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12 Abril 2019

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, 14 de abril (Lucas 22,14-23,56). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Os Evangelhos nos entregam quatro relatos da paixão de Jesus, narrativas que concordam sobre o desenvolvimento dos fatos, mas também nos parecem diferentes entre si.

No relato de Lucas, proclamado este ano na liturgia, há episódios ausentes nos outros Evangelhos e são registrados detalhes eloquentes, que contribuem para nos apresentar um Christus patiens com características que o terceiro evangelista quer evidenciar para os leitores da sua obra.

Na celebração da ceia pascal, Jesus entrega aos Doze um ensinamento sobre o fato de ele ser “servo” em meio aos discípulos e profetiza uma grande tentação por parte de Satanás em relação à comunidade da qual está prestes a ser arrancado. Ao mesmo tempo, assegura a Simão uma oração por ele e pela sua fé vacilante, confiando-lhe a missão de confirmar os seus irmãos.

Na agonia do Getsêmani, Jesus é assaltado por uma forte angústia, até suar o sangue por aquela tensão-medo diante da morte. Porém, um anjo vem em sua ajuda, um mensageiro de Deus que aparece como um sinal da interpretação salvífica daquela paixão. Durante o processo junto ao procurador romano Pilatos, nada menos do que três vezes Jesus é declarado inocente e imediatamente depois se encontra com o tetrarca Herodes, diante do qual ele silencia absolutamente. As mulheres discípulas encontram Jesus no caminho para o Gólgota e recebem uma palavra dele.

Por fim, na cruz, com as suas últimas breves palavras, Jesus perdoa o malfeitor ao seu lado e entrega a sua respiração, o seu espírito, de volta nas mãos do Pai.

Podemos notar que quase um terço dos versículos do relato da paixão são redigidos por Lucas, enquanto os outros são tirados da sua fonte, Marcos. Não podendo comentar todo o relato lucano, escolhemos, portanto, evidenciar apenas os episódios próprios desse evangelista, de modo a compreender, através desse caminho, a rica diversidade dos relatos evangélicos, capazes de alimentar e aprofundar a nossa fé.

Para Lucas, a paixão é, acima de tudo, a hora da tentação que assalta Jesus, assalta os discípulos e, portanto, também a Igreja. Quando o menino Jesus foi apresentado ao templo para ser oferecido ao Senhor, o ancião Simeão, que aguardava a libertação messiânica, reconhecendo-o por revelação do Espírito Santo, proclamou: “Ele será um sinal de contradição para que sejam revelados os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 34-35). Agora, durante a paixão, Jesus aparece como sinal diante do qual ocorre a queda nas tentações ou a ressurreição, a salvação.

Para Lucas, a hora paixão é também “o tempo oportuno” (Lc 4, 13), em que o diabo voltaria a ele para tentá-lo. Ele não o havia vencido no deserto (cf. Lc 4, 1-12), mas agora ele retorna, colocando na boca dos perseguidores de Jesus as suas próprias palavras: “Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo...”.

Acima de tudo, no Monte das Oliveiras, Jesus, justamente para não cair em tentação, reza, prostrando-se até de joelhos e pede: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!”. Eis a agonia, o combate que ocorre dentro de uma oração mais intensa. O medo da morte vivido por Jesus atesta inequivocamente a sua pertença em tudo à condição humana. Jesus não tem uma vontade diferente ou contrária à do Pai e até o fim procura apenas realizar essa vontade; mas, como homem igual a nós em tudo, exceto no pecado (cf. Hb 4, 15), ele sente angústia diante da morte, apesar de tê-la anunciado como resultado necessário da sua vida, em conformidade com o amor de Deus (cf. Lc 9, 22,43-45; 18, 31-34).

Se Jesus vence toda tentação, seus discípulos não conseguem fazer o mesmo e, entre eles, em particular, Pedro. Um dos Doze, Judas, trai Jesus a ponto de entregá-lo nas mãos dos seus adversários, os chefes dos sacerdotes do templo que haviam decretado a sua morte. Os outros discípulos, precisamente enquanto Jesus anuncia a traição por parte de um membro da sua comunidade, começam a discutir quem entre eles era o maior. E Pedro, quando lhe é anunciada a prova por parte de Satanás, o fato de terem passado pelo crivo como o trigo, de modo presunçoso, promete uma fidelidade a Jesus que, poucas horas depois, desmentirá, declarando que nunca o conheceu.

Essa é a queda na hora da tentação: os Doze não souberam rezar para entrar na tentação e sair vencedores dela, ao contrário de Jesus, que, precisamente nesse combate, precisamente naquela escuta da palavra do Pai e naquela invocação repetida, conseguiu ler (o anjo intérprete de Lc 22, 43!) o sentido daquela sua morte e, portanto, torná-la um ato preciso, uma doação nas mãos do Pai: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!”, significativa citação das palavras de um salmo (31, 6) por ele rezado tantas vezes.

Em Lucas, além do tema da tentação e da oração para combatê-la e vencê-la, podemos entrever uma ênfase particular no perdão que Jesus sabe dar também nessa hora, a hora dos seus inimigos, a hora que ele mesmo define como a das trevas.

Quando ocorre a sua captura e um dos discípulos saca a espada para defendê-lo, ferindo a orelha de um servo do sumo sacerdote, Jesus não só se opõe a tal comportamento, mas imediatamente toca a orelha sangrando e o cura, com um gesto que é muito mais do que uma declaração de perdão.

Também chama a atenção uma anotação unicamente lucana sobre o olhar dirigido por Jesus a Pedro depois da sua tríplice negação. O apóstolo que quisera tranquilizar Jesus sobre o seu seguimento fiel, na realidade, nega tê-lo conhecido por nada menos do que três vezes e faz isso diante de uma serva e de outras duas pessoas anônimas presentes no pátio do sumo sacerdote. Então, o galo canta, e, no mesmo instante, Jesus se vira, procura Pedro com o seu olhar de misericórdia e provoca nele um pranto de arrependimento, um pranto amargo que nasce da consciência de não ter sido capaz de permanecer firme como uma Rocha, firme como a sua vocação lhe exigiria.

Mas é sobretudo na cruz que Jesus revela a sua misericórdia e torna epifânico o seu perdão. Enquanto já está levantado entre dois malfeitores, um à direita e outro à esquerda, olhando para os seus algozes, os seus inimigos e a multidão que assiste àquela execução, Jesus reza dizendo: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!”.

Enquanto os humanos o estão matando, Jesus invoca sobre eles o perdão de Deus, faz-se instrumento de reconciliação. Não desculpa os malfeitores, mas denuncia a sua ignorância, o fato de não saberem o que fazem nem o que dizem contra ele e contra o Pai, que o enviou e o declarou Filho eleito e amado.

Um dos delinquentes crucificados junto com Jesus o insulta, provoca-o, tenta-o do mesmo modo que os chefes do povo e os soldados: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”. Mas o outro malfeitor, que sabe reconhecer o próprio pecado contraposto à justiça de Jesus, grita: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado”. Jesus então lhe responde: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. Não no fim dos tempos, não na hora da parousía, mas hoje, na hora da morte, ele poderá seguir o Senhor e Messias no seu reino. Desse modo, Jesus não preservou nem a si mesmo nem ao malfeitor da morte, mas fez dessa morte uma passagem para a verdadeira vida, a em Deus.

Se essas são as características específicas de Lucas ao nos dar o ícone do Christus patiens, é apenas esse evangelista que ousa falar da crucificação como theoría, contemplação. Esta é a contemplação cristã: o crucificado! Olhando para ele, pode-se passar da contemplação ao arrependimento e à conversão, que é sempre um retorno sobre as suas pegadas.

As multidões que se reuniram para aquele espetáculo-visão, tendo visto como Jesus vivera a sua morte violenta e tendo constatado o seu amor muitíssimo capaz de invocar sobre todos o perdão, retornam batendo em seus peitos.

Por sua vez, o centurião pagão – e nós somos convidados a fazer isto com ele! – reconhece a glória de Deus nesse evento que dava a morte a “um homem justo”, sem pecado como Filho de Deus (cf. Sb 1, 16-2,20).

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