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11 Outubro 2019

Inúmeras vezes Eliseu e Jesus chamaram seu povo à conversão. Sabiam também reconhecer a fé dos estrangeiros: Eliseu, a de um sírio, e Jesus, a de um samaritano. Unidos ao salmista, celebremos a salvação que se estende «às nações» e «à terra inteira». Para Deus não há fronteiras, ninguém é excluído! “Não há ferida que sua mão não cure!” e “ainda que nos falte a fé, o Senhor permanece fiel à sua palavra”.

A reflexão é de Marcel Domergue (+1922-2015), jesuíta francês, publicada no sítio Croire, comentando o evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum - Ciclo C (13 de outubro de 2019). A tradução é de Francisco O. Lara, João Bosco Lara e José J. Lara.

Referências bíblicas

1ª leitura: Naamã voltou ao homem de Deus e declarou: Não há outro Deus senão o de Israel! (2Rs 5,14-17)
Salmo: Sl. 97(98) - R/ O Senhor fez conhecer a salvação e às nações revelou sua justiça.
2ª leitura: “Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos” (2 Timóteo 2,8-13)
Evangelho: ”Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro!” (Lucas 17,11-19)

A “doença” da relação

Na Bíblia, todas as doenças têm um significado espiritual: o físico sinaliza as atitudes e as carências mais profundas das pessoas. A surdez, por exemplo, é sinal de inaptidão em acolher a Palavra de Deus e também a dos outros. A lepra é imagem da inaptidão em se fazer um só com Deus (impureza), é sinal de uma «doença» da relação: o leproso devia manter-se afastado das comunidades humanas, manter-se à distância, fora das aglomerações. Quem entrasse em contato com algum deles tornar-se-ia legalmente impuro. Daí a pergunta: como os dez leprosos puderam vir ao encontro de Jesus, se estavam excluídos e marginalizados? Podemos notar que já temos aí um avanço ao interdito. Proibição que, aliás, sequer era definitiva: conforme a Lei, os sacerdotes, e somente eles, podiam constatar a cura da lepra e autorizar a volta da pessoa curada ao seio da comunidade (Levítico 13 e 14). Por isso Jesus pede que os dez leprosos, número significativo da multidão, fossem se apresentar aos sacerdotes. O paradoxo é que foi antes mesmo de terem sido curados. Mas os dez homens, obedecendo a uma ordem totalmente irracional, manifestam já serem habitados por um germe de fé. Fé que deveria crescer até chegar ao tamanho adulto, o que só se verificaria para um deles. De fato, se não conduz a uma adesão mais sólida, ao amor, a fé acaba sempre ficando pelo caminho. É só fisicamente que a lepra estará curada, se a relação que ela interdita não for restaurada.

A cura e a salvação

Os dez leprosos tinham ouvido dizer que Jesus curava os doentes. Vieram então ao seu encontro, a fim de recuperar a saúde. Tudo bem, mas saúde tem muitos níveis: há quem goze de boa saúde e há quem tenha a saúde recuperada. Os nove leprosos que não retornaram para Jesus obtiveram a saúde que desejavam; não necessitavam mais dele, portanto. Para eles, no fundo, a saúde se tornara um ídolo; era o quanto bastava para a sua felicidade. Os sacerdotes consultados, com certeza, lhes reabriram as portas da comunidade; o relato de Lucas não condena os nove homens. Permaneceram, no entanto, sob o regime de conformidade à Lei. Já o décimo, que se esqueceu de ir aos sacerdotes e retornou para o Cristo, este sim mudou de universo. Foi o único que se encontrou realmente com Jesus, foi o único a estabelecer com ele uma relação verdadeira. A fim de dar glória a Deus (versículo 15), veio agradecer a Jesus, como se compreendesse a unidade do Pai e do Filho (versículo 16). Para ele, a cura deixou de ser o fim último e veio a se tornar o meio de encontrar Deus. É o novo nascimento! Por isso não só ficou curado, tal como os outros nove (versículo 14), mas foi «salvo» (versículo 19). As palavras empregadas, «levanta-te e vai», pertencem ao vocabulário da ressurreição. Estamos, pois, bem além de uma simples cura. O que salva este homem, diz Jesus, é a sua fé. Ter fé em alguém é a raiz de toda verdadeira relação, porque a fé abre o caminho para o amor.

O Cristo leproso

O décimo leproso é um samaritano. Marginalizado, portanto, não apenas por sua doença, mas também por seu pertencimento a este reino do Norte, que se constituíra rompendo com a tribo de Judá, da qual nasceu o Cristo. Que, por sua vez, não hesita em qualificá-lo de estrangeiro (versículo 18). Pois próxima está a hora em que não haverá mais nem Judeu nem Samaritano, nem judeu nem pagão: a hora em que o Cristo será tudo em todos. Com certeza, nos evangelhos temos relatos de cura em que alusões pascais são mais evidentes (como na história do leproso de Marcos 1,40-45, por exemplo). Não podemos esquecer, no entanto, que, desde o capítulo 9 (versículo 51) de Lucas, estamos a caminho de Jerusalém, onde Jesus será crucificado. E os textos todos que lemos a partir daí estão como que banhados nesta ambiência. Por isso é que Lucas, de tempos em tempos - aqui, por exemplo -, lembra que estamos a caminho de Jerusalém. Aí Jesus conhecerá o destino dos malfeitores. Paulo dirá que ele se fez pecado. Em Isaías 53, o servo de Deus, o que carrega o mal do mundo, é descrito sob os traços de um leproso, de um «ferido por Deus». Claro, o Novo Testamento faz inúmeras alusões a este texto. Digamos que se os leprosos de nossa leitura puderam ser curados, foi porque o Cristo tomou sobre si próprio a decadência que era deles. Por isso, na sequência do leproso que foi salvo, vamos também nós «dar graças», o que chamamos de «Eucaristia»

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