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23 Outubro 2020

Publicamos aqui o comentário de Enzo Bianchi, monge italiano fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 30º Domingo do Tempo Comum, 25 de outubro de 2020 (Mateus 22,34-40). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

“Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”: essa é a pergunta feita a Jesus por um especialista da Lei pertencente ao movimento dos fariseus. Trata-se de uma interrogação séria, motivada pela exigência de sintetizar os inúmeros preceitos presentes na Escritura, de modo a captar o essencial da vontade de Deus revelada na Torá e nos Profetas.

Tal pergunta, porém, está viciada na raiz por uma intenção malvada, já anotada várias vezes no decorrer do Evangelho, sempre a respeito dos homens religiosos (cf. Mt 16,1; 19,3; 22,18): “interrogou Jesus para pô-lo à prova”, para tentá-lo e surpreendê-lo em falso nas suas palavras...

Jesus, embora se dando da duplicidade do seu interlocutor, não lhe devolve na mesma moeda, mas lhe dirige uma palavra franca e leal: eis a grande liberdade de Jesus, o amor com que ele tenta derrubar as barreiras erguidas pelos homens, oferecendo a todos aqueles que encontra a boa notícia do Evangelho, sem fazer distinção de pessoas (cf. Mt 22,16).

A sua autoridade nasce da escolha de não anunciar a si mesmo, mas a vontade de Deus, a Palavra de vida contida na Escritura: e tudo isso com uma capacidade de síntese que sempre nos surpreende...

Aqui, em particular, Jesus responde citando aquele que ele define como “o maior e o primeiro dos mandamentos”: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” (Dt 6,5).

Sabemos muito bem que se trata do Shemá’ Isra’el (“Escuta, Israel...”: cf. Dt 6,4-9), a profissão de fé repetida três vezes ao dia pelo fiel judeu: ao Deus que nos ama com um amor eterno (cf. Jr 31,3), a ele que nos ama primeiro (cf. 1Jo 4,19), respondemos com um amor livre e cheio de gratidão.

Até aqui, poderíamos dizer, Jesus se mantém no rastro da tradição de Israel. Neste ponto, porém, ele faz uma importante inovação, aproximando o versículo do Deuteronômio a um tirado do Levítico: “O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’” (Lv 19,18).

Voltando à vontade do Legislador, Jesus discerne que o amor a Deus e ao próximo – isto é, ao “próximo” ou, melhor, a quem cada um aceita se fazer próximo, como Jesus mesmo nos ensinou na parábola do “bom samaritano” (cf. Lc 10,29-37) – estão em estreita relação entre si.

Sim, se é verdade que todo ser humano é criado por Deus à sua imagem (cf. Gn 1,26-27), não é possível fingir que se ama a Deus e, ao mesmo tempo, desprezar a sua imagem sobre a terra.

Entre outras coisas, ao evidenciar essa contradição em termos, Jesus está convidando o seu interlocutor, sem o julgar ou condenar, a se esclarecer, a mudar o seu modo de pensar e de agir...

Quem compreendeu com inteligência o nexo indissociável entre amor de Deus e ao irmão foi João que, levando as palavras do seu Senhor e Mestre às últimas consequências, escreveu: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20).

Ao término do seu diálogo com o fariseu, Jesus afirma: “Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”. Assim, ele reitera que a prática do amor é o cumprimento da Escritura, é a forma mais simples e completa de traduzir na nossa existência pessoal aquele amor que levou Deus a entrar em relação conosco, seres humanos, até o dom do seu Filho (cf. Jo 3,16).

Além disso, ao insistir novamente no fato de que o amor é um mandamento, Jesus esclarece que aquilo de que ele está falando não é um sentimento espontâneo que, quase naturalmente, brota do nosso coração. Não, é o ágape, o amor que não exige resposta, mas é doado a qualquer um, sempre, sem qualquer limite, até ao inimigo (cf. Mt 5,44); é o amor a ser pedido a Deus com insistência na oração; é o “esforço do amor” cotidiano (1Ts 1,3).

É aquele amor exemplificado por Jesus com palavras muito concretas, que constituem um urgente apelo para todo cristão: “Tudo quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas” (Mt 7,12).

 

 

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