, Tarcisio Bertone e José Saraiva Martins. Na verdade, nenhum deles traria tanta bagagem com relação à crise dos abusos sexuais quanto Sodano.

Em terceiro lugar, Bento XVI poderia fazer o que os seus predecessores Paulo VI e João Paulo II fizeram, isto é, de emitir seu próprio documento atualizando os procedimentos para o próximo conclave. Bento XVI publicou um motu proprio em junho de 2007 restaurando a exigência absoluta de dois terços dos votos para ser eleito papa, mas, por outro lado, deixou intocado o documento Universi Dominici Gregis de João Paulo, de 1996.

Se Bento tivesse que publicar tal documento, ele poderia modificar o papel do Decano do Colégio Cardinalício, talvez especificando que os cardeais podem eleger quem eles quiserem para celebrar as missas públicas e presidir as reuniões da Congregação Geral. Dessa forma, Bento XVI poderia fazer com que o movimento pareça ser menos uma acusação pessoal de Sodano e mais uma mudança geral em favor da colegialidade.

Aconteça o que acontecer, muitas autoridades católicas estão esperando que Bento faça alguma coisa.

Por definição, a morte de um papa e a eleição de outro é um momento de intenso escrutínio público para a Igreja. A última coisa que a maioria dos líderes católicos quer estar fazendo quando isso acontecer é tentando apagar um desnecessário e prejudicial incêndio de relações públicas.

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